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Psicologia da corrupção: uma abordagem cognitiva

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psicologia da corrupção

Psicologia da corrupção: uma abordagem cognitiva

O termo “corrupção” compreende uma variedade de comportamentos que têm como princípio a apropriação indevida de uma autoridade pública para fins privados, causando prejuízos materiais e morais a uma sociedade por operar contra a lei [1].

Tal conduta causa impactos negativos em áreas como crescimento econômico, qualidade no fornecimento de serviços públicos, meio ambiente, níveis de desigualdade e até na credibilidade de um governo em negociações internacionais. Desta forma, se evidencia a urgência em desenvolver formas eficazes de combater a corrupção, que é um dos maiores desafios sociais desta época [2].

Este comportamento é bastante complexo e possui múltiplas causas, e é necessário que se compreenda os mecanismos inerentes ao mesmo para elaborar estratégias mais eficientes para combatê-lo [3].

Psicologia cognitiva e psicologia da corrupção

A escassez de literatura sobre modelos teóricos sobre a psicologia da corrupção torna ainda mais difícil a compreensão sobre o tema [2], mas existem fontes que propiciam teorias pertinentes ao problema da corrupção e sua relação com a psicologia. 

Nesse artigo é explorada a abordagem da psicologia cognitiva e sua contribuição para um maior esclarecimento acerca deste fenômeno. Sob essa perspectiva, utiliza-se o termo “desengajamento moral” (moral disengajement) como fator central para ocorrência da corrupção e também para a sua previsão [1]. Este termo define um processo cognitivo pelo qual um indivíduo reinterpreta seus conceitos morais de uma forma que possa modificar ou bloquear seu julgamento moral, se tornando capaz de realizar atos desumanos sem sofrer com uma grande quantidade de estresse ou culpa [4].

O desengajamento moral ocorre por meio de subprocessos cognitivos como: Simplificar um dilema por meio de racionalizações e eufemismos (deturpação cognitiva); minimizar o próprio papel na conduta ilícita ou admitir que a mesma é inevitável, deslocando a responsabilidade para as circunstâncias; reduzir a dissonância cognitiva desumanizando as vítimas ou culpando as mesmas pela ocorrência do ato corrupto.

As racionalizações permitem que os indivíduos justifiquem seus atos para si mesmos e perpetuem a corrupção dentro de uma organização, tornando-a sistêmica e resistente [5]. Outro pensamento comum em pessoas que cometem esse tipo de crime envolve o viés de reciprocidade, onde há uma cooperação como forma de “pagamento” por uma ajuda recebida anteriormente. Isso pode ser ilustrado pela ideia de que “você me ajuda e eu te ajudo”. Desta forma, é possível que uma relação de cooperação ilegal surja e se perpetue em uma organização [6].

Psicologia da corrupção

Também é possível analisar este comportamento sob uma perspectiva cognitiva na tomada de decisão. Um indivíduo faz operações mentais baseadas nos possíveis custos e benefícios oriundos de sua conduta, e decide executar a mesma se acreditar que os ganhos compensariam as possíveis perdas. Esse modelo ilustra o dilema que ocorre durante a tomada de decisão no comportamento corrupto, onde uma pessoa acaba escolhendo dar preferência a seus próprios interesses e prejudica os interesses da organização que pertence.

Sabe-se que durante o processo de tomada de decisão, a antecipação mental dos cenários decorrentes possíveis é um fator crucial para a escolha da ação do indivíduo. Essa antecipação pode causar sensações positivas ou negativas, a depender das crenças que uma pessoa tem sobre a probabilidade da sua conduta lhe favorecer ou de lhe prejudicar.

Desta forma, é provável que o comportamento corrupto ocorra com maior frequência em indivíduos que sentem mais emoções positivas advindas da antecipação de cenários favoráveis, como os lucros financeiros resultantes da ação criminosa. Ainda pode ocorrer uma sensação específica de prazer decorrente de se livrar da punição por cometer um ato ilícito. Esta é descrita como “cheater’s high”, ou o “barato do trapaceiro” [2].

Como a antecipação de cenários que uma pessoa acredita serem mais ou menos prováveis está relacionada com o seu processo de tomada de decisão, no caso de um indivíduo que possui pouco conhecimento sobre a probabilidade de ser pego e sofrer penalidades, a sua conduta ilícita pode se perpetuar também por falta de informações que lhe fariam acreditar que possui grandes chances de ser capturado.

Isso pode indicar que movimentos e políticas de conscientização acerca do combate a corrupção podem ser úteis para reduzir esse tipo de crime. Entretanto, existe a possibilidade de certos tipos de campanhas causarem o efeito contrário, a depender de sua execução. Por exemplo, movimentos que focam em disseminar uma cultura de tolerância zero para com a corrupção podem causar um aumento na intensidade ou frequência deste ato, pois os criminosos poderiam buscar obter a maior quantidade de lucros ilegais a curto prazo pelo receio de serem pegos quando se aplicarem novas políticas de combate num futuro próximo.

Desta forma, evidencia-se a complexidade que envolve o fenômeno e como pode ser difícil elaborar estratégias de enfrentamento eficazes contra esse problema. Esta dificuldade pode ser ilustrada pela pequena diminuição dos índices de corrupção em países avaliados como bastante corruptos, apesar do crescimento dos movimentos e campanhas contrários a essa conduta criminosa. Os planos de enfrentamento precisam de informações mais embasadas cientificamente para poderem direcionar seus esforços em variáveis que realmente possuem influência relevante no surgimento e reprodução de atos corruptos [5]

Posições de poder também demonstram aumentar as chances de que uma pessoa aja de forma corrupta. É possível que obter poder incite modificações cognitivas acerca do julgamento moral de um indivíduo, permitindo que o mesmo tenha uma maior inclinação para cometer atos ilícitos [5]. Além disso, existem traços comportamentais narcisistas que podem ser exacerbados quando alguém se encontra numa situação de superioridade.

Uma pessoa pode começar a acreditar que merece algum tipo de tratamento especial e que não precisa respeitar certas regras, o que pode se tornar bastante prejudicial para a estrutura de um grupo ou organização.

Esse evento se torna ainda mais recorrente em indivíduos que possuem níveis altos de testosterona. De fato, há estudos demonstrando a influência desta substância no comportamento corrupto [7] e como esta é um dos fatores preditores para o mesmo [8]. Mais uma vez se explicita a complexidade que envolve as causas da corrupção, de modo que até aspectos hormonais participam de forma relevante na ocorrência deste comportamento.

Como foi dito, o poder parece exercer grande influência em quem o detêm. Isso significa que a tomada de decisão frente ao dilema de agir de forma corrupta não envolve apenas fatores externos ou internos ao indivíduo, mas justamente a sua compreensão acerca dos dois e como estes influenciam seus processos cognitivos.

Não existe um fator único que sirva como preditor de corrupção, nem tampouco é possível assegurar que alguém não agirá de forma imoral em circunstâncias diversas. Sabe-se que as características de honestidade não demonstraram garantir que uma pessoa continuará agindo de forma honesta à medida que conquista mais poder [8].

Programas com vídeos educativos sobre comportamento ético em empresas não são suficientes para causar mudanças significativas na dinâmica da corrupção. É importante que sejam instauradas políticas que incentivem os funcionários a correrem riscos de observar e identificar condutas suspeitas para posteriormente notificarem as autoridades responsáveis sem medo de serem repreendidos.

Organizações que realizam este tipo de incentivo têm menos chances de sofrerem com a sistematização de comportamentos corruptos persistentes no ambiente de trabalho. Por fim, também é importante que se desenvolvam modelos teóricos explicativos destes eventos para que o conhecimento sirva de embasamento para ações de enfrentamento, investigação e dissuasão dos crimes que a corrupção engloba. Para isso, a multidisciplinaridade é necessária para uma compreensão mais rica sobre tais fenômenos, pois existem diversas explicações possíveis sobre suas causas [6].


REFERÊNCIAS

[1] ABRAHAM, Juneman; SULEEMAN, Julia; TAKWIN, Bagus. The Psychology of Corruption: The Role of the Counterfeit Self, Entity Self-Theory, and Outcome-Based Ethical Mindset. Journal Of Psychological & Educational Research, Jacarta, v. 2, n. 26, p.7-32, 1 dez. 

[2] KÖBIS, Nils C. et al. Prospection in individual and interpersonal corruption dilemmas. Review Of General Psychology, Amsterdan, v. 1, n. 20, p.71-85, abr. 2016.

[3] FEIN, Elke; WEIBLER, Jürgen. Cognitive basis for corruption and attitudes towards corruption in organizations viewed from a structuralist adult developmental meta-perspective. Behavioral Development Bulletin, [s.l.], v. 19, n. 3, p.78-94, set. 2014. American Psychological Association (APA).

[4] Juneman Abraham, Julia Suleeman and Bagus Takwin, 2018. Psychological Mechanism of Corruption: A Comprehensive Review. Asian Journal of Scientific Research, 11: 587-604.

[5] DUPUY, Kendra; NESET Siri. The cognitive psychology of corruption: Micro-level explanations for unethical behaviour. U4 Anti-corruption centre, 2018.2.

[6] The Social Psychology of Corruption – Global Trade Without Corruption; April 2016; Paris – France

[7] Mead, N. L., Baumeister, R. F., Stuppy, A., & Vohs, K. D. (2018). Power increases the socially toxic component of narcissism among individuals with high baseline testosterone. Journal of Experimental Psychology: General, 147(4), 591-596.

[8] BENDAHAN, Samuel et al. Leader corruption depends on power and testosterone. The Leadership Quarterly, [s.l.], v. 26, n. 2, p.101-122, abr. 2015. Elsevier BV. Disponível aqui. Acesso em: 26 jun. 2019.


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Autor
Instrutor de Criminalística e Técnicas de Entrevista. Pós Graduando em Ciências Criminais. Membro da Sociedade Brasileira de Ciências Forenses.
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