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Psicopata x advogado: no limite da mentira e da verdade

Canal Ciências Criminais

Por Anderson Figueira da Roza

A história que passo a relatar para os leitores é absolutamente verídica, infelizmente. Digo isso não pelo resultado, mas por se tratar de um caso que atuei há alguns anos não como advogado criminalista para um senhor, mas por ter feito um dos raros processos cíveis na carreira e obtive uma vitória importante para ele.

Desde aquela época ele sabia que a minha especialidade era a advocacia criminal e que apenas o tinha atendido por uma indicação de um amigo que tinha sido o empregador deste senhor. Ao final do processo cível, ele após me agradecer ainda brincou comigo:

“Sei que não nos veremos mais Doutor, mas se um dia eu souber de alguém com algum problema na área criminal eu mando diretamente para o senhor”.

Alguns anos depois, naquele horário comum de operações policiais, isto é, seis horas da manhã, recebo uma ligação, quando se identifica aquele senhor que eu havia atendido no passado:

“Doutor, preciso de sua ajuda novamente, meu sobrinho, que é como meu filho, foi preso por vários policiais e está indo para a delegacia”.

É difícil conseguir calma daqueles familiares que narram fatos e ainda te dê mais detalhes, por sorte este senhor conseguia ir me contando apenas o que ele havia ouvido de tais policiais, visto que a operação tinha sido efetuada na residência deste senhor.

Então fui lhe indagando se ele sabia qual era a acusação, se tinha mandado de prisão, ou apenas mandado de busca e apreensão, detalhes que poderiam me alertar do que viria pela frente. Ao que ele respondeu que eles vieram cumprir mandado de prisão em desfavor do seu sobrinho, que ele estava sendo acusado de um estupro.

A experiência na profissão de advogado criminalista te habilita a ter contatos que te abreviam trabalho durante a carreira e a não te fazer andar feito uma barata tonta de um lado para outro. Enquanto ia me arrumando e me preparando para sair de casa, entrei em contato com a delegacia, fui informado que a polícia estava apenas cumprindo o mandado de prisão preventiva e que após exames e reconhecimento das vítimas ele seria encaminhado ao presídio, que nem seria ouvido naquele momento. Opa, reconhecimento das vítimas, mais de uma, eu pensei: ih, tem rolo grande aí.

Fui para a delegacia, que estava lotada de policiais, pessoas da imprensa, mulheres que seriam as vítimas. Apresentei-me como advogado do rapaz. Fui falar com o jovem, e este tinha uma fala tranquila, respostas fáceis. Era um homem articulado e inteligente, e que dizia ser inocente, e que ele se submeteria a qualquer exame de DNA, que estava ali por um erro de retrato falado e nada mais, e que eu transmitisse a todos os seus familiares que ele estava bem, e que ficassem tranquilos que logo tudo seria esclarecido.

Pois bem, acompanhei a convite da Delegada, o reconhecimento de três mulheres, que ao verem o jovem com outros três elementos, todas afirmaram que o estuprador era o meu cliente. A situação começa a ficar preocupante, de um estupro já viraram três. Rapidamente eu fui falar com o tio do rapaz fora da delegacia e narrei a situação e disse a ele que se o seu sobrinho fosse o tal maníaco, eu não o defenderia. O pobre tio, se ajoelhou aos meus pés ali fora, e disse que confiava em mim para ajudar a resolver esse engano, que seu sobrinho não poderia ser um estuprador em série. Voltei para a delegacia e fui falar novamente com o jovem e mencionei que as três mulheres o tinham reconhecido, e lhe alertei que me dissesse a verdade naquele momento. Ele foi enfático:

“Estou à disposição para qualquer prova a ser feita, não fui eu, o senhor pode pedir o exame de DNA, que vai dar negativo para todas elas.”

Eu comecei a desconfiar da calma do rapaz, e pensei que ele poderia ser um desses malditos psicopatas que mentem para todos, se colocam como vítimas, afirmam que são inocentes. Tinha que decidir rapidamente o que fazer e conversei com a delegada para saber o modus operandi dos estupros, se foram com ou sem preservativos, e a resposta foi que todas fizeram o recolhimento de secreção vaginal, logo, era possível o exame de DNA com o acusado. Além disso, todas haviam sido violentadas numa praça da cidade e por volta das seis horas da manhã. A delegada ficou satisfeita em saber que ele faria o exame. Ao final me disse que mais duas vítimas estavam a caminho para reconhecimento. Opa, de três estupros vai pular para cinco.

Ainda na delegacia, procurei saber como tinham chegado ao nome do rapaz, ao que me disseram que uma das vítimas do estupro, com medo de morrer, conversava com ele e informou o número de celular para ele. E que alguns dias ele ligou de volta para a vítima, e ela levou o telefone na polícia, e o número era da tia do acusado. Ao identificarem a tia, pesquisaram todos os homens da família e compararam com o retrato falado e o mais parecido era este jovem. Fui novamente questionar o rapaz e ele me disse que jamais utilizou telefone de sua tia, que poderia se sujeitar a qualquer gravação, etc.

Naquele instante tive a certeza que o jovem era um psicopata e fui falar com seu tio e disse que ficaria no caso apenas até o resultado do exame de DNA. Seu tio me respondeu chorando que eu ficaria até o final, pois tinha a certeza que o resultado seria negativo e que isso não passava de um pesadelo.

Os processos foram todos apensados, e houve apenas duas audiências devido ao número de testemunhas, e para o meu descontentamento o resultado do exame de DNA chegou apenas no dia da segunda audiência que era para ouvir as testemunhas faltantes e o interrogatório do rapaz. A juíza antes de a audiência começar me disse:

“Doutor o senhor não gostaria de falar com seu cliente? Pois estou com o resultado dos exames e todos restaram positivos!”

Na mesma hora fui falar com o rapaz e contei o resultado e lhe disse:

“Apenas confesse e deixe que te condenem no menor tempo de pena possível.”

Ele me respondeu:

“Os exames estão errados, não fui eu, querem me incriminar a qualquer custo, por favor, diga aos meus familiares que o resultado está errado.”.

Ele ignorou a orientação, e no interrogatório negou tudo, mentia nas respostas de cada pergunta que comprovavam sua autoria, por misericórdia ainda requeri no final da audiência um exame de sanidade mental para o jovem, por pena dos seus familiares que foram enganados por aquele menino sedutor, elegante, educado, que se colocava na posição de vítima em situações desfavoráveis.

Resultado: cinquenta e dois anos de condenação justa, irretocável. A família, apesar de todas as provas do processo, seguiu acreditando alguma espécie de perseguição policial ao jovem. Para mim, a lição de que por mais que tenha algum apreço por pessoas boas, como era o tio deste rapaz, jamais deixar de ouvir meu instinto novamente ao estar na frente de um psicopata.

AndersonFigueira

Autor
Mestrando em Ciências Criminais. Advogado.
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