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Por que a sociedade prefere não ler e ouvir os advogados criminalistas?

Anderson Figueira da Roza

Não é segredo para ninguém: todos sabem que a profissão do advogado criminalista é uma das mais criticadas pela sociedade. Sempre foi assim, embora no fundo todos saibam da importância de tal ofício e é muito mais cômodo criticar aqueles que se colocam na contramão do pensamento da maioria.

Com a disseminação do uso das redes sociais, a exposição fica mais evidente, assim como ocorrem as aproximações e agrupamentos de pessoas que muitas vezes sequer se conheçam pessoalmente, observamos também a livre manifestação de qualquer um que julgar se sentir habilitado para tecer seus pensamentos e opiniões.

É interessante observar que algumas vezes os advogados criminalistas anunciam suas tarefas durante o dia, ou apresentam algum resultado nas redes sociais, e a sua rede de amigos curte, comenta, compartilha, etc. Na verdade deveriam ser atos comuns, como fazem as pessoas comuns. Porém, invariavelmente, publicações ou notícias ligadas à profissão da advocacia criminal, não são vistas com bons olhos. Confesso que eu mesmo já recebi mensagens em particular, de pessoas que realmente conheço quase todas no mesmo estilo, dizendo basicamente que esse tipo de notícia ou de publicação não fica bem para o público, e que deveria cuidar mais para não compartilhar essas informações para o meu próprio bem.

Antes de tudo, é preciso ressaltar que a Constituição Federal assegura a “livre manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”. Logo, por esse viés, ninguém deveria se incomodar com o que o outro escreve e ponto final. Mas isto seria um ideal de que todas as pessoas são felizes e vivem na mais absoluta paz umas com as outras.

Volto a pensar nos amigos que tenho que são médicos, dentistas, engenheiros, arquitetos, professores, administradores de empresas, contadores, economistas, informatas, etc., e fico muito feliz quando noticiam algo relativo às suas atividades profissionais, pois, consigo saber um pouco mais do que estão fazendo e confesso que sempre tenho orgulho de tê-los conhecido em algum momento da minha vida. Nem posso deixar de falar também, dos amigos policiais, delegados, promotores, juízes, que diversas vezes expõem seus pensamentos ou noticiam suas atividades, estão cumprindo seu papel perante a sociedade, e merecem sem dúvida alguma o respeito e a admiração que tenho por cada um, e eles sabem disso.

No entanto, logicamente, me coloco na posição de um cidadão, que vive num país cheio de denúncias de corrupção, da violência desenfreada, da individualidade se sobrepondo cada vez mais em face da coletividade, e realmente é complicado que diante desse contexto saber que os advogados criminalistas noticiam que alguém foi solto, absolvido ou algum processo anulado. No fundo, as pessoas em geral pensam no primeiro momento que aumenta a conta dos beneficiários da impunidade, é compreensível.

Mas, para que não fiquem dúvidas, os advogados criminalistas lançam essas publicações e notícias por que:

1) Com o máximo respeito às todas outras profissões dignas, mas ninguém procura um advogado criminalista para expor uma ideia de benefício para si mesmo, ou para os outros. Quem nos procura está ou estará na iminência de se defrontar com uma acusação séria e que vai lhe tirar a tranquilidade e o sono por muito tempo;

2) Depois de contratado, seu cliente no mínimo já está com algum chamado a comparecer numa delegacia para prestar esclarecimentos sobre algo, e jamais esqueçam que o papel aceita qualquer narrativa de algum fato criminoso, por mais esdrúxula e descabida. Uma vez noticiado, alguém vai ter que se defender;

3) Só quem milita na advocacia criminal consegue mensurar o peso de ter uma acusação equivocada ou julgada antecipadamente pela sociedade em geral;

4) Quando um processo criminal depende muito da prova testemunhal, as palavras dos policiais terão um valor muito maior do que qualquer testemunha idônea de defesa;

5) O advogado criminalista defende sozinho seu cliente perante o Estado acusador (Polícia e Ministério Público), para que seja julgado pelo Estado juiz (Poder Judiciário).

Então, quando você estiver lendo alguma publicação ou notícia vinda de um advogado criminalista amigo seu, saiba que subjetivamente ao que está escrito, existem muitos sentimentos que somente ele guardou até aquele momento, e esta capacidade de rapidamente se expor, pouco comemorar, e no dia seguinte recomeçar do zero em outro processo é que nos faz diferente.

AndersonFigueira

 

Autor

Mestrando em Ciências Criminais. Advogado.
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