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Richard Ramirez, o “Perseguidor da Noite”

Richard Ramirez

“Adoro todo aquele sangue!” (Richard Ramirez)

A PERSONALIDADE

Nascido em 29 de fevereiro de 1960, em El Paso, estado do Texas, Ricardo Leyva Muñoz Ramirez, foi o caçula de cinco filhos de Julián Ramirez e Mercedes Munõz, mexicanos que emigraram para os Estados Unidos da América em busca de melhores condições de vida.

Durante sua infância, sofreu dois graves acidentes. Aos dois anos de idade, um móvel caiu sobre sua cabeça, resultando na necessidade do ferimento ser suturado com mais de 30 pontos.

Aos cinco anos de idade, enquanto se divertia em um parque, foi fortemente atingido na cabeça por um balanço. Richard passou a sofrer convulsões epilépticas frequentes, que duraram até a adolescência.

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Richard Ramirez em sua infância

Seu pai Julian, era um ex-policial da cidade mexicana de Juarez, e possuía um temperamento explosivo, o que muitas vezes culminava em agressões físicas, cuja vítima era seu filho caçula. Para fugir da violência doméstica, Richard dormia por várias noites no cemitério local.

O jovem Richard convivia com Miguel “Mike” Ramirez, seu primo, veterano da Guerra do Vietnã. Ele forneceu maconha para seu primo mais novo quando este tinha apenas dez anos de idade, além de exibir sua coleção de fotos que retratavam os horrores da guerra, incluindo imagens de mulheres vietnamitas que ele havia estuprado e mutilado em solo asiático.

Em 1973, quanto tinha apenas doze anos de idade, Richard Ramirez testemunhou seu primo Mike atirar no rosto de sua esposa, Jessie, com um revólver calibre .38 após uma briga doméstica.

Após esse episódio, Richard se mudou com sua irmã mais velha Ruth, e seu marido Roberto, que fornecia Dietilamida do Ácido Lisérgico, droga popularmente conhecida como “LSD”, ao seu jovem cunhado.

Nessa época, Richard pouco ia à escola. Conseguiu emprego no hotel Holiday Inn, onde complementava sua renda cometendo pequenos furtos, mas logo foi demitido ao tentar estuprar uma hóspede.

A acusação não foi levada adiante, pelo fato da vítima não ter retornado à cidade de El Paso para testemunhar contra Richard Ramirez. Após esse episódio ainda foi preso por duas vezes, sob a alegação de posse de substância ilícita, mesma época em que abandonou a escola.

Após frequentar cultos religiosos, Richard ironicamente despertou interesse pelo satanismo, e aos 18 anos de idade mudou-se para a cidade de Los Angeles.

AS VÍTIMAS

Durante seus primeiros dias na Califórnia, Richard sobreviveu revendendo porções de maconha, que havia comprado por um valor mais baixo quando ainda estava no Texas. Com o fim da mercadoria, passou a roubar carros e vender a terceiros os pertences que encontrava no interior dos veículos, com o objetivo de sustentar seu mais novo vício: a cocaína.

A essa altura, seu envolvimento com o satanismo cresceu, e ele já era um membro da Igreja de Satanás. Passou alguns meses na prisão por furto de veículos, mas logo voltou às ruas.

Em 28 de junho de 1984, Richard entrou na casa de Jennie Wilcow, uma senhora de 79 anos, a estuprando e esfaqueando até a morte, além de levar consigo diversos pertences que se encontravam na residência. A polícia colheu marcas de impressões digitais deixadas na janela do imóvel, mas nenhuma outra pista da identidade do infrator foi encontrada.

Ramirez adquiriu um revólver calibre .22, que utilizaria nos vários homicídios que aterrorizariam a Califórnia no ano seguinte.

Em 17 de março de 1985, na cidade de Rosemad (localizada no condado de Los Angeles), Richard Ramirez abordou Maria Hernandez, uma jovem de 22 anos, na porta de sua residência.

Com seu revólver calibre .22 atirou em direção à cabeça de Hernandez. Por sorte, o tiro acertou sua mão, o que impediu danos maiores à sua integridade física. A jovem caiu no chão se fingindo de morta, enquanto Richard entrou em sua residência e matou Dayle Okazaki (com um tiro na testa), de 34 anos,  sua colega de quarto.

Maria Hernandez descreveu o homicida como um homem alto, usando um boné e empunhando uma arma. A única pista encontrada pela polícia nessa ocasião foi um boné da banda australiana AC/DC, encontrado no exterior da residência.

Na mesma noite (17 de março de 1985), após os crimes praticados em Rosemad, Tsia-Lia Yu, uma estudante de direito de 30 anos de idade, na cidade de Monterey Park (também no condado de Los Angeles) foi obrigada por Richard Ramirez a parar seu veículo em uma via pública.

Puxada para o exterior do veículo, Tsia-Lia Yu foi atingida por dois disparos, e Ramirez fugiu do local dirigindo o carro da vítima, que por sua vez faleceu poucas horas depois no hospital. Após a autópsia, a investigação constatou que a bala retirada de Tsia-Lia Yu foi disparada pela mesma arma utilizada no homicídio de Dayle Okasaki.

Em 27 de março de 1985, Richard invadiu a casa do casal Vincent e Maxinne Zazzara, na pequena cidade de Whittier. Após matar Vincent com um tiro na cabeça, Ramirez amarrou sua esposa para poder subtrair os bens da residência com maior tranquilidade.

Porém, Maxinne se libertou e empunhando uma espingarda que estava escondida debaixo da cama, tentou atirar em Ramirez. Porém, a arma estava descarregada, e Richard a alvejou sem piedade.

Os corpos foram encontrados pelo filho do casal. Maxinne estava despida, além de ter tido seus olhos retirados e apresentar sinais de ferimentos nas regiões da face, pescoço, abdômen e virilhas, provocados por uma faca retirada da cozinha do casal. Na região torácica, ostentava um ferimento na forma da letra T.

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Richard costumava usar óculos escuros em suas empreitadas criminosas

A autópsia revelou que assim como seu cônjuge, Maxinne foi baleada no crânio, sofrendo morte instantânea. Todos os outros ferimentos foram realizados post mortem.

A polícia estava confusa, já que desconfiava da existência de um serial killer, mas as vítimas eram diferentes, assim como o modus operandi, o que não é muito comum, já que os assassinos em série normalmente possuem um padrão em suas ações.

Em 14 de maio de 1985, em Monterey Park, Richard entrou na casa dos idosos William e Lillian Doi. William foi executado na cama, e após roubar os pertences do casal, Lillian, portadora de necessidades especiais, foi estuprada e espancada, mas teve sua vida poupada, e assim foi capaz de descrever as características físicas de Ramirez.

Uma pegada deixada no jardim da residência dos Doi foi compatível com a pegada deixada em um homicídio anterior, o que confirmou a suspeita de que se tratava de um serial killer.

Em 29 de maio de 1985, as vítimas foram Malbel Bell (83 anos) e sua irmã Florence Lang (81 anos), na cidade de Monrovia. Ambas foram agredidas com um martelo.

Pentagramas foram desenhados com um batom nos corpos das vítimas e na parede do quarto onde ocorreu o crime. Florence Lang foi reanimada pelos médicos, mas Malbel Bell não sobreviveu.

O pânico já havia se instalado em Los Angeles e nas cidades próximas. Os jornais locais atribuíram ao serial killer a alcunha de “The Night Stalker” (O Perseguidor da Noite).

Na noite de 30 de maio, Carol Kyle (41 anos), acordou com a luz de uma lanterna em seu rosto. Era Richard Ramirez, que a amarrou e a estuprou, enquanto seu filho estava também amarrado e preso no armário.

O Perseguidor da Noite foi embora, poupando a vida de Carol e seu filho, que conseguiu se libertar e ligar para a polícia, descrevendo o agressor como um homem alto, de cabelos negros e de origem hispânica.

Os atos bárbaros prosseguiram nos meses seguintes. Estupros seguidos de homicídios e roubos ocorriam em Los Angeles e nas cidades próximas.

Finalmente um padrão começou a ser detectado: normalmente o elemento masculino era morto no início da ação, e a vítima do sexo feminino sofria abusos sexuais e em seguida também tinha sua vida ceifada.

Um retrato falado foi divulgado pelas autoridades, e a população amedrontada comprava cães de guarda, em uma tentativa desesperada de afugentar o Perseguidor da Noite.

Todas as residências seguiam as orientações das autoridades: trancar portas e janelas, além de aumentar a iluminação interna nos imóveis durante o período noturno.

O número de armas de fogo compradas na grande Los Angeles em agosto de 1985 foi superior aos números registrados em qualquer outro período da história da cidade. Ninguém queria ser a próxima vítima.

Em 8 de agosto, Richard matou Elvas Abowath com um tiro no crânio, e estuprou sua esposa, Sakina Abowath na residência do casal. Após esse ataque, Ramirez decidiu sair de Los Angeles e levar sua onda de crimes para São Francisco, onde não demorou a fazer novas vítimas: Peter Pan e sua esposa Barbara Pan.

Peter morreu com um tiro na cabeça, e Barbara, após ser estuprada também foi atingida com um tiro em seu crânio. Apesar de sobreviver, Barbara permaneceu com graves sequelas. Repetindo o que fez em outras cenas de crimes, Ramirez desenhou um pentagrama na parede do quarto, utilizando um batom.

A assinatura satânica chamou a atenção das autoridades de São Francisco, que em uma coletiva de imprensa divulgaram todas as informações possíveis do suspeito.

Isso fez com que Ramirez retornasse à Los Angeles, mas não sem antes se desfazer de seu par te tênis que havia deixado pegadas nas cenas do crime e seu revólver calibre .22. Ambos foram arremessados da Golden Gate na baía de São Francisco.

Novamente em Los Angeles, Richard Ramirez se dirigiu à Mission Viejo na noite de 24 de agosto, onde matou Bill Carns e estuprou sua namorada por várias vezes. Ao terminar o ato, obrigou a vítima a jurar seu amor por Satanás, e assim ela o fez, com medo de se tornar mais uma vítima fatal.

O Perseguidor da Noite já possuía em seu histórico 34 ataques, onde praticou dentre outros crimes o número de 14 homicídios.

Um vizinho de Bill Carns contou à polícia que avistou um veículo rondando a vizinhança na noite do crime, informando a placa às autoridades.

A polícia de Los Angeles verificou que o veículo, um Toyota 1976, de cor laranja, havia sido furtado. Após dois dias o carro foi localizado, e após inúmeras perícias no veículo, foi encontrada uma impressão digital no espelho retrovisor.

A impressão digital foi identificada como pertencente a Ricardo Leyva Muñoz Ramirez, mais conhecido como Richard Ramirez. Em um momento posterior, verificou-se que a impressão digital era compatível com as impressões deixadas em diversas cenas de crimes do Perseguidor da Noite.

No verão de 1985, teve início a até então maior caçada humana da história do estado da Califórnia. Richard não sabia que seu nome e sua imagem estavam sendo divulgados, pois estava no Arizona visitando um parente.

Um funcionário de uma empresa de ônibus procurou a polícia e informou que Richard Ramirez havia viajado para a cidade de Phoenix, mas havia comprado uma passagem de volta.

A polícia montou um cerco na rodoviária, aguardando o retorno de Ramirez, que ao chegar viu sua foto nos jornais em uma loja da rodoviária. Uma funcionária de origem latina ao avistá-lo pôs-se a bradar:

- EL MATADOR! EL MATADOR! (O MATADOR!)

Richard fugiu, correu por três quilômetros em direção ao leste de Los Angeles, enquanto mais de 40 viaturas faziam uma varredura na região. Ao tentar roubar o carro de uma moradora da região, os vizinhos o perseguiram e o agrediram. Já imobilizado, chamaram a polícia. O Perseguidor da Noite havia sido preso.

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Richard Ramirez sendo capturado pelas autoridades policiais

O JULGAMENTO

Após sua prisão, Richard Ramirez invocou seu direito ao silêncio. Durante seu julgamento, não demonstrou em momento algum arrependimento pelos crimes cometidos.

Quando ocorria a exibição de fotos das vítimas ele gargalhava, ofendia os presentes, ria para as famílias das vítimas e gritava frases como “Viva Satã”, além de ostentar um pentagrama desenhado em sua mão.

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Richard exibe o desenho de um pentagrama durante seu julgamento

Ramirez rejeitou uma série de Defensores Públicos, e aceitou ser defendido por dois advogados inexperientes, que alegando uma suposta estratégia não arrolaram nenhuma testemunha de defesa.

Enquanto isso, um grupo de mulheres passou a comparecer aos julgamentos vestindo roupas pretas. Eram fãs do Perseguidor da Noite.

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Richard sorri para os fotógrafos após o julgamento

Em 20 de setembro 1989, após a oitiva de 165 testemunhas, O Perseguidor da Noite foi declarado culpado dos delitos a ele imputados, e em 7 de novembro de 1989 foi sentenciado à pena de morte na câmara de gás. 

A PRISÃO

Na prisão, Richard recebia inúmeras cartas e visitas de fãs, e iniciou um relacionamento com Doreen Lioy (uma de suas admiradoras), com quem casou em 1996 na Prisão Estadual de San Quentin.

O Supremo Tribunal da Califórnia indeferiu seus pedidos em 2006, mantendo suas condenações e sua pena de morte. Richard alegava que não foi bem avaliado psiquiatricamente, e que os advogados que o defenderam não preenchiam os requisitos mínimos exigidos.

Richard faleceu em 7 de junho de 2013, no Hospital da Prisão Estadual de San Quentin, vítima de um câncer no sistema linfático enquanto aguardava sua execução no “corredor da morte”.

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Richard Ramirez com seus advogados

Os médicos legistas também citaram outras condições que contribuíram para seu óbito, como o abuso de drogas e a hepatite C, que danificou severamente seu fígado, provavelmente adquirida através do uso de drogas injetáveis na juventude.

Sua esposa Doreen Lioy não apareceu para reclamar o corpo de Richard, que foi cremado. Segundo a penitenciária de San Quentin, na data de sua morte ela já não o visitava há três anos.

Autor

Eduardo Dutra Barbosa

Advogado (MG)
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