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O Poderoso Chefão: a ascensão das famiglias e sua influência

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O Poderoso Chefão: a ascensão das famiglias e sua influência

O ano é 1953. Um cantor no início de sua atividade e pretendendo alavancar sua carreira solicita a Sam Giancana, chefe da influente família de Las Vegas, que o auxiliasse a estrear um filme que sairia no próximo verão, pois o papel além de lhe “cair como uma luva”, traria a consagração e o estrelato de Hollywood.

O problema seria o diretor e praticamente dono dos estúdios, que não aprovava de forma alguma a participação do cantor decadente em sua película. Semanas após, o ator cotado para assumir o papel principal simplesmente e misteriosamente desistiu (Eli Wallach, o Tuco de Três Homens em conflito, e também (curiosamente) o Don Altobello do filme O Poderoso Chefão Parte III) e para seu lugar o desprezado cantor foi chamado, sem nunca antes ter participado de qualquer filme ou obra teatral.

O interessante disso tudo foi que o músico que estreava no cinema, com o auxílio de seu Don, ganhou o Oscar com sua surpreendente interpretação do personagem Maggio, do filme A um passo da eternidade. Foi assim que a aventura de Frank Sinatra começou pelos palcos do cinema e que ganhou fama pela força de sua voz e de sua música (reza a lenda e os detalhes contados por Jerry Lewis na biografia de Sinatra).

Um fato importante: Frank Sinatra cantou, em todos os cassinos da cidade de Las Vegas após a fama, todos os anos de sua vida, talvez como forma de respeito e favorecer seu Don, que teria solicitado ao cantor que trouxesse consigo outros músicos, como Elvis Presley.

Essa cena, certamente levou o leitor a outra lembrança: A saga da família Corleone e o pedido de Jhonny Fontana ao Don, para interpretar um papel no cinema cujo produtor e diretor não aceitaria de forma alguma.

As “famiglias” italianas surgiram na América com uma força única que unia seu conjunto em prol da sobrevivência em um País distante e caracterizado por diferenças culturais gritantes entre os dois povos.

Enquanto o crescia o número de italianos nos Estados Unidos (entre 1870 e 1970 é estimado o número de cinco milhões e trezentos mil italianos no País, a maioria em Nova Iorque), o governo norte americano financiava uma reconstrução genuína de suas estruturas após os intensos conflitos deflagrados pela Guerra Civil, abarcando em suas todas as suas forças uma outra revolução: a Industrial.

Após esse momento, industrias e grandes empresas que hoje controlam a economia americana surgiram, as leis passaram a buscar por uma ideologia moral norte americana, a lei seca e o patriotismo em alta gritavam que acima de tudo a Lei e Ordem e o respeito pela pátria os fariam vitoriosos.

Foi com esse espírito que os EUA entraram cada vez mais em confrontos bélicos e utilizou-se de sua força unificada para propor (e após estabelecer) aos mercados afora a sua economia, sua ideologia e também a sua cultura.

Internamente, as famílias italianas sempre existiram.

Dentro de seus bairros, onde foram selecionados previamente para que pudessem iniciar sua jornada em novas terras, crescia uma cultura a parte, alheia ao mundo que se postava ao redor.

O julgo perante a moralidade, a tradicionalidade e a maneira de ser italiano era observado no interior dos grupos e das famílias, que se espalhavam por territórios e que comandavam e controlavam os negócios que lhes diziam respeito, sem a interferência norte americana.

Com a lei seca, a situação mudou por um momento.

O Poderoso Chefão retrata essa fase: a economia norte americana já estruturada como potência mundial, o País em alta com sua parafernália bélica e seu envolvimento em conflitos que se espalhavam pelo globo, travando uma Guerra Fria de incalculável desperdício de energia, mas de grandes ganhos políticos e de respeito/influência entre os demais concorrentes.

As cinco famílias retratadas por Mario Puzzo e por Coppola no Poderoso Chefão existiram de fato e comandavam toda a jogatina nos cassinos e bingos, inclusive prostituição e troca de favorecimentos pessoais por intermédio da indústria do entretenimento, turismo e diversão.

Eram elas que controlavam os grandes hotéis do país, desde os resorts até os mais famosos hotéis executivos, trazendo à indústria do turismo a imagem que hoje se tem de Las Vegas, quando o jogo passou a ser legalizado em 1931.

Quando o filme O Poderoso Chefão passou a se tornar uma provável realidade os chefes das famílias sentiram um certo calafrio, pois não queriam que ninguém interferisse de qualquer forma em suas virtudes.

Ameaças aos diretores, produtores e inclusive a Francis Ford Coppola, levou-os a marcar um encontro exclusivo com os grandes líderes dessas famílias. Após as explicações a respeito dos assuntos que a história trataria, a única objeção: a palavra máfia não deve ser pronunciada, em nenhum momento.

Tal ordem foi levada ao pé da letra até o fim, todavia a infame palavra fora substituída por outra: família.

Ainda, quanto aos bastidores, segundo os diários de Coppola, era normal um ou outro líder das cinco famílias reais aparecerem no estúdio de gravação para conversar com os atores.

Um fato curioso: o encontro foi marcado por um porta voz de uma família que teria prestado serviços em sua mocidade para a máfia como garoto de recados.

Esse rapaz trabalhava para Don Colombo, que incentivou os produtores a aceitá-lo como ator no filme O Poderoso Chefão: trata-se de Gianni Russo, que interpretou Carlo Rizzi, genro de Don Corleone, marido de Connie. Outra curiosidade: Russo fraturou duas costelas na gravação da cena em que James Caan, o ator que interpreta Sony, aplica-lhe uma surra.

A partir desses singelos aspectos se pode notar a influência das famílias na vida cotidiana, ou seja, ao redor dos afazeres das pessoas comuns.

As famílias que se instalavam em bairros ou até mesmo em cidades inteiras, utilizavam de sua influência para seduzir políticos, juízes, promotores e outros personagens de atuação publica, principalmente dentro do direito, da lei e da proteção legal do Estado, como as polícias, com intuito de que esses os favoreçam em seus intuitos, mesmo que tais intentos fossem legais.

Quanto mais uma famiglia possuía políticos e juízes em sua lista de pagamentos, mais fácil seus projetos passariam a frente das outras famílias, que muitas vezes, intentavam pelo mesmo assunto.

Assim, o controle da influência era a moeda de troca, o grande negócio. As famílias conseguiram seu poder com os jogos e prostituição, com os hotéis que inicialmente começaram pequenos, trazendo cassinos escondidos, uma cultura antiga de jogatinas e apostas que passou a fazer parte do novo país e a seduzir os seus moradores.

Enquanto isso, dentro de seus bairros, a proteção dos italianos e descendentes recém-chegados era feita pelas famílias por seus capos, em troca de favores futuros e na maioria das vezes, por uma quantia em dinheiro que seria disposta ao Don, que não se furtaria de auxiliar seus depositários fieis naquilo que necessitassem.

Além da proteção e da imunidade no interior do bairro, as pessoas que viviam sob o julgo das famílias, tinham o respeito por aquelas que se demonstravam tradicionais, tanto em sua religiosidade (fé) quanto em seus negócios abertos, ou aqueles que eram demonstrados a todos (legalidade).

Por baixo dos panos, quase todas as famílias tinham seus negócios escusos, comprando políticos por troca de votos de seus controlados, trocando sentenças favoráveis por estadias em resorts e em luxuosos hotéis em Las Vegas, tornando cantores famosos que sempre retornam a encantar seus convidados em seus vastos salões pagos inicialmente com dinheiro do jogo.

O Poderoso Chefão traz tudo isso, e ainda, envolve-se com um assunto extremamente delicado, quando em sua terceira parte, escancara o Vaticano e seu Banco, bem como seus negócios afora, como a empresa Immobiliare.

Inúmeras teorias da conspiração trazem o relato do envolvimento da máfia no interior do Banco Ambrosiano e do Banco do Vaticano, em suas transações de lavagem de dinheiro e depósito de grandes quantias, que deviam ser consideradas “bentas” após a entrada em tais instituições consagradas.

A curta vida do Papa Joao Paulo I, Albino Luciani, que comandou a igreja por apenas 33 dias, encontrado morto por causas naturais em seu leito em setembro de 1978, teria ligação com a extirpação que o santo padre havia começado no interior do Vaticano, de chefes de famílias e seus negócios escusos e obscuros.

De toda forma, o filme traz tal relato como enredo de um romance que possui uma grande influência da vida lá fora, ou seja, da dura realidade. Todas as hipóteses trazidas pela obra O Poderoso Chefão, trazem em seu cerne derradeiro a ganância e a impura forma do controle de influenciar outros por intermédio do poder, comprado a princípio pelo dinheiro, e depois, pelo receio e medo de ter o nome envolvido com tais famiglias.

Em uma entrevista concedida ao repórter italiano Enrico Deaglio um dos mais famosos chefes de família, Don Nicola Gentile traz a percepção do que é ser um mafioso:

Doutorzinho, se eu entrar aqui desarmado e você sacar de uma pistola, apontá-la na minha direção e disser: ‘Cola Gentile, ponha-se de joelhos’. O que eu faço? Ajoelho-me. Mas isso não significa que você seja um mafioso somente porque obrigou Cola Gentile a ajoelhar-se. Significa apenas que você é um cretino com uma pistola na mão. Agora se eu, Don Nicola Gentile, entro desarmado e você também está desarmado e lhe digo: ‘Doutorzinho, escute bem, estou numa situação delicada, tenho de lhe pedir para se ajoelhar’. Você me perguntará: ‘Por quê?’ E eu responderei: ‘Doutorzinho, deixe-me explicar…’. E eu consigo convencê-lo de que você tem mesmo de se ajoelhar. Neste momento, quando você se ajoelha, isso faz de mim um mafioso. Entretanto, se você se recusar a ajoelhar, então terei de lhe dar um tiro. Mas isso não significa que eu ganhei: pelo contrário, na verdade, eu perdi, doutorzinho.


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Mestre em Direito. Professor. Advogado.
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