Santa Maria, 27 de janeiro de 2013


Por André Peixoto de Souza


Santa Maria é uma cidade tipicamente universitária, e uma das maiores e mais populosas do Estado do Rio Grande do Sul. Os estudantes, como peculiar, reservam as noites de sábado para a “balada”, e se divertem em pontos de encontro, em grupos, em postos de gasolina, em festas, em bares e restaurantes, em danceterias.

Na madrugada de 27 de janeiro de 2013, a danceteria Kiss (Rua dos Andradas, 1925, Centro, Santa Maria – RS), uma das maiores e mais frequentadas da cidade, está repleta de diversão e alegria, de “azaração”, de música sertaneja e gauchesca. Por volta das 2h30, um ato imprudente do vocalista da banda Gurizada Fandangueira, somado a precária estrutura de segurança do local, desemboca o segundo maior incêndio vitimoso do País: em 3 minutos duas centenas de jovens estão mortos, e outra centena feridos ou intoxicados. Números finais da tragédia: 242 mortos e 116 feridos, a grande maioria jovens universitários.

A festa “Agromerados” foi articulada entre 6 cursos da Universidade Federal de Santa Maria, e estava agendada nesse endereço para o dia 26, a partir das 23h.

Durante a apresentação da segunda banda musical, um sinalizador “Sputnik” foi utilizado por Marcelo de Jesus dos Santos (vocalista) e as faíscas atingiram imediatamente o teto da boate, formada primariamente por inusitadas espumas de isolamento acústico, que liberaram cianeto – substância altamente tóxica que causa privação de oxigênio nas células, ocasionando parada cardíaca e respiratória.

A boate Kiss foi reconstruída digitalmente por perícia técnica, e as conclusões primárias foram evidentes: não havia possibilidade de escoamento de pessoas por ocasião de incêndio no local, não havia rota de fuga adequada, não havia saída de emergência, ou sequer uma única saída adequada às normas da ABNT. Além dessa análise arquitetônica, observou-se a falha pontual em extintores de incêndio.

Em princípio, e diante da superlotação do local (mais de 1000 pessoas, para uma capacidade atestada de menos de 700), a euforia de todos pareceu aos seguranças da boate que se tratasse de uma briga, razão pela qual estes funcionários não permitiram a saída dos estudantes (pela única porta de saída disponível), sob argumento de que sairiam “sem pagar a conta” (comandas de consumo).

Uma série de erros e omissões foram apontados desde o princípio das investigações, dentre os quais: a utilização, pela Kiss, de documento precário emitido pelo corpo de bombeiros, supostamente validado como Plano de Prevenção e Combate a Incêndio; funcionamento da boate sem o competente e específico alvará; alvará de fiscalização contra incêndio vencido na data da tragédia; fiscalizações e multas inócuas e/ou descumpridas.

Providências imediatas e “reativas” emanaram dos poderes públicos Brasil afora, vislumbrando alteração na legislação pertinente e no modus operandi fiscalizatório.

Como a ação penal ainda está em curso, as responsabilizações ainda se encontram no patamar especulativo, desde a denúncia. A maior discussão se centra na responsabilidade criminal, com debates notórios entre os limites do dolo eventual e da culpa consciente. 4 pessoas foram denunciadas por homicídio doloso qualificado. Mas outras elementares acusações estão postas no sentido de: improbidade administrativa, falsidade ideológica e inobservância em fiscalização de casa noturna (contra funcionários do poder público municipal e do corpo de bombeiros), falso testemunho, homicídio culposo e tentativa de homicídio (contra membros da banda e proprietários do estabelecimento).

Na esfera civil, medidas indenizatórias e consumeristas são obviamente cabíveis, e os familiares das vítimas, que se organizaram em uma associação (“Associação de Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria”) – apesar da medida judicial tomada em março de 2013 pela Defensoria Pública do Estado – ainda estudam providências nesse sentido.

Seja como for, todas as discussões e medidas, como dito, são “reativas”, e Santa Maria chora por seus 242 filhos, que não existem mais.


Genocídios de armênios e assírios no Império Otomano em 1915: 2 milhões de mortos. Na Ucrânia, em 1933: entre 2 a 10 milhões de mortos. No Camboja, entre 1975 e 1979: 2 milhões de mortos. Em Kosovo, entre 1997 e 1999: 300 mil mortos. Em Ruanda, em 1994: 800 mil mortos. Em Dahfur, desde 2003: 400 mil mortos.

China de Mao e União Soviética de Stalin: mais de 100 milhões de mortes.

O grande incêndio de Roma (64 d.C), o grande incêndio de Londres (1666), incêndios no Gran Circus Norte-americano (1961), na boate República Cromañón (2004), na boate The Station (2003), no Edifício Joelma (1974)… Enchentes, terremotos, maremotos, tsunamis e furacões: São Francisco (1906 e 1989), Messina (1908), Yokohama (1923), Paquistão (1936), Chile (1939 e 2010), Peru (1970), China (1976 e 2008), México (1985), Rio de Janeiro (2010).

Atentados em “Columbine”, no Rio de Janeiro, no Paquistão, no Iraque, na problemática da Faixa de Gaza, no Egito, no mundo todo!

No plano da materialidade, a morte (o fim da vida) permanece como o maior mistério – e a maior tristeza – da humanidade. Não há lei no mundo (ou cumprimento de lei) que evite toda a tragédia natural ou humana. E não há justiça no mundo, em qualquer forma, capaz de confortar vítimas e familiares dessas tragédias.

Raquel ainda chora, e não quer ser consolada, porque seus filhos não existem mais!

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Foto: Lauro Alves

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