• 9 de agosto de 2020

Samba de duas notas: Criminologia e música brasileira (uma apresentação)

 Samba de duas notas: Criminologia e música brasileira (uma apresentação)

Samba de duas notas: Criminologia e música brasileira (uma apresentação)

Quem não gosta de samba

bom sujeito não é.

É ruim da cabeça

ou doente do pé

(Samba da Minha Terra, de Dorival Caymmi)

Escrevo esta apresentação durante a quarentena do coronavírus, enquanto escuto a apresentação de Andrea Bocelli no Duomo di Milano. O inesquecível concerto de Páscoa do tenor italiano me traz à mente a famosa frase de Nietzsche em seu Crepúsculo dos Ídolos: “Sem a música a vida seria um erro”. Nessa época difícil para a humanidade a arte musical parece reconectar-se com a sociedade e mostrar seu valor. A música é capaz de acalantar ou rasgar nosso peito, afagar nossa alma ou acordar nossa indignação, acalmar ou despertar nossos ânimos, acariciar ou enfrentar nosso mais íntimo sentimento e mostrar o que há de mais belo e horroroso na existência humana, enfim… ajuda-nos a lidar com as demandas existenciais. Não é por acaso que proliferaram lives via redes sociais no isolamento social, pois o amor pela arte possui a habilidade inigualável de nos conectar com nossa humanidade: “para além do bem e do mal”, lembrando novamente o filósofo alemão.

Talvez esse seja um momento histórico com potência de realizar profundas transformações, positivas e negativas, e quiçá seja capaz de reconectar elos humanos que jamais deveriam estar separados. Estou falando aqui, especificamente, da produção do conhecimento científico e da arte, dentre elas a música em particular. Vivíamos tempos – e ainda vivemos – de profunda desconfiança social sobre a ciência e de um clima anti-intelectual hostil a toda forma de pensamento.

Pense-se nas campanhas mundiais contra a vacinação, nos negacionistas do aquecimento climático, nos defensores do terraplanismo (seja ele geológico, econômico ou jurídico) e nos crentes fanáticos numa suposta conspiração por trás da pandemia que vivemos. Muito embora ainda exista esse adoecimento emocional em nível social que leva grupos de pessoas ao delírio e ao suicídio coletivo, parece-me que hoje eles são a minoria (extremamente perigosa, diga-se de passagem). Quando trata-se de saúde e quando o risco é a nossa própria vida ou a vida de pessoas próximas que amamos a sensatez parece prosperar. 

Se antes líderes mundiais negavam os riscos advertidos pelos cientistas e os efeitos das vacinas, hoje a maior parte dos governantes mundiais – com exceção de um inimputável isolado sociopoliticamente abaixo da linha do Equador – conclamam por uma rápida solução da pandemia justamente à ciência e aos cientistas. Portanto, nesse período em que pessoas dotadas de um mínimo de racionalidade não podem mais simplesmente negar a realidade que se encontra diante de nós: a ameaça à saúde de todos, apesar de invisível, reaproxima novamente a ciência, a sociedade e a política.

E, creio eu, não podemos perder essa disposição social ao diálogo e empatia ao conhecimento científico que a crise mundial nos proporcionou. Devemos, ao contrário, fomentar esses diálogos e essas aproximações. Inclusive porque, se boa parte da população não se sentia acolhida pela linguagem científica e preferia optar por orientações de gurus ou líderes religiosos, é porque a ciência se mostrava enclausurada em seus muros do saber, empregando uma linguagem excludente e incompreensível para grande parte das pessoas. Tal forma arrogante de proceder científico simplesmente afastava a confiança necessária na ciência.

Não só retomar a confiança no conhecimento científico, precisamos transformar a própria ciência para que isso seja possível. E nada melhor e mais adequado para isso do que a abertura do olhar e do diálogo para a arte, em especial a música. A vida científica e acadêmica que se mantém enclausurada nas fortalezas de seu saber, expulsando tudo aquilo que, aparentemente, lhe é estranho – como a arte, a música, a poesia, a literatura, o cinema, etc. – comete um grande erro. A construção do conhecimento científico em geral, na área criminal e na criminologia sobretudo, necessita olhar urgentemente para a arte. Mas não com uma visão positivista e colonizadora, que busque dominar, classificar, radiografar e disciplinar o seu conteúdo. 

A ciência precisa se abrir ao diálogo não para instrumentalizar a música e a arte, mas sim para produzir uma radical transformação na forma de ver, perceber e sentir a construção do conhecimento científico e de sua linguagem. Ampliar horizontes, agregar conhecimentos, causar desconfortos, modificar olhares, abrir novas experiências e expectativas, transformar sua linguagem, ou seja, ressignificar a produção dos saberes. Escutar e sentir todas as dimensões que a música traz para interpretar e traduzir os fenômenos do mundo: aqui, os fenômenos jurídicos e criminais. 

Embora tenha começado esta apresentação com um cantor italiano, a qualidade desta coletânea de artigos é justamente aproximar a criminologia da musicalidade brasileira, que comporta diversos tons, nuances, sons, estilos, ritmos próprios da nossa complexa e rica cultura. Por isso, propugnamos no título dessa apresentação, em referência ao “Samba de uma nota só” de Tom Jobim, um “Samba de Duas Notas”, justamente em virtude do diálogo entre “Criminologia e Música Brasileira”, as duas notas do samba dessa coletânea. A organização e propositura da presente obra, portanto, está alinhada com essa ideia. 

“De que lado você samba? Você samba de que lado? Na hora que o coro come é melhor tá preparado”, cantava Marcelo D2. A obra Criminologia e Música Brasileira, além de sambar (porque quem não samba bom sujeito não é… ensinava-nos Dorival Caymmi), sabe exatamente de que lado samba. O livro chama para dançar o conhecimento científico, aqui especialmente o saber criminológico, e samba até o amanhecer de um outro dia e de um novo mundo, porque, como já cantava Chico, “Amanhã vai ser outro dia”. A esperança na construção de novos caminhos, de novas subjetividades, de novos conhecimentos, de novos afetos, de novos dias e mundos… Essa esperança equilibrista, composta por João Bosco e Aldir Blanc e imortalizada na voz de Elis Regina, “sabe que o show de todo artista tem que continuar”. E eles continuaram, inclusive fazendo arte nesta obra. Quem são os artistas e as obras de arte que compõe esta coletânea de artigos?

Em primeiro lugar: a coorganizadora Ana Luíza Teixeira Nazário abre o livro com “Alô, Malandragem! Maloca o Flagrante!”: Sambandidos e Proibidões no Ritmo do (Anti)Herói, texto no qual investiga a criminalização da cultura popular de matriz africana a partir do processo atual de criminalização do funk, tal como fora a antiga proibição ao samba. Após, em “Levando a senzala na alma, eu subi a favela…”: O dia 14 de maio de 1888 e a chaga social herdada pelo povo negro, Camila Garcez Leal denuncia o abandono estatal, social, moral e político do negro pós-abolição e o racismo que persiste estruturalmente dentro de nosso sistema punitivo brasileiro.

Sob a mesma tônica crítica escreve João Pablo Trabuco em seu “Não tem bala perdida, tem seu nome, é bala autografada”: a voz de Elza Soares como grito sistemático contra o extermínio de pessoas negras, buscando firmar a questão racial dentro das criminologias críticas a partir de uma epistemologia feminista negra. Através das letras de rap dos Racionais MC’s, Julia Pinto Loureira segue expondo o racismo dentro da sociedade brasileira no artigo 500 anos de Brasil e o Brasil aqui nada mudou: a criminologia crítica popular por trás das letras do grupo de rap mais influente do Brasil, Racionais MC’s .

Luciano Góes, um dos maiores nomes brasileiros – senão o maior – no estudo do racismo no saber criminológico, nos proporciona uma leitura do racismo brasileiro desde a formação carnavalesca, fazendo uma exposição de letras musicais carnavalescas, até chegar ao movimento negro de resistência durante as ditaduras militares, demonstrando a força cultural, política e democrática que o brado do samba proporciona ao dar voz aos oprimidos e à resistência negra. Depois, Mariana Py Muniz Cappellari homenageia o saudoso Marcelo Yuka, ex-integrante do grupo “O Rappa”, ao denominar seu artigo (“Todo o Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro”) com a letra do artista.

A defensora pública foca sua escrita na herança estruturante da sociedade brasileira: a escravidão. Coube a José Antônio Gerzson Linck e Alexandre Pandolfo “fecharem” a coletânea de artigos com o texto intitulado Algumas trilhas do amor no rap brasileiro contemporâneo, no qual procuram encontrar a temática do amor nas letras do rap nacional em meio às radicais denúncias da necropolítica, exterminadora da vida de jovens negros e pobres nas periferias de nosso país, que estão presentes nessa arte.

O tema central, que perpassa todos os escritos desta coletânea e não pode ser ignorado pelo leitor, é o racismo brasileiro. Herança da colonização e da escravidão no Brasil, o racismo é um tabu em nosso meio social. Embora boa parte da população admita a existência do racismo na sociedade, ainda são poucos que conseguem perceber e admitir os racismos que estão dentro de nós. A negação atua como um mecanismo de defesa de um grande trauma coletivo que ainda não foi devidamente elaborado e, por isso, manifesta sintomas até hoje em virtude de seu recalcamento (lembrando o ensinamento freudiano de que o trauma tende compulsivamente à repetição).

E o sintoma mais perverso e evidente pode ser percebido ao olhar atentamente o funcionamento de nosso sistema penal que produz um extermínio sistemático da população jovem, negra e periférica, mas que passa por diversas nuances anteriores que também precisam ser enfrentadas. O racismo não pode mais ser ignorado pelo mundo jurídico e pelo saber criminológico. Ele é denunciado pela musicalidade brasileira de forma muito mais radical e afetuosa do que qualquer publicação científica. Por tal razão, a interlocução da criminologia com a música brasileira (samba, rap, funk, rock, etc.) se faz cada vez mais necessária, pois o diálogo entre a arte e os saberes são capazes de transformar e produzir novos horizontes de possibilidade e de elaboração coletiva desse trauma. 

A publicação, como já dito, possui um lado claro: alia-se à resistência e à luta antirracista dentro da sociedade brasileira, levando a sério a proposição de Angela Davis.

Apesar de imprescindível a denúncia, escutar a beleza, a finura e a sabedoria popular presentes nos versos das canções brasileiras também é fundamental. Após tantas contribuições a essa quebra de barreira entre a música e a ciência, que busca uma ética de maior aproximação da sociedade à construção do conhecimento criminológico, lembremo-nos, nesse período de tantas apreensões, angústias e sofrimento, do “Conselho” eternizado por Almir Guineto:

Deixe de lado esse baixo astral, / Erga a cabeça enfrente o mal, / Que agindo assim será vital / Para o seu coração. / É que em cada experiência / Se aprende uma lição.

Que aprendamos o ensinamento: não podemos deixar o samba morrer, como a voz de Alcione profetizou, tampouco podemos deixar a ciência esmorecer. Esperamos que esta obra contribua para a música brasileira e o saber científico andarem cada vez mais juntos, de mãos dadas, dançando e sambando por todos os cantos desse país. Que os encantos poéticos de nosso mestre Caetano Veloso sejam um acalanto e ajudem nosso povo a superar tamanho desencanto que se espalhou pelo Brasil.

A tristeza é senhora

Desde que o samba é samba, é assim

A lágrima clara sobre a pele escura

A noite, a chuva que cai lá fora

Solidão apavora

Tudo demorando em ser tão ruim

Mas alguma coisa acontece

No quando agora em mim

Cantando eu mando a tristeza embora

O samba ainda vai nascer

O samba ainda não chegou

O samba não vai morrer

Veja, o dia ainda não raiou

O samba é o pai do prazer

O samba é o filho da dor

O grande poder transformador

(Desde que o samba é samba)

Tenho certeza que o leitor desfrutará de uma experiência única por meio da leitura musical-criminológica que Criminologia e Música Brasileira proporciona. E, para finalizar em alto astral, sigamos cantando e construindo conhecimento criminológico com a fé ancorada na esperança radical de transformação que a musicalidade brasileira é capaz, trazendo à baila o brado de Martinho da Vila:

Canta, canta minha gente, deixa a tristeza pra lá, canta forte, canta alto, que a vida vai melhorar.


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Bruno da Silveira Rigon