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Rastreando agressores sexuais com o Criminal Profiling

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Rastreando agressores sexuais com o Criminal Profiling

Segundo o Atlas da Violência publicado em 2018, no Brasil são registrados (em média) 135 casos de estupro diariamente [1]. A grande maioria destes crimes é cometida por algum conhecido da vítima dentro do ambiente doméstico. Como exemplo temos um estudo realizado no estado do Rio de Janeiro, mostrando que 7 em cada 10 estupros ocorrem dentro da casa da vítima [2].

Apesar disso, é importante que se pense como é possível prevenir e investigar agressões sexuais cometidas contra desconhecidos, mesmo que isso represente apenas 10% dos casos [3]. Enquanto os abusos cometidos contra pessoas conhecidas possuem um padrão mais evidente, esta minoria apresenta sérias dificuldades para os investigadores devido ao modo pela qual ocorre.

É muito difícil encontrar um suspeito desconhecido que atacou a vítima na rua porque parece aleatório demais. Muitas vezes não há testemunhas, e a própria pessoa agredida (uma mulher, na grande maioria dos casos) pode não fornecer informações suficientes para auxiliar na elucidação do ocorrido. 

Outro fator agravante é o fato de que os agressores sexuais de desconhecidos têm maior probabilidade de serem estupradores em série. Além da comoção social causada por esse tipo de crime, ainda existe o problema da quantidade de vítimas que um único agressor pode fazer. É possível que ele não pare de atacar até ser capturado [4].

Este contexto se torna ainda mais desafiador para a polícia quando se considera que muitas vezes não há informações suficientes levantadas pelos exames periciais. Coletar amostras de DNA é importante, mas não será muito útil se não houver suspeitos para testar e identificar. Portanto, pode ser produtivo utilizar ferramentas investigativas não convencionais (desde que tenham fundamentos científicos) para aumentar as chances de sucesso na busca dos possíveis agressores. O criminal profiling é uma delas, e pode ajudar bastante em um inquérito, já que este tipo de procedimento acontece com recursos limitados e sob uma grande pressão para trazer esclarecimentos o mais rápido possível. 

O criminal profiling é uma estratégia de investigação que busca identificar suspeitos com base em seu comportamento. Para isso, utiliza-se de análise da cena (ou cenas) de crime para inferir características da personalidade, estado mental e emocional do criminoso. Posteriormente, é construído um perfil que é utilizado para filtrar a lista de suspeitos (ou elaborar uma), elegendo os mais prováveis de terem cometido determinado crime pela sua adequação às características traçadas.

Para isso, são utilizadas teorias psicológicas e análises estatísticas para averiguar se uma série de crimes pode ter sido cometida por um determinado agressor e como seu comportamento pode ser esclarecido com base nas evidências recolhidas [5]. Esta técnica é utilizada atualmente pelo departamento de análise comportamental no FBI e faz parte do treinamento de agentes da lei em diversos países.

Prosseguindo com a discussão sobre agressores sexuais, podemos encontrar algumas informações sobre seu histórico e sobre seus modos de operar (modus operandi). Sabe-se que muitos já sofreram algum tipo de abuso sexual, mas não há uma conclusão sobre a possibilidade destes eventos traumáticos causarem seu comportamento criminoso [4].

Afinal de contas, muitas pessoas são abusadas e não se tornam agressores sexuais necessariamente. Existem diversos fatores envolvidos na gênese deste comportamento, perpassando por influências genéticas e ambientais. Uma das perguntas mais difíceis de responder é porque este tipo de indivíduo concretiza suas fantasias mesmo que isso cause danos graves à vida de suas vítimas. Esta falta de respeito com a integridade de outras pessoas também é ilustrada pelo fato de 87% dos mesmos possuírem histórico criminal [3].

Compreender a mente dos criminosos pode ser um recurso essencial para encontrá-los e prendê-los. Ao estudar o processo de tomada de decisão dos mesmos, temos mais aptidão para antecipar suas ações e identificar características que podem otimizar uma investigação e reduzir o desperdício de recursos. O atraso na captura de um agressor também pode significar um número maior de vítimas, e por isso é importante que a polícia utilize todas as ferramentas disponíveis para rastreá-los.

E como o criminal profiling pode ajudar? Primeiramente, com dados levantados com pesquisas. Por exemplo, sabe-se que a escolha dos locais onde os estupros ocorrem não é aleatória, por mais que pareça. Olhando superficialmente, podemos supor que um desconhecido abordando mulheres sozinhas nas ruas age de forma muito difusa, mas isso não é necessariamente verdade. 

Os comportamentos de agressores sexuais apresentam uma relativa consistência, e apesar de ocorrerem de forma bastante complexa, possuem aspectos que podem ser identificados, mensurados e reconhecidos. Por exemplo, a forma de abordar as vítimas, os tipos de objetos levados para a cena de crime (cordas, por exemplo) e a preparação são alguns dos fatores que podem ser observados para fornecer ideias sobre suas preferências de ação [6].

Um agressor sexual pode ter o hábito de consumir álcool ou outras drogas antes de sair em busca de alvos, levar tiras de couro para restringi-los e utilizar seu carro para deslocamento. Na maior parte dos casos, a abordagem da vítima se dá com a utilização de formas de enganá-la a acompanhar o suspeito, e posteriormente utiliza-se alguma coação com ameaça [6].

Além disso, a área de ação deles não é aleatória. Utilizando informações do criminal profiling geográfico (campo voltando para a análise do espaço onde os agressores agem, além do deslocamento dos mesmos), podemos restringir as possibilidades relacionadas ao campo de ação do criminoso. 

O local do crime oferece dados sobre os hábitos do agressor, assim como indícios de áreas relevantes para o mesmo. Desta forma, é possível inferir quais regiões são familiares para o sujeito [7]. Por exemplo, geralmente o local onde a vítima é abordada não é necessariamente onde o estupro se consuma. A maioria dos casos envolve dois ou mais lugares, pois o agressor toma a decisão de ir para outro ambiente com base na sua percepção sobre a probabilidade de ser visto ou pego. Além disso, os ataques ocorrem predominantemente em áreas familiares tanto para o estuprador quanto para seu alvo [8].

Segundo a hipótese do círculo, a base corresponde a qualquer lugar onde o criminoso passa a maior parte do seu tempo e onde o mesmo pode fantasiar ou planejar seus crimes. Pode ser sua moradia, a casa de parentes, local de trabalho ou até um bar. A partir deste ponto, existe uma área na qual o sujeito se sente suficientemente confortável para agir. Essa é a zona de alcance criminal do indivíduo. Ela pode seguir dois modelos, segundo a teoria: Ela pode ter como centro a base do agressor ou pode estar situada completamente fora deste núcleo.

Ao estuprador que possui a base como centro da zona de alcance criminal, dá-se o nome de saqueador (marauder). Ao agressor que se desloca para outra área de alcance e depois retorna para a região de sua base, aplica-se o termo pendular (comuter). A partir de pesquisas realizadas com o foco de compreender o deslocamento dos criminosos neste tipo de ato, foi constatado que aproximadamente 87% dos agressores sexuais apresenta o comportamento do tipo saqueador. 

Além disso, as pesquisas também averiguaram as distâncias médias percorridas pelos estupradores para cometer os crimes: aproximadamente 1,8 km para cometer o primeiro ato e 5,25 km para cometer o último crime até o momento do estudo. Estes resultados podem auxiliar no direcionamento das investigações, pois é mais provável que o suspeito se encontre dentro desta faixa de distância.

A hipótese levantada para explicar porque este tipo de estupro geralmente não ocorre numa região mais próxima que 1,8 km da base do agressor evidencia que as chances de ser reconhecido por testemunhas são altas, levando o criminoso a procurar zonas mais afastadas para assegurar sua impunidade [7].

O perfil criminal não oferece garantias de captura, principalmente porque o mesmo apresenta uma certa inconsistência teórico-metodológica e ainda está em fase de amadurecimento. Além disso, muitos estudos sobre o comportamento de estupradores são antigos e precisam ser refeitos e reavaliados (e adaptados para o contexto brasileiro). Mas se há uma investigação em andamento, talvez seja útil procurar por um suspeito homem com histórico criminal que aborda as vítimas primeiramente tentando convencê-las a acompanhá-lo e que já deve ter sido visto por outras pessoas na região do crime, já que o local é familiar para ele e provavelmente está situado dentro de um raio de 1,8 km a  5,25 km de sua base. 


FONTES

[1] Atlas da Violência 2018. Coordenadores: Daniel Cerqueira, Renato Sergio de Lima, Samira Bueno, Cristina Neme, Helder Ferreira, Danilo Coelho, Paloma Palmieri Alves, Marina Pinheiro, Roberta Astolfi e David Marques. Estagiários: Milena Reis e Filipe Merian.

[2] Dossiê Mulher 2019 (ISP/RJ, 2019)

[3] Assisting the Investigation of Stranger Rapes: Predicting the Criminal Record of U.K. Stranger Rapists From Their Crime Scene Behaviors. Almond L, McManus M, Bal A, O’Brien F, Rainbow L, Webb M.

[4] A comparison of serial and non-serial sex offenders by Taylor M. Marsh 

[5] Criminal Profiling: An Introduction to Behavioral Evidence Analysis, Fourth Edition. Brent E. Turvey

[6] Variability in Behavioural Consistency Across Temporal Phases in Stranger Sexual Offences. Sandra Oziel, Alasdair Goodwill, Eric Beauregard

[7] Perfil criminal geográfico: novas perspectivas comportamentais para investigação de crimes violentos no Brasil. Denis Lino, Lucas Heiki Matsunaga

[8] Offender Mobility During the Crime. Ashley N. Hewitt, Eric Beauregard.


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Autor
Instrutor de Criminalística e Técnicas de Entrevista. Pós Graduando em Ciências Criminais. Membro da Sociedade Brasileira de Ciências Forenses.
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