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Psicanálise das massas e líderes perversos

psicanálise das massas

Psicanálise das massas e líderes perversos

O fato de Donald Trump ser uma pessoa desagradável em seu discurso e em suas atitudes foi o que mobilizou a associação de psiquiatria norte-americana a emitir uma carta aberta com considerações sobre seu perfil, que demonstra

uma inabilidade em tolerar diferentes pontos de vista do que o dele […] e de suas palavras e ações sugerirem uma profunda inabilidade na capacidade de empatia…

E isso é só um exemplo, entre outros quesitos, do que a carta alerta para seu perfil, que seria incompatível para o cargo do qual ocupa. Líder da maior potência do mundo… Mas, quando pensamos nisso, como podemos compreender esse fenômeno?

O que pode ser observado, relativamente, está ligado ao encantamento que ele promove nas massas, visto que ele foi eleito. Quando as pessoas estão com raiva, sentindo-se insatisfeitas, passam a dar muita importância para seus próprios sentimentos, e, quando elas percebem em Donald Trump esses sentimentos refletidos de volta para elas, em sua linguagem rude, isso, de certa forma, permite que elas também sejam rudes e cruéis.

Mas este não é um fato isolado e também nenhuma novidade, pois não é incomum que malucos, ditadores e inescrupulosos conquistem o poder. Basta olhar ao longo da história humana. Mas que mecanismo psicológico estaria por trás disso?

Como seria impossível esses líderes perversos ganharem uma eleição com base em argumentos lógicos e racionais, sua propaganda e discurso mobilizam reações emocionais, irracionais e primitivas. O ódio como um subproduto dessas reações acaba se tornando um veículo de manipulação de massas. Tal quadro de referência foi fornecido pelo próprio Freud em seu livro Psicologia das massas e análise do eu (1922).

Não é exagero dizer que Freud previu tais acontecimentos através da análise de tais mecanismos em termos psicológicos. Por isso, pode-se notar que geralmente homens primitivos emergem das massas, o que poderíamos supor que o discurso do ódio nada mais é do que a evocação do primitivo em cada um de nós, uma retomada de forças inconscientes presentes no ser humano e no seu processo civilizatório.

Assim, a irracionalidade é despertada pelo discurso de ódio do líder em seu seguidor, porém, do ponto de vista do líder, suas intenções são bastante racionais, uma vez que seu interesse é justamente despertar nos seus seguidores seus impulsos mais arcaicos para assim se identificarem com um líder forte e autoritário.

Sua racionalidade está no fato de utilizar de um discurso como uma forma de manipulação, demonstrando assim sua premeditação e intencionalidade, domínios esses da racionalidade e não da irracionalidade. Portanto, tais líderes, possuem o pleno entendimento dos designos malignos e sádicos de suas atitudes de manipulação e destruição.

Quem não os possuem são as massas, que acabam por se tornarem vítimas de tais ações, e, ao mesmo tempo, sem terem consciência de tal manipulação, tornam-se o tipo de vítima colaborativa. E é isso que justifica o discurso de ódio ser reproduzido por parte dos seguidores do líder, que não o abandonam, não mudam de opinião e ainda agridem quem pensam diferente.

Afinal, como não utilizam sua racionalidade, não podem avaliar tais atitudes que certamente permitiriam uma mudança de opinião. A ideia de um líder forte também ressalta o narcisismo de seus seguidores, pois existe um fenômeno de identificação. Assim, psicologicamente, a imagem do líder passa a ser de um todo-poderoso, assemelhando-se à forma como uma criança identifica psicologicamente seu pai, como um superprotetor e superpoderoso.

O endeusamento do líder reforça o narcisismo de seus seguidores, que, agora, engendrados nesse processo, estão aprisionados psicologicamente em uma relação abusiva da qual não conseguem sair. Então, o líder passa a ser venerado como um deus, um super-homem ou um messias.

Ao mesmo tempo que se mostra como um super-homem, o líder também aparece como uma pessoa comum, uma pessoa do povo, simples e humilde, e isso foi o que todos demagogos fizeram ao longo da história. Uma mistura de super-homem com um homem comum, um deus que é humano. O ganho narcisista é obvio para seus submissos, que se sentem pertencentes ao melhor grupo, ao grupo dos fortes e dos vencedores.

O mesmo fenômeno também ocorre em grupos religiosos, que também foram objeto de investigação de Freud. Uma religião, que mesmo se qualifica como religião do amor, deve ser dura e desamorosa para com aqueles que não pertencem a ela, pois só aquele grupo seleto é que vai para o céu.

Dentre todos esses fatores, podemos identificar que estamos inseridos em grupos e/ou alguma massa, e seria imprescindível identificar em qual massa estaríamos imiscuídos. Então, libertar-se dela só pode ser atingido através de um processo de uma reflexão honesta de si mesmo, através do autoconhecimento. A psicanálise, ao favorecer o livre pensar, parece ser uma arma poderosa contra tudo aquilo que nos desumaniza e escraviza nosso pensamento.


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Autor

Mestre em Enfermagem Psiquiátrica. Professor convidado do Instituto Paulista de Estudos Bioéticos e Jurídicos. Psicólogo forense.
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