• 12 de dezembro de 2019

Raiz do crime

 Raiz do crime

Raiz do crime

Há uma trama emblemática no filme Curitiba Zero Grau, dirigido por Eloi Pires Ferreira (2010).

Numa noite fria de Curitiba, o catador de lixo sai bem cedo para trabalhar. Deixa em casa sua esposa e sua filha pequena, que tosse num princípio de resfriado ou gripe.

Ao voltar, sua filhinha tem febre, e tosse mais forte. O pai leva de madrugada – no zero grau curitibano – para o postinho de saúde, e dali para uma farmácia. Não há dinheiro suficiente para o remédio.

No dia seguinte, o pai cata mais papelão, mas a troca, ao fim do dia, lhe garante pouquíssimas moedas: para 1 Kg de papel, alguns centavos!

Ao retornar, a febre da filha aumentou. A tosse está mais intensa. Ainda não há dinheiro para o remédio. Na farmácia popular ou na do postinho, o tal remédio esgotou.

Terceiro dia de trabalho e frio intenso. Sai o pai de madrugada, volta de madrugada. Poucos centavos no bolso após percorrer a cidade inteira catando lixo.

A filha tosse mais forte, e chora, e treme de febre. Ainda não há dinheiro para o remédio.

Na casa simples de único cômodo o pai olha para a pia… e pega uma faca. E sai para a rua, a esmo.

Nem seria necessário continuar o filme.

Nem qualquer processo, seja qual for o crime das cenas imaginariamente seguintes.

André Peixoto de Souza

Doutor em Direito. Professor. Advogado.