ArtigosCriminologia Penitenciária

Entenda o que acontece com o preso que furta os pertences dos colegas de cela

cela

Entenda o que acontece com o preso que furta os pertences dos colegas de cela

Os ensinamentos de Lola Anyar Castro são categóricos:

Por exemplo, corroborando esta afirmação, relaciona existir a Criminologia Clássica, a Criminologia Biológica, a Criminologia Biotipológica, a Criminologia Frenológica, a Criminologia Antropológica, a Criminologia Psicológica, a Criminologia Clínica, a Criminologia Genética, a Criminologia Positivista, a Defesa Social, a Criminologia Prevencionista, a Criminologia Funcionalista, a Criminologia Organizacional, a Sociologia Criminal, a Teoria Crítica do Controle Social, a Sociologia da Conduta Desviada, a Criminologia Fenomenológica, a Criminologia Socialista, a Sociologia do Controle Penal, o Martelo das Feiticeiras, a Criminologia Vitimológica, a Criminologia Penitenciária, a Criminologia das Contradições, a Criminologia Ambiental, a Criminologia Garantista, a Anticriminologia, a Criminologia Interacionista, a Criminologia da Reação Social, a Criminologia da Libertação e a Criminologia dos Direitos Humanos. (Criminología de los Derechos Humanos: criminologia axiológica como política criminal. Buenos Aires: Del Puerto, 2010.)

Dando continuidade aos estudos de Criminologia Penitenciária, relatarei mais um dia de estudos no cárcere. Podemos conceituar a Criminologia Penitenciária como a ciência transdisciplinar que tem por escopo estudar o cárcere e seus “atores” pelas mais diversas vertentes científicas. A taxinomia no cárcere é de suma importância.

Nós, em sociedade, não somos iguais em nossos comportamentos, modo de agir, personalidade e etc. Logo, o “cliente” do cárcere, ou seja, aquele que é selecionado para habitar o cárcere (eis aqui presente a seletividade penal) não é igual a nós e nem iguais a eles mesmos. “Cada um é cada um e cada um com seu cada um”. “Vamos ao cárcere”!

Lá estava eu sendo submetido à prisonização (ainda escreverei um artigo sobre o tema) e a despersonalização e para não “chapar” (ficar louco na/por causa da cadeia) tento aceitar como normal as “irregularidades” no cárcere.

Liberei o Raio (Pavilhão), tudo normal (que não é nenhum pouco normal para os que estão na sociedade)!

Eis que escuto alguém gritando:

Eu sou "rato de mocó"! (pessoa que furta os pertences de seus colegas de cela e de outras celas, “moscou” (marcou bobeira) ele “mete” a mão. Furta as peças[1] de seus próprios colegas de cela)).

Pensei alto:

Não acredito que determinaram isso!

Ainda não tinha visão. Nisso, fui ver o que acontecia e era espantoso um preso nu escrito com batom[2] nas costas “Rato de mocó”. Ele abria a porta do “xadrez” (barraco) e gritava.

Nisso, os moradores da cela saiam atrás dele e chutavam suas nádegas. Eis que quando chegou ao meio da galeria da Ala Superior Impar do Raio II um preso saiu da cela de posse de uma “bicuda” (faca) e feriu sua “jaca” (nádegas). Tomou uma “furada”, mas não gritou e continuou percorrendo a galeria e abrindo as portas da cela e gritando.

Chegou ao final da Ala e quando olhou para trás todas as portas das celas estavam abertas e os celerados estavam o aguardando. Ainda não tinham terminado de “brincar” com o “rato de mocó”, nisso ele andava e tomava uns tapas na cara, chutes e estiletadas na “jaca”. A população carcerária lançava o brado:

Vai morrer!

Chegou ao final da Ala Superior e dirigiu-se à escada. Vi ele descendo e gritando “rato de mocó”. Passou por mim e gritou mais uma vez. Agora a massa carcerária já estava toda o esperando do lado de fora das celas. Ele já não tinha mais que abrir as portas dos “barracos” (celas).

Ele já tomava os tapas, chutes e etc. quando se aproximava das portas dos “Xs” (celas), a prática da diversão dos presos mudara um pouco. Cruzou a quadra de futebol de salão do Raio na diagonal, dando os seus gritos que fora obrigado a bradar.

Não necessitou que eu avisasse o Setor Penal (responsável pela segurança e disciplina da Unidade) quando olhei para o “aquário” (nome dado ao local onde existia um vidro que nos permitia dar visão de dentro da “radial” (galeria) do que ocorria dentro dos Raios), vi que vários funcionários estavam ali assistindo os fatos.

Muitos leitores devem estar perguntando:

Mas eles não entram, não tentam parar todo aquele “esculacho” que o preso está sofrendo?

A reposta é não! Nossas funções são exatamente essas, mas como, na condição de agente de segurança penitenciária, vou conseguir (desarmado e sozinho) conter ou convencer uma população carcerária de um Raio de mais de 400 presos, sendo que ela toda já está “inflamada” pela situação?

Não temos “super poderes”. A desproporção “guarda x presos” é gigantesca. Somos, nesses casos, obrigados a esperar a situação se resolver por si só. Mesmo tentando gerenciar a crise (escreverei um artigo sobre gerenciamento de crises no sistema prisional), as técnicas empregadas são ineficazes.

A população está sedenta pelo prazer sádico de torturar o preso.

E assim seguiu o tempo todo: o preso sendo agredido e nós esperando o final (e torcendo para que ninguém o matasse e que eu não fosse pego como escudo por esse preso). Nesses casos, é muito comum os agentes serem pegos por aqueles que estão sofrendo ameaças e agressões com o escopo de solicitar um “bonde” (transferência).

Eis que chegam dois presos “ninjas” (presos ninjas são aqueles que usam pedaços de panos nas cabeças escondendo seus rostos onde a visão é permitida através de dois furos nesses panos).

Pensei comigo:

É agora a hora da carnificina...

Lá iria eu comparecer a vários locais e testemunhar informando que mais uma vez não fui capaz de identificar os homicidas porque estavam com os rostos vendados e, quando tentei ir atrás deles, uma parede de presos me impossibilitou a passagem.

Vi no rosto do preso o seu semblante de medo e um dos presos mascarados me disse:

Mestre, essa “fita” (esse fato) não é com o senhor e a lei na cadeia exige isso. O senhor pode ficar sem problemas!

Pensei comigo e entendi o que ele queria dizer: a prática no cárcere já tinha me ensinado. Eles queriam dizer que se eu quisesse ficar no pavilhão eu poderia ficar e que não havia necessidade de eu sair do Raio.

Nisso respondi:

É a minha cara ficar aqui (dizemos isso no cárcere para esclarecer que é nosso “direito”).

Na hora pensei que esse preso não poderia voltar e subir as escadas voltando a Ala Superior Par, que acabara de percorrer, pois poderia ser morto lá em cima.

Ele fez o que eu faria se estivesse nessa situação. Teve que “encarar” os presos e quando passou por eles tomou muitas facadas na “jaca” (nádegas), mais uma vez não gritou.

Não queriam matá-lo era somente uma forma de diversão sádica do cárcere. Afinal de contas, na Unidade não tem teatro ou cinema e para não cair na rotina eles usam essas práticas como entretenimento.

Liberamos o portão que dá acesso a galeria para que ele pudesse sair. Consequentemente, como era “rato de mocó”, todos os seus bens foram “saqueados” pelos presos: mais uma forma de vingança do cárcere quanto a esses presos que possuem esse perfil criminológico.

Pedi rendição, pois precisava conversar com esse preso para tentar colher informações sobre a população carcerária. Como um “bom preso”, ele não quis delatar ninguém (delatar é para fracos e não é admitido no cárcere, sob pena de pena capital (morte)).

Como não consegui informações, retornei ao Raio II e alguns presos olhavam para mim, riam e diziam:

Mestre, é lugar né?

Nisso o cárcere voltou ao seu curso “normal”.


REFERÊNCIAS

[1] Peças são materiais de higiene que a Unidade fornecia. Ultimamente não tenho verificado mais essa prática. Os presos nos solicitavam as peças. São elas: aparelho de barbear, sabonete e pasta de dente.

[2] Os homossexuais tem batom, logo “alguém” “conseguiu” com “elas”.

Autor

Diorgeres de Assis Victorio

Agente Penitenciário. Penitenciarista. Pesquisador
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