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Relatos de um jovem advogado (que ainda tem muito a aprender)


Por Carlos Augusto Ribeiro


Apesar dos seus esforços acadêmicos e de todo amparo da Ordem dos Advogados do Brasil àqueles que iniciam na profissão de advogado, é incontestável que os jovens advogados se deparam com uma série de dificuldades nos primeiros passos da carreira. No âmbito da advocacia criminal, sem comparar com as outras áreas, essas dificuldades surgem em demasia, as quais, muitas vezes, são intensificadas pelas incertezas que pairam na mente do jovem advogado criminalista.

Em um primeiro momento, na ânsia por trabalhar com aquilo que sonhou, o advogado fica muito apreensivo pela obtenção de clientela, mas os clientes não caem do céu. Precisa o jovem advogado traçar algumas estratégias de marketing, principalmente diante da era digital que estamos inseridos, necessitando, assim, que ele seja visto de alguma forma, dentro dos limites do nosso Código de Ética, e sem passar para um exibicionismo desnecessário, pois, só a partir daí conseguirá chamar a atenção para o seu trabalho e, consequentemente, ser contratado para fazê-lo. Advogar junto a alguma vara criminal como dativo também ajuda muito, não só na proliferação do nome, mas também na experiência que a labuta franca promove.

Depara-se o jovem criminalista, de início, com a desconfiança por parte dos próprios clientes, os quais, numa primeira impressão, aparentam preferir alguém mais velho e tarimbado pela labuta forense criminal, mas não desanime, porquanto caso faça o seu trabalho com vigor e qualidade, essas más impressões, paulatinamente, desaparecem.

Na delegacia, provavelmente nos primeiros “flagrantes” a serem atendidos, o jovem advogado ingressará no recinto policial com uma visão ainda muito teórica do que lá acontece, impregnado, corretamente, pelos sentimentos de fazer valer as garantias constitucionais e algumas formalidades que a situação requer, mas verá que na prática a teoria muda totalmente de forma.

Encontrará, em muitos casos, um agente ou escrivão que já está há muito de plantão e só quer agilizar o procedimento, pouco importando se para isso tenha que respeitar ou não o advogado. Entenda-o, converse com policial, deixe-o ciente de que só está ali para cumprir o seu mister, trate-o com respeito e respeitado será. Se as prerrogativas do advogado – que na verdade são para os clientes – forem violadas, relute e acione o seu órgão de classe, o OAB estará disposta a ajudá-lo. Se acostume a andar com modelos de procurações no carro e a receber as incontáveis ligações da família do preso antes, durante e depois do atendimento do flagrante.

Nos casos criminais, tenha ciência que por mais livros que leia e por mais dedicado que seja ao caso, muitas vezes as respostas para as suas incertezas não estarão nos escritos, converse o máximo possível com os advogados criminalistas mais experientes, leia os clássicos da literatura, há saídas que não estão nos autos. Humildade, nesse ponto, é fundamental.

Separe uma quantia de dinheiro para os sapatos, pois muita sola no começo será desgastada.

Quanto aos honorários, o advogado, apesar de jovem, deve aprender a dar valor ao seu trabalho, levando em consideração o conhecimento obtido, os investimentos realizados, as despesas do escritório, a complexidade da causa, as condições financeiras do cliente, o tempo a ser despendido, etc. A par disso, certamente perceberá que não compensa aceitar quantias irrisórias, por mais que pareçam tentadoras.

Quando o cliente está preso, apenas a título de sugestão, é preferível que a contratação seja feita por etapas, na medida em que há casos em que o cliente, enquanto segregado, contrata um pacote abrangendo a defesa no processo e eventuais recursos, mas, tão logo solto, some sem deixar nenhum vestígio, dificultando até mesmo a renúncia por parte do profissional, ou então simplesmente deixa de pagar os honorários pactuados.

No exercício da advocacia criminal, encontrará serventuários descontentes, autoridades prepotentes e situações cujas fórmulas de solução não se encontram facilmente. Oxigene a sua mente não só com os livros de direito, mas também com os de relações interpessoais, advogado que não consegue driblar o mau-humor dos outros ou reverter a má vontade daquele que o atende, provavelmente terá dias demasiadamente estressantes na labuta.

Saiba, acima de tudo, que você escolheu a mais bela das especialidades da advocacia, pois ela lida com o maior bem do homem: a liberdade. Um homem sem liberdade é um homem, lato sensu, sem vida.

Nesse contexto, por mais dificuldades que tenha, as quais lhe acompanharão em maior ou menor grau durante toda a carreira, não desanime, você é essencial para o fortalecimento da barreira de contenção do poder punitivo estatal e do autoritarismo, ainda e infelizmente, inerente ao nosso sistema. Somos a resistência!

Sou um jovem advogado em constante aprendizagem. Espero ter contribuído um pouco com esse ínfimo caminho que trilhei.

CarlosAugustoRibeiro

Autor

Advogado criminalista
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