• 15 de dezembro de 2019

Pelos filhos, ela matou

 Pelos filhos, ela matou

Por Jean de Menezes Severo


Bom dia, meus doutores, tudo certo? Maravilha! Mais uma coluna pronta para entrar no ar, feita com o maior carinho por este humilde rábula diplomado que vos escreve. Gente, o Dia das Mães está se aproximando e não poderia perder a oportunidade de escrever uma coluna neste sentindo, homenageando as mães de todo este mundo de meu Deus, apesar de não ter tido muita sorte com a minha mãe. Tenho nas mães uma espécie de anjo enviado por Deus para cuidar e zelar por todos nós.

Na coluna de hoje, vou escrever sobre meu júri nº 15, onde eu tive a honra de defender uma mãe que defendeu seus filhos e veio a cometer um homicídio. Dona Maria da Conceição, esta coluna é dedicada para a senhora, um beijo no seu coração. Preparados? Vamos lá, coluna no arrrrrrrr!

As mulheres; sou fã das mulheres. Além de serem muito mais inteligentes do que nós homens, possuem um coração de ouro maior que o mundo. Logo que me formei em Direito e comecei a atuar como criminalista, chamava-me a atenção na fila do presídio a grande quantidade de mulheres nas filas para visitar filhos, pais, avós, sobrinhos, maridos. Essas filas são compostas quase que, na sua totalidade, por mulheres que não abandonaram seus entes que erraram; que deram um passo em falso na vida.

Lá estão essas mulheres, idosas ou jovens, suportando horas a fio na fila do presídio, com suas sacolas, com meias nos pés tendo o chinelo surrado como proteção, eis que não podem ingressar na casa prisional com sapatos. Essas mulheres são a esperança daqueles que estão reclusos. Uma vez, um cliente me confidenciou que só suporta o cárcere porque sabe que lá fora tem alguém lhe esperando. Não tenho dúvida de que as mulheres dão de 10×0 em nós homens, por isso, têm o meu maior respeito e a minha admiração.

Pois bem, feita a introdução da importância das mulheres em nossas vidas, quero contar a vocês, meus amigos leitores, um júri fantástico em que tive a oportunidade de trabalhar, já faz tempo. Ainda não tinha tantos cabelos brancos, bem como pesava muito quilos a menos, no entanto, a vontade de absolver era a mesma de hoje; o empenho, a luta em plenário são iguais quando defendo; não julgo; dou a minha vida na defesa do meu cliente em plenário; saio de mim; ultrapasso meus limites, não sei fazer diferente.

Conheci dona Maria da Conceição já no presídio. Uma jovem senhora dos seus quarenta anos na época. Estava presa preventivamente há mais de um ano aguardando o plenário do júri. Acusação: homicídio triplamente qualificado. Havia matado o marido, um policial aposentado. Não tinha antecedentes, mulher extremamente trabalhadora e querida por todos no bairro. Uma doceira de mão cheia. O presídio não era lugar para aquela criatura. Fui nomeado pelo juiz, muito meu amigo, para fazer aquele plenário. Lembro que ele meu falou:

“Este júri foi feito pra ti!”

Acreditei na causa e mergulhei no processo.

Maria casou ainda muito moça; tinha um casal de filhos pequenos; passou muito trabalho na vida até conhecer Z. A vítima acolheu Maria em sua casa, deu-lhe abrigo e assumiu seus filhos, no entanto, Z tinha um monstro guardado dentro de si que despertava sempre após o primeiro gole.

Z era respeitado no bairro. Um policial linha-dura das antigas, que gostava de contar suas histórias de abuso de autoridade nas rodas de bar. Um homem grande e forte, com mais de um metro e noventa de altura e 150 quilos. Um verdadeiro tanque que, quando enfurecido, ninguém segurava. No início da relação com Maria, Z foi uma pessoa doce e dedicada, no entanto, com o passar dos anos, a verdadeira face daquele homem começou a ser desnudada. Primeiro veio um empurrarão, um tapa, as surras constantes em Maria e nos filhos.

Naquela época, não existia Lei Maria da Penha e Z usava seu poder econômico para prender Maria que não tinha ninguém neste mundo além dos filhos. Maria estava encurralada, não tinha pra onde ir. Dez anos haviam se passado, contudo, a gota da água foi quando Maria pegou Z de surpresa se masturbando enquanto espiava, pelo buraco da fechadura, a enteada, agora adolescente, tomando banho. Ela xingou Z que, no mesmo instante, aplicou-lhe uma surra quando da abordagem e ainda lhe falou:

“A casa é minha! Não se mete!”

Maria então começou a procurar outro local par morar. O dinheiro da venda dos doces não era suficiente para alugar um imóvel, pagar as contas e criar os filhos, mas ela estava decidida: não iria compartilhar o mesmo teto com aquele homem. Os filhos concordaram plenamente. Os três estavam prontos para ganhar o mundo. Infelizmente, Z descobriu o plano de Maria e, naquela noite, aplicou uma surra de tirar sangue nos três “fujões”. Gritos podiam ser ouvidos a distância, mas nenhum vizinho teve a coragem de ajudar aquela senhora e seus filhos.

Eles apanharam (e muito) naquela noite.

No outro dia, Z levantou sorridente e debochado, perguntado aos três se ousariam a ir embora. Maria respondeu que não e que tudo seria como era antes. Inclusive, informou a Z que no jantar iria preparar um arroz com galinha, prato que Z adorava, bem como iria servir uma ambrosia dos deuses, tudo para zelar pela paz do casal.

A noite caiu e Z já chegou todo “botecado”. Maria dissimulou bem, dizendo que tudo estava certo. Serviu um prato reforçado para Z que comeu pouco e fora deitar completamente vencido pela cachaça. Maria tinha pedido para os filhos dormirem em uma amiga e, quando Z caiu no sono, ela não perdeu tempo e aplicou-lhe mais de trinta facadas. O quarto, antes branco, tornou-se vermelho sangue de Z.

Após o ocorrido, Maria ligou para a polícia e se entregou, tendo sido presa em flagrante e encaminhada ao presídio feminino. Lá ela permaneceu recolhida durante um ano até a realização de seu júri.

Na próxima coluna, vou contar como fora o julgamento e o resultado do plenário. Coisas inexplicáveis aconteceram. Esse júri foi um divisor de águas na minha vida como advogado criminalista!

Até semana que vem!

Feliz Dia das Mães!

JeanSevero

Jean Severo

Mestre em Ciências Criminais. Professor de Direito. Advogado.