• 27 de setembro de 2020

O perfil da mãe filicida

 O perfil da mãe filicida

O perfil da mãe filicida

Essa é uma história atordoante, são de crianças que perderam a vida por crimes cometidos por aquelas em quem mais confiavam. As próprias mães. É um crime que causa demasiada comoção na sociedade: pensar que um adulto pode matar uma criança é inconcebível, mas acontece.

Filicídio é o ato de matar uma criança (próprio filho) com menos de 18 anos, e subdivide-se em outras duas categorias: infanticídio, morte da criança com menos de um ano de idade e neonaticídio, quando o bebê morre nas primeiras 24 horas de vida.

Quando esse tipo de notícia circula na mídia, num primeiro momento a sensação é de incredibilidade, após um tempo fica somente uma pergunta: Por que?

Segundo a pesquisa de Almeida (2012), historicamente as crianças eram mortas por três motivos: as que não foram desejadas, as que nasceram com má formação ou alguma deficiência (minimizando as deformações da sociedade) e as sacrificadas por falta de recursos. Também há relatos de sacrifícios de crianças que consistiam meramente para controle do crescimento populacional.

Por outro lado, a partir da mitologia grega, a qual descreve a história de Medéia (431a.C.), o assassinato dos próprios filhos toma um rumo diferente deste relatado acima. Neste mito, Medéia fora casada com Jasão e tiveram filhos. Após alguns anos seu marido a trai e pede em casamento uma outra mulher, Creusa. Tomada pela raiva, Medéia jura vingança contra seu então amado, matando Creusa e seus filhos que tivera com Jasão.

Enfim, a mãe pode matar seus filhos por diversos fatores. Autores tentaram estabelecer sistemas de classificação, um deles, de McKee(2006) é bem interessante, ele coloca as mães filicidas em cinco categorias, segundo as motivações maternas:

  1. Mães Desapegadas: não existe ligação entre mãe e filho ou ela não é pretendida.
  2. Mães Abusivas/Negligentes: a ligação entre a mãe e a criança possui uma falha, ela pode ser caracterizada como uma disciplina excessiva, reativa ou inadequada.
  3. Mães Deprimidas/Psicóticas: neste caso há a presença de um transtorno mental, que influencia diretamente na relação com a criança e na própria percepção como mãe.
  4. Mães Retaliatórias: são mulheres que cometem o filicídio para punir uma outra pessoa, geralmente o companheiro.
  5. Mães Psicopatas: estas matam conforme seu interesse, pode ser financeiro, exploração ou por autoindulgência.

Vamos aos casos:

Dominique Cottrez ocultou os cadáveres de ao menos oito filhos recém-nascidos na pequena cidade ao norte da França. Um homem fazia escavações em sua nova casa e encontrou duas ossadas, alertando a polícia. Os investigadores foram atrás do casal, antigos moradores da residência. Na época, a mãe de aproximadamente 45 anos, foi interrogada acabou confessando que ela mesma enterrou os bebês, e ainda revelou que havia matado, por sufocamento “uns 10 bebês” ao longo de 10 anos e que eles estariam escondidos em outras partes da cidade. Os recém-nascidos seriam frutos de gestações indesejadas que ela teria escondido do marido.

Yvonne Freaney, uma mãe britânica matou seu filho autista de onze anos por ter supostamente se cansado de vê-lo sendo motivo de chacota na rua. Ela tinha mais três filhos.

Brittany Pilkington, matou sufocados seus três filhos homens em épocas diferentes porque ela queria que seu marido prestasse mais atenção nela e na filha de 3 anos do casal.

Alda Poggi Pereira (Brasil), aos 59 anos, esfaqueou sua filha grávida de 7 meses enquanto dormia, levando-a à óbito junto com o feto e também tentou matar seu neto de quatro anos. A mãe foi internada e diagnosticada como esquizofrênica.

Elisângela Rosa Camargo (Brasil), ao chegar em casa, após buscar seus filhos na escola, colocou uma música alta, pegou uma serra elétrica da oficina que o marido e degolou o filho de seis anos. A filha de menos de 2 anos, assistiu a cena do assassinato do irmão e a mãe a matou usando a mesma arma.  Segundo o depoimento, depois de cometer o crime Elisângela tomou banho, pegou dinheiro e fugiu para a Capital.

Existe pouca investigação relacionada a esse tema, no entanto podemos concluir que nem toda mãe que mata seus próprios filhos possuem a mesma motivação. Apesar de que, geralmente, são taxadas como “loucas” ou “psicopatas”, vimos pelo texto que no filicídio materno existem outros fatores que podem levar a mãe a cometer esse crime incompreensível.


REFERÊNCIAS

ALMEIDA, F. Mães Filicidas: Contextualização e Fundamentação. In: Profiling, Vitimologia & Ciências Forenses. Lisboa: Pactor, 2012. P. 315 – 343.

BULFINCH, T. O Livro de Ouro da Mitologia: História de Deuses e Heróis. Rio de Janeiro: Ed. Ediouro, 2006.


FONTES WEBGRÁFICAS

Último Segundo, Terra, Forums e G1.

Clarice Santoro

Especialista em Psicanálise, Saúde Mental e Criminal Profiling. Psicóloga.