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A prova de Hamlet

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A prova de Hamlet

Uma prova inconteste de que Hamlet é a desconcertante interação entre a loucura e a razão jaz em suas provocações incongruentes e, da mesma forma, fixas em uma realidade que transborda ao meio de delírios e certezas. O jovem príncipe da Dinamarca é certeiro em seus anseios de vingança e em suas provocações, mas incerto em suas próprias convicções.

Entre a melancolia e a mágoa por ter perdido o pai tão bruscamente, ver a mãe casando-se com o tio num repente, ao mesmo tempo em que via o mundo ao ser redor transformar-se; algo sobrenatural elevou-o à um outro patamar.

O jovem Hamlet

Destaca-se a inteligência e perspicácia de Hamlet, com suas respostas sensatas que revelam toda a estrutura de um pensamento em angustia, que aflorou após um acontecimento inusitado.

Seu pai, após a morte, surge como um espirito pedindo vingança, contando ao filho da armadilha causada por seu irmão, para assumir o trono. E é a partir do encontro com o sobrenatural e com o inexplicável, que o jovem Hamlet transforma-se em um expectador das impurezas e das faltas humanas.

Como se diferenciado por uma experiência traumática que deixa marcas, o príncipe dinamarquês percebe aquilo que ninguém nunca em vida até então, havia percebido: há algo a mais entre nossa vã filosofia e as coisas do céu e da terra. Aqui esclarece-se ao jovem as angústias do mundo e da terra, abrem-se as cortinas da ignorância e apresenta-se uma nova condição antes apenas imaginada, agora provada.

Ocorre que nessa situação, como comprovar, por meio do metafisico, o assassinato do pai e rei? Como provar algo que lhe foi demonstrado por intermédio do obscuro e ao mesmo tempo, de que modo fundamentar a si mesmo, que era real?

A prova da Hamlet cativou dúvidas em sua inteligência, que se aflorou ainda mais com a experiência, absorvendo toda a angustia humana por intermédio da certeza que já se fazia presente em sua mente. Não estamos sozinhos, existe um além mais e esse sofrimento em terra é passageiro; mas a vingança somente pode ser exercida com a certeza.

Hamlet então afirmou:

não é aquilo que eu sei, mas aquilo que eu posso provar.

O obscurantismo não poderia, dessa forma, ser prova cabal da traição do irmão do rei, até mesmo, da traição de sua mãe que segundo Hamlet, não teria esperado o tempo de luto para casar-se novamente. A prova teria que ser cabal, não hesitante, mas certeira.

Para apresentar a prova de um acontecimento que reflete os caminhos da passeidade não se pode eivá-la por experiências improváveis, nem por atos de vontade ou de vingança. Hamlet sabia disso, por esse motivo criou o circo e por intermédio da confissão, conseguiu a comprovação que queria: seu pai havia realmente sido assassinado pelo irmão.

Hamlet estava acima de tudo, pois sabia que o além existia. Mas e se essa eternidade somente fosse possível na cabeça de alguém que estivesse perdendo o juízo, ficando louco?

Assim, precisava da comprovação que aquela entidade realmente era real, e que, aconteça o que acontecer, não estava perdendo o juízo, e poderia buscar por sua prova da traição e assassinato, sem culpa alguma.

E comprova. A beira de um túmulo, encontra o crânio de Yorick, antigo bobo da corte que divertia a todos com suas piadas e carregava o jovem príncipe em seu colo. Naquele local de morte, considerou que há muito mais e que sua visão o levava ao conhecimento e não o carregava para a loucura, pelo simples fato de que existe mais na condição humana do que apenas sobreviver.

Dessa forma, Hamlet foi testemunha, juiz e algoz dos males da humanidade.

Autor

Iverson Kech Ferreira

Mestre em Direito. Professor. Advogado.
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