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O que o perfil de João de Deus tem em comum com o de outros serial killers?

O que o perfil de João de Deus tem em comum com o de outros serial killers?

O brasileiro João Teixeira de Faria, mais conhecido como João de Deus, foi alvo de um escândalo na última semana após algumas denúncias serem feitas no programa Conversa com o Bial sobre um lado do médium até então não revelado.

O caso João de Deus

Médium desde os 9 anos de idade, João é extremamente conhecido por suas “cirurgias espirituais”, trabalhos que o levaram ao reconhecimento internacional sendo entrevistado até mesmo pela Oprah e a atender
importantes figuras, políticos e celebridades.

No programa do Bial, 10 vítimas relataram terem sofrido abusos sexuais durante os processos realizados na casa Dom Inácio de Loyola, onde João de Deus atendia. Mesmo com 330 denúncias ao MP até a atual data, os seguidores do médium o defendem fortemente contando as maravilhas que ele realizou na vida de milhares de pessoas, maravilhas e defesas essas que por décadas calou a voz de milhares de mulheres.

A seguir, quero apontar alguns fatores comuns aos criminosos de caráter serial e o que está presente nas denúncias feitas ao João que encaixa no perfil de um possível estuprador serial. Lembrando que não venho aqui para julgar ou comentar sobre suas ações como médium, mas sim de sua utilização dessa força e poder na comunidade para cometer seus crimes, segundo denúncia das vítimas.

O perfil dos seriais

Mesmo João não sendo acusado do que se enquadra como Serial Killer, seu perfil se aproxima do estuprador serial, principalmente pelo padrão de fala categorizado como oportunista (Ref.6) e pelos comportamentos de manipulação e Modus Operandi que evolui com o tempo visando não ser descoberto.

A maioria dos estupradores seriais possuem um caráter mais próximo ao dos serial killers, onde ele possui uma personalidade oculta da sociedade que aparece apenas com a vítima e outra que ele apresenta para o mundo.

No caso de João, temos uma situação atípica, onde o acusado utilizava de seu poder, influência e popularidade para
cometer os crimes de uma maneira mais persuasiva e sedutora, enquadrando-se mais precisamente como um estuprador serial com os traços da sociopatia ou da pedofilia, que costuma ser um sujeito com comportamento normal em público e na família.

A maioria dos criminosos desse tipo possuem um histórico de abuso familiar na infância ou de fortes traumas, muitas vezes podem vir também de alterações hormonais, traumas físicos ou outros eventos que lesionem a região do córtex frontal e a amígdala.

Um exemplo é o caso do homem que matou toda sua família e depois se matou aparentemente sem motivo e sem
entender o porquê, e em sua autópsia observaram um tumor em sua amígdala. Mas no nosso personagem de estudo, nada disso é descrito em sua biografia, o que então pode ter gerado esse comportamento além dos fatores inatos?

João acreditar ter poderes aos 9 anos a ponto de seu intitular João de Deus e relatar uma forte conexão com os espíritos aos 17 anos pode ser um sinal de esquizofrenia aguda que com o passar dos anos danificou o funcionamento de seu cérebro nessas regiões especificamente, como teorizado por Ward (Ref. 8).

O que aproxima João de Deus dos outros estupradores seriais e como ele realizava seus crimes?

Contexto propício

As vítimas se sentem confusas com o abuso como relatado nas denúncias em que se dizia “Ele introduziu o dedo em minha vagina dizendo que era uma forma de passar a energia” “Eu não sabia direito o que estava acontecendo e quando vi estava com a mão no pênis dele”.

Além do mais, a situação faz com que seja difícil a denúncia, pois como denunciado pela coreógrafa holandesa Zahira, uma das razões de nunca ter denunciado o assédio foi pelo fato de calarem ela com a justificativa de que “Ele cura milhares de pessoas, por que você acabaria com isso contando sua história?”

Habilidade de manipulação

Também relatado pela holandesa, João de Deus falava sobre a família e a vida das vítimas enquanto cometia os abusos, com suas técnicas de leitura fria, fazia com que as vítimas ficassem ainda mais confusas e em choque com os acontecidos e se perguntando se aquilo fazia parte do processo ou era realmente uma situação de abuso.

Mesmo sendo uma situação óbvia de abuso, a contextualização e o machismo da sociedade deixa a vítima se perguntando se aquilo não foi culpa dela ou se deveria denunciar.

João de Deus sabe dessas características da sociedade e da mente de suas vítimas e possivelmente se utilizava disso no seu jogo de poder para manter as vítimas caladas mesmo sem fazer ameaças como a maioria dos estupradores fazem, mas de uma maneira própria.

Ele conseguiu fazer isso utilizando dos fatos sociais, que são coercitivos, externos e gerais, levando pressão e medo a vítima que pode chegar a se sentir até mesmo culpada por denunciar um homem visto por muitos como “um homem de Deus”.

Tal manifestação também é percebida na denúncia feita pela brasileira que disse pensar enquanto sofria o abuso “Se eu gritar, tem milhares de pessoas ali fora que endeusam ele”. O nível de manipulação é tanta, que uma funcionária da casa relatou ter limpado ejaculação da boca de uma menininha sob a justificativa dele de que aquilo era ectoplasma, e só depois perceber o que realmente era aquilo.

Modus operandi: Em todas as histórias apresentadas na mídia até agora, todas apresentam um perfil comum da forma que o crime era realizado, desde a parte psicológica da manipulação, ao contato físico. Com apenas três exceções até a atual data.

João de Deus costuma levar as vítimas para um local específico convidando-as para uma sessão particular, então as leva para um banheiro, que foi descrito pelas vítimas como um cômodo/banheiro, por ser grande e possuir um sofá.

Nesse local ele ia fazendo uma contextualização quase que hipnótica utilizando das fraquezas das vítimas e dos interesses delas em uma possível cura e boas graças na vida, além das formas de manipulação já citadas anteriormente.

Então, costumava deixar as vítimas de costas, puxar as mãos para trás e forçá-las a masturbá-lo, enquanto utiliza seu corpo para sentir prazer apertando seus seios e beijando o corpo. Em três dos relatos apresentados na mídia ele foi além da masturbação forçada e do sexo oral, uma mulher de 47 anos descreveu que aos 11 anos de idade ele fez “tudo que se pode imaginar com ela”, a coreógrafa Zahira descreveu que ele abusou dela na primeira vez com sexo oral e na segunda “penetrou-a por trás”.

O Modus operandi é uma característica comum em criminosos seriais, tanto nos assassinos seriais quanto no caso de estupradores seriais, principalmente a evolução do Modus Operandi visando cada vez mais uma maneira de não ser descoberto.

O que é percebido nas denúncias antigas onde ele apresentava caráter menos persuasivo e mais brutal fisicamente, possivelmente o medo das denúncias levou-o a desenvolver um estilo mais persuasivo e
manipulador mental que foi o marco de sua atuação nas denúncias mais recentes.


REFERÊNCIAS

1. KONVALINA- SIMAS, T. Profiling Criminal –Introdução à análise comportamental no contexto investigativo. 2 ed. Editora Letras e Conceitos Lda, 2014. 306p.

2. NEWTON, M. The Encyclopedia of Serial Killer. Second Edition. Ed. Checkmark Books, 2006.

3. PETHERICK, W.; FERGUSON,C. Criminal Profiling: Behavioural Consistency, the Homology Assumption and Case Linkage. In: Profiling, Vitimologia & Ciências Forenses. Lisboa: Pactor, 2012. P. 227 – 244.

4. Money, J. (1990). Forensic Sexology: Paraphilic Serial Rape (Biastophilia) and Lust Murder (Erotophonophilia). American Journal of Psychotherapy, 44(1), 26–36.

5. HAZELWOOD, R. R., REBOUSSIN, R., & WARREN, J. I. (1989). Serial Rape. Journal of Interpersonal Violence, 4(1), 65–78.

6. Dale, A., Davies, A., & Wei, L. (1997). Developing a typology of rapists’ speech. Journal of Pragmatics, 27(5), 653–669. doi:10.1016/s0378-2166(96)00060-4.

7. Grubin, D. H., & Kennedy, H. G. (1991). The classification of sexual offenders. Criminal Behaviour and Mental Health, 1(2), 123–129.

8. Ward, C. (1980). Spirit Possession and Mental Health: A Psycho-Anthropological Perspective. Human Relations, 33(3), 149–163.

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Gabriel Dionisio G. Mata

Especialista em microexpressões faciais pelo Paul Ekman Group (PEG) e hipnólogo pelo Instituto de Hipnose e Programação Neurolinguística (IHPNL). Graduando em medicina pela Universidade Estadual de Londrina (UEL).

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