• 12 de dezembro de 2019

Preconceito contra determinadas raças: incremento aos maus-tratos

 Preconceito contra determinadas raças: incremento aos maus-tratos

Preconceito contra determinadas raças: incremento aos maus-tratos

Foi amplamente noticiado principalmente pelas redes sociais, desde o início de março deste ano, que a atriz Adriana Esteves teria sido atacada e muito ferida por seu cão da raça Chow Chow.

Como a pessoa presumidamente “atacada” é uma atriz famosa, obviamente a notícia viralizou. Por meio de uma rápida busca na internet podem ser encontradas dezenas de postagens abordando o caso, entre elas: 

Segundo um vídeo que está circulando nas redes sociais, Adriana Esteves foi atacada por seu cão, uma espécie da raça Chow Chow que é considerada uma raça perigosa. Pelas imagens, a mulher saiu muito ferida e ensanguentada, se escondendo ao final do vídeo” (ADRIANA ESTEVES…, 2019, grifo nosso).

Eis que a notícia sobre a identidade da mulher atacada era falsa, e foi desmentida em alguns sites: “Em resumo: a história que diz que a atriz Adriana Esteves foi atacada por um cão da raça Chow Chow é completamente falsa! Ou seja, tudo não passa de balela. Não compartilhe!” (BECKER, 2019).

Constatou-se que o tal vídeo é antigo, mas houve realmente um ataque a outra mulher, cuja identidade foi atribuída à atriz. O que importa, aqui, é que o fato trouxe novamente à tona o preconceito contra determinadas raças de cães. Como se percebe na primeira postagem desta coluna, há a afirmação de que Chow Chow é “considerada uma raça perigosa”.

Então, mesmo com o desmentido, o estrago já estava feito. Não se sabe o porquê do ataque, nem em quais condições o animal fora criado e era mantido. Simplesmente, ao se assistir o vídeo, tem-se a impressão de um ataque gratuito.

Outra vítima de preconceito é o Pit Bull. Notícias como “Vídeo mostra ataque de Pit Bull que matou o próprio dono no litoral de SP” apresentam apenas um lado da história e incentivam o sensacionalismo. E sabe-se que nenhuma história tem apenas um lado.

Muito oportuna faz-se aqui a afirmação de Lopes (2018):

Temos tendência a acreditar que o Pit Bull é um cão com um comportamento naturalmente agressivo, mas esta ideia é errada, pois o Pit Bull é um cachorro de caráter equilibrado, atento, fiel e inteligente.

A autora ainda prossegue:

Garantir um dono responsável, saudável e comprometido com as necessidades do animal é necessário quando nos referimos a cães musculosos e de caráter genuíno, mas utilizar o termo de cães perigosos é um erro grave, pois são alguns donos os que são verdadeiramente perigosos para a sociedade. Lembre-se, por exemplo, das lutas de cães que ainda fazem parte da nossa realidade, ainda que seja de forma clandestina (LOPES, 2018).

Segundo Medeiros (1999), o treinamento a que os cães são submetidos pode criar amigos ou matadores:

Os treinadores confinam os animais em cubículos pequenos, impedindo-os de se socializar com outros cães. Exibem-lhes água e comida que não podem alcançar. Tornam os bichos famintos e ansiosos. […] Alguns cães de briga são submetidos a sessões de ginástica que parecem tortura. Costumam ficar dependurados em pneus pela boca para exercitar o músculo da mastigação.

Além disso, “propositadamente, os adestradores atiçam o instinto predatório dos seus ‘atletas’ atirando cachorros, gatos e galinhas vivas para serem mortos e devorados” (MEDEIROS, 1999).

É importante lembrar que o “treinamento” acima descrito enquadra-se perfeitamente como maus-tratos previstos no artigo 32 da Lei 9.605/98, já exaustivamente abordada por esta colunista.

Ressaltam-se as palavras da veterinária Hannelore Fuchs, ao asseverar que “Pit Bulls e Rottweilers bem-educados não saem mordendo”, e ainda complementa: “Se os genes empurram ao ataque, um ambiente contrário a essa natureza reverte o quadro. […] Afinal, é o homem quem cria aberrações” (MEDEIROS, 1999).

Até hoje, como consequência, são vários os casos de abandono de cães de raças consideradas “perigosas”. Abandono é crime, previsto na Lei 9.605/98 (BRASIL, 1998) e no art. 164 do Código Penal (BRASIL, 1940). A advogada ambientalista Renata de Freitas Martins assegura que:

grande tem sido a histeria atualmente em relação aos cães da raça Pit Bull, tendo a imprensa mostrado diversos ataques destes animais a humanos, e, consequentemente, ocasionado abandonos em série destes animais pelas ruas, bem como decisões para o extermínio e matança dos cães. Isso tem-nos levado à indagação: será que na verdade não seriam os animais vítimas dos humanos e não o contrário, como a todo tempo têm tentado colocar em voga? (MARTINS, [20–?].

Entretanto, Chow Chows e Pit Bulls não são as primeiras vítimas de preconceito. No passado recente, Dobermans, Filas Brasileiros e Rotweillers, entre outros, também sofreram discriminação. Podem ser citados, além destes, os gatos pretos, ainda considerados por muitos como sinal de mau agouro e associados à bruxaria.

Portanto, é necessário que aqueles que divulgam manchetes negativas em relação a comportamentos de qualquer espécie animal primeiramente busquem a verdade e as informações corretas, a fim de não incrementar o preconceito já existente em relação a determinadas raças. Respeito, acima de tudo.


REFERÊNCIAS

ADRIANA Esteves foi atacada por cachorro? Saiba de toda a verdade. 11 mar. 2019. Disponível aqui. Acesso em: 22 mar. 2019.

BECKER, Kyene. Adriana Esteves é atacada por cão da raça Chow Chow #boato. 27 fev. 2019. Disponível aqui. Acesso em: 22 mar. 2019.

LOPES, Vanessa. O pitbull é um cachorro perigoso? 14 mar. 2018. Disponível aqui. Acesso em: 22 mar. 2019.

MARTINS, Renata de F. Pit Bulls, vítimas dos humanos. [20–?]. Disponível aqui. Acesso em: 21 mar. 2019.

MEDEIROS, Flávia N. da S. A natureza da fera. Superinteressante [online], 30 abr. 1999. Disponível aqui. Acesso em: 22 mar. 2019.


Quer estar por dentro de todos os conteúdos do Canal Ciências Criminais?

Siga-nos no Facebook e no Instagram.

Disponibilizamos conteúdos diários para atualizar estudantes, juristas e atores judiciários.

Gisele Kronhardt Scheffer

Mestre em Direito Animal. Especialista em Farmacologia. Médica Veterinária.