• 21 de setembro de 2020

Uma roubadora de livros e um ceifador de vidas

 Uma roubadora de livros e um ceifador de vidas

Uma roubadora de livros e um ceifador de vidas

A morte se apresenta para contar uma história em A menina que roubava livros, do australiano Markus Zusak de 2006, e quando a morte estaciona para dizer um conto, é prudente parar para ouvir.

A excelente obra possui como principal destaque a visão que a pessoa tem quando está inserida dentro do problema, não enxergando situações aliviadoras para seu sofrimento nem plausível explicação para este penar.

Todavia, enxergar-se em meio ao conflito como inimigo é totalmente diferente. Marcus Zusak conseguiu unir alemães natos em uma cidade próxima a Munique, de nome Molching, que entendiam que a guerra os havia alcançado e que os bombardeiros não tardariam a romper os céus.

Entretanto, todas aquelas pessoas da pequena cidade que estavam sendo caçadas pelos sodados alemães, que agora faziam engrossar o caldo de vida da cidade, eram pessoas conhecidas desde a infância.

Os judeus caçados pelos soldados que chegaram de toda parte da Alemanha nazista eram todos amigos, colegas e conhecidos de longa data; convivendo com o povo alemão da região em sintonia, harmonia e em sociedade.

Não entendiam os motivos de Hitler. Não aqueles alemães. Ao desalojar um feirante ou comerciante judeu, jogando-o na rua e o chicoteando, sabem que nada podem fazer contra a fúria do fiel soldado, mas não entendem a periculosidade que estampa a calçada com seu medo e seu sangue escorrendo das chibatadas.

O inimigo era aquele que corria bater a sua porta quando faltava de repente, a farinha para terminar o bolo. Era aquele que socorria quando era preciso deixar as crianças com alguém para resolver algum problema no banco.

Mesmo não tendo vivido as épocas da segunda guerra e a imbecibilidade apregoada contra um povo, Zuzak conseguiu identificar e personificar o alemão normal da cidade interiorana; que vivia em sua colônia junto aos seus e pouco deixava sua cidade natal. O comercio se fortalecia perante os laços de uma comunhão crescente motivada pelo escambo e pela troca, identidade do mercado herdada dos antigos domínios agrícolas e dos feudos originários.

Nessa toada, aqueles que compunham a massa social não ficavam de fora da pulsante engrenagem de sobrevivência, pois cada qual produzia sua fatia a ser, de certa forma, dividida entre todos. E no meio desses, estavam famílias antigas descendentes de outros povos; como os judeus.

Havia também Rudy, um garoto alemão que tinha o sonho de participar das Olimpíadas, pois viu em 1936 Jesse Owens superar a suposta pureza alemã vencendo os 100 e 200 metros daquela edição dos jogos, a última antes da guerra. Para ficar mais parecido com o ídolo, o menino pintava-se de carvão e corria pelas ruas da cidadezinha, dizendo ser Jesse Owens.

Esse personagem não teve a chance de escapar aos terríveis apupos da guerra nem de concretizar seu sonho, mas nunca, de forma alguma, mesmo com seus poucos treze anos vividos, entendeu os motivos da perseguição ao seu vizinho, ao seu amigo de meninice, em atitudes que mudaram, violaram e interromperam a sua infância.

De fato, crianças nessa idade teriam que participar da Juventude Hitlerista, uma maneira de catequização e transformação de novos seguidores e soldados ofuscados.

Quando as bombas começaram a cair, alemães cidadãos que moravam nas mesmas cidades que os caçados judeus começaram a se despedir da vida, por conta da guerra. Alguns deles jamais entenderiam os motivos do Fuhrer, outros compartilhariam cegamente os seus ensinamentos. Uma coisa é certa: o inimigo nunca foi tão familiar assim.

A personagem principal, Liesel, descobriu seu amor e seu ódio pelas palavras, pois da mesma forma que criavam um mundo todo especial para uma menina de treze anos, acabava com os sonhos de muitas pessoas, a maioria, seus conhecidos de infância.

Pelas palavras o ceifador de almas conhecido por Fuhrer levou seus seguidores a uma fidelidade cega e a uma fúria sem precedentes.


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Iverson Kech Ferreira

Mestre em Direito. Professor. Advogado.