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Plata o Plomo: e se Pablo Escobar não fosse um narcotraficante


Por Maurício Sant’Anna dos Reis


Narcos estreou em agosto de 2015, disponibilizando, de uma vez todos os seus episódios. De lá para cá críticas elogiosas – e outras nem tanto – foram escritas, o que me dá muita tranquilidade para escrever sem medo de spoilers. De outro lado, ante a grande comoção do original Netflix, talvez haja pouco espaço para questionar – um pouco mais – sobre essa parceria Padilha/Moura, de modo que pretendo propor um exercício de abstração.

Quem acompanhou a série – baseada em fatos reais – sabe que Narcos conta a trajetória de Pablo Emilio Escobar Gaviria, possivelmente o maior senhor das drogas de que se tem notícia. A par de licenças poéticas tomadas por seus realizadores[1] – lembrando que se trata de uma obra de ficção, não documental, portanto – Narcos nos traz um excelente panorama do sentido da guerra às drogas – ou de sua falta.

Algumas questões, contudo, devem ser esclarecidos: o ponto de vista imposto pela narrativa é o do agente do DEA[2] americano, Steve Murphy, logo, a partir daqui se fixa o grande antagonismo da série, situando Escobar como o grande inimigo a ser combatido, confrontado pelo virtuoso agente da lei. As virtudes da polícia, sem embargo, no transcorrer de Narcos vão se desmontando. Se inicialmente Javier Peña, parceiro de Murphy no DEA, apresenta um comportamento oposto ao esperado pelo padrão heroico de policial, aos poucos somos apresentados à realidade do departamento e naturalizamos seus procedimentos (que incluem de desvio de verba para suborno da polícia local a barganha e infiltração de prostitutas) de modo que não nos surpreendemos quando Murphy segue a mesma linha.

Esse agir, digamos assim, “pragmático” da polícia não é novidade nos trabalhos de Padilha, exemplo disso são seus mais conhecidos trabalhos, Tropa de Elite 1 e2. O mesmo capitão/coronel Nascimento que não mede esforços (e violência) para ‘combater o crime’ pode ser sintetizado em Murphy e Peña, que embora não abram mão da violência, não se pautam somente por ela. Ironicamente, Nascimento, o herói de Tropa é Escobar, o vilão de Narcos.

O que mais surpreende na série é capacidade empreendedora de Escobar: produção, marketing, distribuição, logística, faturamento; as referências mais comuns dos comentaristas de Narcos dizem respeito ao empresário que se fez, o garoto pobre que por seu esforço prosperou. Quase se esquece que o objeto de sua fortuna era ilícito e, além disso, despertava interesse na maior potência mundial e em sua emergente política de guerra às drogas. Escobar detinha poder econômico, mas não o político. Para que se entenda, embora o dinheiro do Cartel de Medelim tivesse financiado a grande maioria dos congressistas colombianos, Escobar não exercia diretamente esse poder. Justamente essa sede de poder desencadearia atos de terrorismo por parte do Cartel e justificariam maior imposição da força.

Se bem analisado, portanto, a negativa de acesso de Pablo ao exercício direto do poder se deu por conta, arriscaria dizer, quase que exclusivamente do tráfico de drogas. A estrutura organizacional, suas extorsões e homicídios estariam em um segundo plano, o grande problema internacional que a política colombiana tinha que lidar era com o tráfico.

Assim, em um pequeno exercício de reflexão, imaginemos que Pablo Escobar não produzisse cocaína, mas sim óleo de soja, ou seja, vamos trocar o objeto de sua fortuna, não mais a coca, mas sim a soja. Possivelmente para viabilizar a produção em longa escala, Escobar necessitaria de grandes áreas de terra, eventualmente desmatando áreas de floresta e expulsando populações indígenas originárias. É bem possível que gerando insatisfação do povo indígena local, conflitos existissem e que, para tanto, a ‘Hacienda Napoles’ precisasse de segurança especializada para esses conflitos, talvez os mesmos sicários que garantiam a segurança e realizavam as extorsões e homicídios para Pablo.

Mais do que isso, para manter a viabilidade do negócio, possivelmente Escobar buscaria apoio político, inicialmente fincando candidatos e, por que não, candidatando-se ele mesmo – talvez até fizesse uma campanha bem populista, prometendo pela via política (demagógica, só para me fazer claro) o fim da miséria que ele mesmo causou pela via do agronegócio. Não seria demasiado prever que ele se elegesse e, nesse caso, será que teria impugnada sua candidatura, ou será que as mortes decorrentes do progresso do agronegócio ao contrário do tráfico de cocaína estariam justificadas e, em boa medida, toleradas. Talvez nesse cenário, a presunção de inocência de Escobar se mantivesse hígida.

Nesse ponto poderia ser-me objetado que a cocaína seria um mal à saúde pública por si mesmo, ao contrário da soja (a par do relatado dano ambiental e genocídio indígena). Irrelevante ao meu ver é, todavia, a objeção, uma vez que poderíamos, então, trocar a soja por tabaco que o resultado final seria o mesmo.

Disso tudo é inevitável pensar: qual é o sentido de se proibir a droga? Ao evitar um fim maléfico apostamos em um meio ainda mais cruel, meio esse que aceitaríamos se o objeto fosse lícito. Se Pablo Escobar fosse brasileiro e plantasse soja no interior do Mato Grosso, no Paraná e/ou no Rio Grande do Sul, não tenho dúvida que os meios violentos que empregasse estariam legitimados, senão pela sociedade, pela própria política. Não se questionaria – talvez até mesmo se negasse – o genocídio indígena, a invasão de áreas quilombolas e a destruição do meio ambiente. Mas Escobar não produzia soja, produzia cocaína. Se arriscou mais, mas lucrou mais também.


NOTAS

[1] Destaco a crítica de que Pinochet teria acabado com o tráfico no Chile. Nesse ponto é possível que, ao invés disso, o ditador chileno tenha concorrido com Escobar, como destaca Laura Capriglione em ‘Narcos mente sobre o papel de Pinochet no combate às drogas’ para Jornalistas Livres, disponível aqui.

[2] Drug Enforcement Administration.

MauricioReis

Autor

Maurício Sant'Anna dos Reis

Professor
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