Quando a arte imita a vida e nos faz crer que a vida é um conto: o Faroeste Caboclo (Parte 2)

Por Thiago M. Minagé e Alberto S. Júnior

Em nosso primeiro encontro, o cerne da reflexão serviu como um sucinto alerta acerca da equivocada maneira de construirmos as verdades do mundo pelas convicções de nossa própria medida. Talvez não há para onde fugirmos, se observamos, conforme a máxima de Wittgenstein, que o limite da nossa linguagem é o limite do nosso mundo. Apesar do referido entendimento ter sido superado — em parte — pelo próprio autor em um segundo momento de suas investigações filosóficas, acreditamos que a linguagem é a chave para elucidarmos tamanha dificuldade que muitos encontram ao tentarem refletir acerca de determinados assuntos, a exemplo do tema “violência urbana”. O que fazer? Seria leviano apontarmos repostas simples. Contudo, pensamos que a resposta está para além dos tão festejados rótulos do “ismos” e “istas”, entre outros.

Dando continuidade à trajetória de João de Santo Cristo:

“Sentia mesmo que era mesmo diferente. Sentia que aquilo ali não era o seu lugar Ele queria sair para ver o mar. E as coisas que ele via na televisão. Juntou dinheiro para poder viajar. Escolha própria escolheu a solidão.”

Sobre os “ismos”, a exemplo do “moralismo”, João teria sua sentença antecipadamente declarada, uma vez que os discursos mais acalorados entendem que o ilícito, antes de tudo, é uma conduta imoral. Sendo imoral, aqueles que possuem seus argumentos sobre uma estrutura religiosa de pensamento, onde estamos em uma constante luta entre o bem e o mal, Santo Cristo, o João, é um inimigo a ser eliminado. Precisamos lembrá-los que um dos mais famosos clichês diz que bandido bom é bandido morto?

Do outro lado, os “istas”, a exemplo dos que se autodenominam e pouco compreendem o significado de “socialistas”, João teria sua pena mitigada, uma vez que suas precárias condições de vida, predominantemente oriundas do descaso estatal, justificariam uma vida voltada à marginalidade. Sendo assim, não poderíamos esperar algo a mais de João, o Santo Cristo.

Com tais provocações, não queremos negar que a marginalização social do indivíduo não tenha influência sobre sua relação com o mundo. Não! Tampouco estamos a negar o poder de autodeterminação do cidadão, que poderia optar por fazer ou deixar de fazer algo, pois que o pilar da moral é a liberdade — pássaros não são livres, aliás. Queremos que os diálogos não se limitem aos “rotulacionismos” e seus respectivos jargões. É preciso que nos desapeguemos de nossas “próprias medidas” e projetemos nossos olhares para além do óbvio.

Santo Cristo era traficante, não porque era pobre, tampouco um ser imoral. Sua pobreza, aliás, apenas determinou o seu lugar dentro da estrutura criminosa. Se fosse rico, provavelmente ocuparia a função de financiar helicópteros carregados de cocaína.

Observem a instabilidade emocional de Santo Cristo:

“há muito não ia pra casa e a saudade começou a apertar, eu vou me embora, vou ver Maria Lúcia Já tá em de a gente se casar” …. “Santo Cristo era só ódio por dentro” …. “e mato também maria lúcia aquela menina falsa pra quem jurei o amor” …

Mesmo aqueles que seguem uma vida dita criminosa possuem em sua essência o olhar de criança, aquele mesmo que com o passar do tempo e as pancandas da vida, se dissolve pelos dedos como um líquido que escorre — somos todos humanos, afinal. Um ser humanos que pensa nas pessoas próximas, em quem ama, em quem depende de si, isso por si só é motivo para atitudes em situações normais impensáveis. Mas, quando temos nossos amores “roubados” diminuídos ou mesmo deteriorados principalmente por quem deveria nos proteger o estado, tudo muda, tudo passa, tudo explode.

Mas, em sua condição de pobreza, restou apenas os holofotes da reprovabilidade social e do aparato estatal, conforme observamos diariamente.

Não sejamos mais um destruidor de sonhos, de desejos ou ambições, sejamos multiplicadores e colaboradores, a cada dia basta sua maldade, não deixemos o desejo de vingança prevalecer em detrimento do amor pelo próximo.

Até breve, amigos.

Thiago

AlbertoJ

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