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(Re)nascido para matar: a mortificação do eu por Kubrick

Por Maurício Sant’Anna dos Reis

Dirigido por Stanley Kubrick, ‘Full Metal Jacket’, oportunamente traduzido no Brasil como ‘Nascido para matar’, de 1987, narra os horrores da guerra do Vietnã. Dividido em duas partes bem marcadas, o filme retrata o treinamento que recebem os soldados em sua primeira parte para, na segunda, se encarrega de relatar a sua atuação na guerra. Ao meu ver, as duas partes poderiam sem dificuldades ser divididas em dois filmes, não necessariamente lineares.

Aqui pretendo recontar a narrativa na ordem que acho mais adequada (quem sou eu, com certeza razão tinha o Kubrick!), de modo que começo pelo fim, analisando a segunda parte do filme para após partir para a primeira, como que se analisasse o impacto do treinamento antes de analisar o treinamento propriamente dito. Todavia, é preciso avisar desde já, esta resenha conterá spoilers – justificados ante a magnitude da obra de Kubrick, indubitavelmente insuperável, principalmente nessas poucas linhas que se seguem.

A guerra

Kubrick nos conduz pela guerra como ela é: cercada de contradições e horrores, três trechos são marcantes nesse contexto. Logo no início da segunda parte do filme o destaque é a aproximação de uma prostituta junto a Joker (Matthew Modine) – correspondente de guerra do exército, narrador do filme e uma das suas personagens chave – e um colega (Rafterman – Kevyn Major Howard). Essa cena prece resumir de maneira bastante óbvia, por se tratar de uma prostituta, a objetificação da mulher no ambiente de guerra, quer sendo utilizada pelo deleite dos solados, quer como estratégia de guerra, por exemplo nos estupros massivos que ocorrem nas vítimas vencidas.

A segunda cena que posso destacar é a em que Joker reencontra seu colega de quartel, Cowboy (Arliss Howard), que espera retornar para casa. Nessa cena podemos resumir a total ausência da disciplina marcante do quartel. Homens descansam – sobre maltratados uniformes – jogados ao chão, palavras de baixo calão substituem pronomes de tratamentos dispensados a oficiais e o sentimento de desprezo supera a ideia de coleguismo ou mesmo de respeito– qualquer um ideal comum não parece possível, a não ser uma grande vontade de matar – como pode-se observar do embate de Animal Mother (Adam Baldwin) com Joker.

Apesar de não ser capaz de articular suas ideias com maior precisão – ao contrário de Joker – Animal Mother parece realmente estar disposto a resolver a discussão com uma das muitas armas que carrega consigo, apesar de, aparentemente, como referido nesse momento, no combate ser a melhor companhia que se poderia querer.

O último destaque fica por conta da cena, marcante da contradição da guerra. Ao perceber que Joker trazia preso ao uniforme o símbolo hippie da paz, e escrito em seu capacete a frase “born to kill” (nascido para matar), Joker é interpelado por um Coronel. Após alguma exitação, Joker responde: “[…] Refiro-me a dualidade do homem, senhor. Dualidade do homem. Teoria jungiana, senhor”. Após certificar-se de que Joker, apesar de irônico era patriota, o Coronel sentencia: “É um mundo cruel filho, temos que ficar frios até que passe essa onda de paz”.

Ao fundo, em vala comum jazem vinte vítimas civis da guerra. Seria a guerra um caminho para a paz, ou a paz o anteparo da guerra? Na realidade a questão que pode-se colocar nessa cena específica é que a guerra não precisa ter sentido, o horror é nonsense; parafraseando Mia Couto a guerra não exige prova de coerência, é sui referencial.

O treinamento

Contrastando com esse ambiente caótico, temos a rotina exaustiva e minuciosamente ascética do quartel. Uma combinação de exercícios, movimentos, testes, mostras de respeito à hierarquia e ao ambiente dão a tônica dessa primeira parte do filme.

A atmosfera construída rompe com a vida civil pré-existente, o que é ilustrado na primeira cena do filme em que os jovens recrutas são retratados no momento em que tem o cabelo raspado – em última análise a repetição das máquinas de raspar cabelo acaba dificultando a identificação dos sujeitos – os cabelos que se acumulam pelo chão são uma espécie de prosopopeia dos homens que já não mais existem quando cruzam as portas do quartel.

O Personificado no Sargento Hartmann (R. Lee Ermey) esse ambiente só é atingido com uma série de insultos e humilhações que negam qualquer traço de humanidade dos seus comandados. Hartmann é implacável; não só não perdoa qualquer deslize como faz questão de frisar a fragilidade e a incapacidade inata dos recrutas.

Sequer espera ser respeitado, mas temido e com uma gana que lembra a de um cão raivoso não mede esforço para aniquilar qualquer traço de resistência que possam contra ele ser oposta, valendo-se para tanto de qualquer fragilidade que possa detectar. Sua fala inicial – cartão de visita – dá conta dessa estima e, de certa forma é capaz de resumir todo o filme: “Se as senhoritas saírem da minha ilha, se sobreviverem ao treinamento, se tornarão armas letais, sedentas de guerra. Mas, até lá, vocês são vômitos! As mais baixas formas de vida na Terra! Nem sequer são humanos. Não passam de desorganizados pedaços de merda anfíbia!”.

Os esforços de Hartmann, no entanto, parecem não atingir ao soldado Gomer Pyle (Vincent D’Onofrio). Desajeitado, acima do peso e sem nenhuma aptidão para o combate, Gomer Pyle parece ser o soldado mais resistente à transição que deveria se operar com a vida na caserna. Não consegue realizar nenhum exercício ou movimento com precisão. É desleixado recebendo com certo cinismo infantil as ofensas. Infantilizado, é assim tratado por Hartmann, por exemplo, quando após trocar esquerda por direito ao final da marcha é humilhado com tapas no rosto e ao final, obrigado a seguir com as calças arriadas, o dedo na boca, o fuzil jogado ao ombro e o boné virado, em uma cena em que a semelhança com uma criança é inevitável.

No entanto, apesar das humilhações e rebaixamentos sofrido, Gomer Pyle, talvez por estupidez, permanece resistente à autoridade de Hartmann. Num dado momento é descoberto que Gomer Pyle esconde doces com seus objetos pessoais, o que incendeia a raiva do sargento.

Em um misto de auto decepção, cinismo e crueldade, sacramenta que ante a impossibilidade de reformar o recruta, ao invés de puní-lo, punirá em seu lugar todo o restante do pelotão; como Pyle é incapaz de seguir a rotina, às punições ao grupo são constantes e será o grupo que destruirá a resistência do recruta naquela quem, talvez seja a cena mais impactante do filme: cansados dos erros do colega os demais soldados aplicam nele uma surra coletiva exemplar, ação essa que como um catalizador despertaria em Pyle uma subjetividade – não mais subsiste aquele soldado bonachão, apesar de ocupar a mesma casca, ali (re)nasce um ser que não possui mais traços de subjetividade e que sim, cumprindo a profecia inicial de Hartmann, é uma máquina de guerra de assombrosa perícia com o fuzil.

Em última análise, Hartmann representa a imagem do exército que ao fim e ao cabo não deseja um efetivo treinamento, nem mesmo a disciplina, senão somente um campo vazio para introduzir a lógica da guerra e da morte. Pyle, por sua vez, representa a imagem do soldado, do fuzileiro, que após as humilhações e rebaixamentos abandona sua natureza humana, deixando de ser homem para se transmutar em máquina: máquina de guerra, máquina de matar.

É aqui muito fácil observar que todas as humilhações sofridas nada mais são do que os procedimentos necessários par que ocorra aquilo que Goffman (2007, p. 24) nomeia de mortificação do eu, ou seja, uma série de humilhações e rebaixamentos para que a subjetividade e a vida fora da instituição total sejam expurgadas e um campo fértil para o novo – a dor! – aí floresça, enfim, o ecoar da fala inicial do Sargento Hartmann, seu cartão de visitas.

Nesse caso, não é demais observar que Pyle é o exemplo superlativo do êxito neste processo de mortificação e (re)nascimento; para matar. Ao final do treinamento, enfim, os demais soldados se não de maneira tão contundente quanto o soldado Gomer Pyle, estão reprogramados, mortificados em sua subjetividade e zerados (resetados) em seus valores e vínculos de civilidade anterior á caserna, renascem no quartel (antes de se reinventarem no front); são (re)nascidos para matar. Qualquer semelhança com a realidade é (será) mera coincidência)


REFERÊNCIAS

GOFFMAN, Erving. Manicômios, prisões e conventos. Trad. Dante Moreira Leite. São Paulo: Perspectiva, 2007.

MauricioReis

Autor

Maurício Sant'Anna dos Reis

Professor
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