• 5 de dezembro de 2020

Publicidade, propaganda e totalitarismo

 Publicidade, propaganda e totalitarismo

Publicidade, propaganda e totalitarismo

Uma característica comum para a ascensão de partidos fronteiriços é a necessidade de uma catástrofe. Com efeito, através de um eficaz trabalho de propaganda, uma tragédia pode vir a ser o degrau necessário, um acontecimento prenhe de possibilidades de manipulação para o ganho de poder político.

Enquanto a publicidade pode ser conceituada como uma atividade de divulgação de ideias, produtos e/ou serviços com o objetivo de obter determinada reação de um determinado grupo, a propaganda, também vinculada à divulgação, está mais atrelada a uma forma de persuadir sistematicamente o povo com viés ideológico.

A primeira, que também pode ser entendida como o dever de transparência do Estado, possui, no presente sentido, uma conotação mais comercial e sobremaneira mais franca, uma vez que, a princípio, visa refletir valores de maneira mais genuína – ou ao menos, menos perigosa. A segunda é uma ferramenta política de disseminação de ideais para a efetiva manipulação das massas. Uma das funções da propaganda é justamente a de mascarar as verdadeiras intenções do grupo de interesse, buscando constantemente moldar a realidade para o público da forma mais conveniente.

A propaganda, por definição, possui uma profundidade maior, pois trata de manejar os sentimentos e emoções das pessoas (muito embora seu sentido original seja neutro). Sua principal função está de fato atrelada à agenda política e pode ser realizada de inúmeras maneiras, tais como omissão seletiva, exagero/frivolidade e mentira propriamente dita.

Como exemplo do uso de uma catástrofe para o ganho de poder, lembra-se da situação oriunda da Black Tuesday, a queda da bolsa de valores de Nova Iorque. O crash desencadeou a maior crise econômica estadunidense e consequentemente despertou repercussões no mundo todo.

Após um breve período de estabilidade no final da década de 20, em grande parte em decorrência de empréstimos oriundos dos EUA, a Alemanha entra em queda livre com o colapso da bolsa. Na situação em que se encontrava, não havia força na base nacional para sustentar uma atribulação daquela magnitude.

Neste contexto, o campo ficou fértil para o especialista em propaganda, Joseph Goebbels, moldar um contexto onde o defasado partido nazista pudesse se reerguer e conquistar, pela primeira vez na história, uma força política contundente dentro do governo alemão.

Na campanha da eleição de 1930, sua eficiente propaganda mostra Adolf Hitler como uma figura a ser respeitada, um estadista sério, um verdadeiro líder, o único capaz de liderar a nação e reerguer o orgulho do povo. A propagação da figura messiânica é muito bem aceita pelo povo em decorrência do contexto fático da época.

Muito embora a supramencionada campanha não tenha logrado vitória absoluta imediatamente, multiplicou os assentos do partido (de 12 para 107) e teve enorme parte na consequente nomeação a chanceler de Hitler em 1933.

A valer, foi este um dos primeiros grandes passos do partido nazista rumo ao subsequente momento de poder absoluto. Após a tentativa frustrada de um golpe de Estado no ano de 1923 e uma aparente derrota generalizada, pela primeira vez os sonhos de tomar o poder por vias legítimas acabaram sendo uma real possibilidade para os nazistas.

Outro ponto crucial e que também corrobora o ponto da presente discussão foi o cenário em que o Reichstag (palácio do parlamento alemão) foi incendiado em 1933. Através da propaganda, o discurso nazista promovido por Goebbels se aproveita para jogar a culpa no seu maior rival político à época, o partido comunista.

Sob o pretexto de proteger a população, direitos civis são suspensos e os nazistas conquistam autoridade legal para suprimir a oposição. Com isso, a violência estatal toma conta da Alemanha. Instituições de polícia opressiva como Gestapo, Schutzstaffel (SS) e Sturmabteilung (SA) rapidamente entram em ação para sistematicamente destruir opositores. Sequestro, tortura e extorsão se tornam ações comuns aos homens de farda apoiados pelo e em serviço do Estado. Era o terror legal e institucionalmente aceito e fomentado pelo governo.

Interessante pontuar que através do contínuo trabalho de propaganda, a opressão acaba sendo vista com bons olhos pelo povo e o partido nazista angaria ainda mais popularidade. No ano de 1933, a expansão do partido nazista cresce exponencialmente. Goebbels toma conta do recém criado Ministério da Propaganda, cargo que acaba lhe dando poder extraordinário através do controle da mídia.

Com a morte do presidente Paul von Hindenburg em 1934, Hitler se autoproclama o Führer, o grande líder da nação, fundindo seu cargo de Chanceler ao do posto do falecido chefe de Estado. A partir daí o Estado total de polícia ganha domínio absoluto e as maiores barbáries contra a humanidade passam a ser cometidas.

Traz-se neste escrito o exemplo da Alemanha nazista porque foi neste regime que, da forma tanto mais cruel quanto eficiente a propaganda foi explorada para controlar a população e dar continuidade ao plano de terror governamental marcado pelo genocídio.

A valer, a propaganda nazista se mostrou extremamente eficaz ao empregar estratagemas baseados no populismo, antissemitismo e na manipulação geral do povo, bem como em promessas de paz e erradicação da pobreza.

Em conjunto com o aparato de propaganda, a elaboração de leis e políticas públicas trabalhavam com a mesma finalidade, qual seja, fazer valerem os interesses do poder utilizando-se de todas as maneiras possíveis.

Basicamente, portanto, essas leis autoritárias tinham dois destinatários: os autocratas, a quem seus escribas deviam agradar para não cair em desgraça, e o público, perante o qual deviam servir de propaganda. Só secundariamente tendiam a burocratizar a supressão de inimigos, que eram os estranhos ou hostis. Na prática, eliminavam os criminosos graves com a morte, matava, ou exilavam os dissidentes e aprisionavam, por tempo indeterminado, os indesejáveis, embora os nazistas também tenham decidido pela eliminação destes últimos. (ZAFFARONI, 2007, p.56)

Através do exemplo alemão, podemos fazer um paralelo com a situação do país nos dias de hoje. Existem muitos (muitos) paralelos hialinos entre o modo com o qual o partido nazista exercia sua propaganda e o atual (des)governo brasileiro.

A busca de ressonância com as paixões populares através do manejo de sentimentos como patriotismo/nacionalismo e militarismo exacerbados, religião, a criação de um inimigo que na verdade não existe, o desprezo aos jornalistas de oposição, a busca pelo controle da mídia e a propagação irrestrita de notícias falsas para mascarar os escrúpulos e corrupções que marcam ambos os modelos são apenas exemplos não exaustivos que podem ser citado prontamente.

O fato é que elementos de extrema direita, de forma assustadoramente parecida com a qual ocorreram as tomadas de governo por regimes fascistas no século XX, lograram êxito nesta empresa de aproveitar-se da situação fragilizada da nação para se consolidarem no poder.

A discussão ora pretendida se faz indispensável neste cenário atual, onde a cultura punitivista se apresenta em constante expansão, tanto no imaginário popular quanto nas instituições. O bombardeio diário de notícias falsas acerca dos assuntos relacionados à política criminal também são alarmantes e contribuem para a retroalimentação de ideias radicais, como por exemplo a redução da maioridade penal, prisão perpétua e pena de morte.

Cabe ao povo o fardo de não tolerar os retrocessos e lutar para a retomada do progresso e fomento da igualdade.


REFERÊNCIAS

ZAFFARONI, Eugenio Raúl. O inimigo no direito penal. 2. ed. Tradução de Sérgio Lamarão. Rio de Janeiro: Revan, 2007.

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