• 25 de setembro de 2020

Regicida

 Regicida

Regicida

Dante Alighieri confronta todas as formas de governo e a Monarquia afirmando ser o controle pelo imperador o maior presente que um povo e uma nação poderia receber.

O princípio de sua fé ressalta a evolução de seu pensamento que atinge o metafísico em contraste com o poder e controle dos homens, quando apenas por Deus alguém poderia governar.

Segundo o poeta, político e escritor florentino, somente aquele nomeado pelo poder supremo universal arcaria com o comando da nação; em prol da justiça e da soberana razão de Deus espalhando ao seu povo benesses supremas.

Esse povo seria seu fiel e mais alegre discípulo, segundo Dante.

Em Monarquia (1310) Dante alega que a “família deve ser regida pelo mais idoso”, em um sentido próprio do patriarca e da evolução da liderança apregoada nos textos religiosos católicos que indicam que, por designação celestial, apenas um chefe deve reinar.

Ainda assim, Dante confia o poder apenas ao Imperador que a ninguém respondia, nem mesmo ao Vaticano. Um crime contra um rei seria um crime contra o próprio celestial em si, contra a força metafísica que reina do abstrato.

Horrendo e sem desculpas; matar um rei enviado por Deus seria um crime digno do último círculo do seu Inferno. Na Divina Comédia, Judas está a ser devorado por Lúcifer eternamente, pela sua traição contra o filho do Altíssimo, o Rei dos Reis segundo as escrituras.

Ulisses (ou Odisseu), em seu retorno da guerra em Tróia, convocado por Agamenon em defesa da “honra” de Melenau (que teve a esposa “roubada” pelo príncipe troiano Páris) ao vingar-se dos pretendentes que lutavam entre si para obter o trono, se morto fosse, mesmo que seu assassino invocasse a legitima defesa, esse seria reconhecido por regicida (Odisséia, Homero).

Entretanto, matar um rei não significa propriamente, apenas a morte do homem em si; mas o fim de uma ideia.

Tomemos o exemplo real de Gaetano Bresci (1869/1901).

Cansado da tirania e da falta de preocupação com as mazelas que o povo italiano vivia, principalmente em Milão, tendo a irmã morta em um levante contra o império, decide que a melhor maneira de demonstrar a indignação do povo contra o monarca e seu sentido de menosprezo para com seus “discípulos” seria a morte deste soberano.

Matar não apenas o imperador, mas a ideia que por ele é representada. Que o governo dos homens estremece quando nas mãos incautas daqueles que se pensam divinos e em nome de um poder que não compreende incita as maiores crueldades. Fome, abandono e lascívia rondam a corte do rei, formando o princípio de seu governo nas estruturas que sugerem riqueza, ostentação e gastos desnecessários.

Enquanto isso, a Itália morria. Suas veias se fechavam necrosando o coração, que vagarosamente ia criando o germe de sua própria destruição, vinda das mãos de seu próprio sangue, o seu povo.

Negligenciar e negar seus discípulos foi a gota da agua que fez com que Bresci agisse, pois era em seu amago um anarquista e possuía os ideais libertários contra toda e qualquer tirania, considerada por ele como Monarquia.

O compatriota de Dante possuía aversão completa ao difundido pelo poeta florentino. A monarquia deveria morrer. O rei e o homem Umberto I deveriam morrer.

Ao retornar para a Itália, uma vez que passara longo período de sua vida escondido das perseguições que sofria devido à sua luta contra a exploração e opressão da monarquia, resolveu que seria para impor um basta ao governo do homem.

Em 1900, na cidade de Monza, Bresci desferiu três tiros no peito do imperador, matando-o imediatamente. Preso, sem resistência, foi levado à prisão de Santo Stefano em 1900 e encontrado morto um ano após sua chegada.

Alguns alegavam suicídio, outros afirmavam que tinha sido assassinado pelos guardas. Tal prisão situava-se numa ilha e qualquer insurgente contra o governo de Umberto I era jogado e esquecido em suas celas escuras.Segundo a história, o monarca havia sobrevivido a outros três ataques, sendo ferido à faca num deles em praça pública.

Bresci retornou com uma missão que havia entendido desde o início de sua luta e que o levara ao seu iminente fim. Antes de ser preso com a arma em punho, o regicida teria dito:

Não matei Umberto. Eu matei o rei. Eu matei um princípio.


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Iverson Kech Ferreira

Mestre em Direito. Professor. Advogado.