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A curiosa história dos reféns profissionais: a Família Bocchicchio e a máfia

Bocchicchio

A curiosa história dos reféns profissionais: a Família Bocchicchio e a máfia

Para o dicionário Aurélio refém é uma pessoa ou localidade que fica em poder do inimigo como garantia do cumprimento de um tratado. E há quem tenha se profissionalizado nessa aventura.

A Família Bocchicchio, retratada também por Mario Puzo em O Poderoso Chefão (1969), era influente na região onde predominava com muita força e rebeldia.

Boa parte Sicília foi dominada por este clã que se movia pela união e obstinação de seus associados. Sua fonte de renda era predominantemente agrícola, que se sustentava por meia dúzia de moinhos de farinha de trigo que serviam tanto à família quanto aos povoados ao seu redor.

Qualquer um que viesse a construir empreendimento que pudesse, de alguma maneira, atrapalhar o comércio da família seria destruído, de uma forma ou outra.

Para isso, o clã utilizava seu grandioso número de parentes que se ligavam de uma maneira até então inaudita: era rigorosamente proibido a qualquer membro da família separar-se do grupo, da mesma forma, ninguém de fora da parentada seria aceito. Os casamentos eram realizados entre os consanguíneos, mantendo dessa forma a raiz que estruturava a sociedade dos Bocchicchios: o sangue.

Contando com um grande número de soldados em favor de suas causas, a família logo se tornaria dona de todas as terras do Norte da Sicília, baseando a sua crença na violência e na honra. Significa que, não importa o que aconteça, quando vontades contrárias batiam de frente com interesses do clã, não havia conversa e sim guerra e destruição.

Foi considerada uma das mais violentas famiglias mafiosas da Itália e por essa reputação os governos passavam e não conseguiam resolver o problema dos cidadãos da região, que era a falta de água. Mussolini, quando ao início de sua aventura pelo poder, mandou que construíssem uma represa na região para resolver o problema dos moradores.

Todas as máquinas foram saqueadas, os materiais roubados ou queimados e pessoas favoráveis à construção apareceram mortas em valas espalhadas pela região. Tudo isso motivado pelo fato de que os Bocchicchios lucravam vendendo o escasso produto.

Foi a provocação fatal dos Bocchicchios. Mussolini mandou prender todos; alguns jogados nas prisões espelhadas pela Itália, outros foram deportados para ilhas que serviam como colônia penal.

Uma luta intensa tomou conta dos campos e das pequenas vilas, entre o clã e policiais vindos somente para destruí-lo. Certamente, poucos sobreviveram e foram mesmo esses alguns que rumaram para a América, por meio de rota clandestina que os levava até o Canadá.

Os Bocchicchios eram considerados rudes.

Broncos, de poucas palavras e sempre com uma faca nas mãos se o simples ar de desrespeito surgisse em uma conversa qualquer, por parte de qualquer um que fosse. A violência era a sua forma natural de agir desde os primórdios, sendo considerados mais soldados que propriamente uma família da máfia.

Ocorre que ao chegar em Nova Iorque, a cidade para qual rumavam os descendentes italianos na época, encontraram dificuldades que somente venceram por uma característica que lhes era peculiar e não muito utilizada até então pelos moradores locais: a ameaça e o cumprir do prenúncio.

Dessa forma ergueram seu domínio de terror, a princípio, como coletores de lixo. Todavia, viam que não havia em seu meio forma alguma de controlar as outras famílias italianas que já se faziam presentes. Eram primitivos na acepção da palavra, rudes e somente se comunicavam pela ferocidade que lhes era peculiar.

Sabiam, de toda forma, que não conseguiriam sustentar uma estrutura que envolvesse políticos, mídia, policiais e uma rede de organização muito detalhada. Eles eram ferozes e não se sustentavam com discursos ou politicagem, mas sim com seus atos de austeridade.

Dessa forma, surgiu, numa diversificação de seus empreendimentos, a causa dos Bocchicchios pela paz entre as famiglias em infinda guerra, atuando como negociadores e reféns.

Assim, quando um clã precisasse se encontrar com um membro de uma segunda família, geralmente para tratar de assuntos pertinentes à guerra ou à paz, a segunda famiglia chamava um membro Bocchicchio, que, por um valor altíssimo em dinheiro, ficava no lugar do parente que fora ao encontro.

Caso o parente fosse morto na reunião com seus inimigos, o Bocchicchio servia como um garante e seria morto pela segunda família em revide. O próximo passo dos Bocchicchios seria então a vingança contra aquele que marcou o encontro e matou o parente da segunda família, traindo a todos.

Mario Puzo delineia bem em O Poderoso Chefão o modus operandi da família quando Michael Corleone é convocado para uma reunião com Solozzo e o corrupto capitão de polícia em local desconhecido. Como a guerra entre os dois clãs era evidente, para garantir a segurança de Michael os Bocchicchios foram chamados:

Quando as Famílias em guerra desejavam fazer paz e queriam parlamentar, entravam em contato com o clã dos Bocchicchio. O chefe do clã promovia as negociações iniciais e fornecia os reféns necessários. Por exemplo, quando Michael foi encontrar-se com Sollozzo, um Bocchicchio fora deixado com a Família Corleone como garantia pela segurança de Michael, tendo o serviço sido pago por Sollozzo. Se Michael fosse assassinado por Sollozzo, então o refém Bocchicchio mantido pela Família Corleone seria morto pelos Corleone. Nesse caso, os Bocchicchio se vingariam de Sollozzo como a causa da morte do membro de seu clã.

Ocorre que um Bocchicchio nunca esquece nem teme em vingar-se, eram ótimos assassinos e dessa forma conseguiram se sobressair nesse negócio de matar. Certamente a vendeta seria o caminho.

De qualquer forma, não há registros de falhas em negociações com os Bocchicchios, tanto era o respeito que a Máfia tinha por esses assassinos natos.

Devido à sua rudimentar rigidez e violência, não havia sequer um castigo ou ameaça que mantivesse um Bocchicchio incerto de sua vingança.

Ter um refém dessa família, que se especializou em ser refém, era a garantia de confiança, pois nenhum Dom iria querer estar com um celerado desses em seu encalço, por mais segurança que o cercasse.


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Autor

Mestre em Direito. Professor. Advogado.
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