• 10 de agosto de 2020

“Se nada der certo, vou advogar”

 “Se nada der certo, vou advogar”

“Se nada der certo, vou advogar”

Pelos corredores e salas das faculdades de Direito, é cada vez mais raro que os alunos, ao serem perguntados sobre quais são as suas aspirações profissionais para depois do término do curso, respondam que pretendem advogar.

Boa parte daqueles que estão iniciando na faculdade de Direito o fazem pensando “no grande leque” de opções que terão depois de formados. O que inclui, predominantemente, os concursos públicos.

Outra parcela considerável sequer sabe o que faz no curso. Não gostam de ler, pouco sabem escrever, não se interessam por discussões jurídicas e exalam senso comum. Quando questionados sobre “o depois da faculdade”, genericamente respondem que farão concurso público (sem especificarem qual) ou simplesmente dizem que não sabem ainda.

Como sei disso? Além de estudante, participo de alguns grupos jurídicos e, todos os dias, comprovo empiricamente as minhas afirmações.

Ao lado dos “perdidos” e “concurseiros”, há o grupo cada vez mais reduzido daqueles que, quando questionados acerca de suas aspirações profissionais, timidamente respondem que querem a advocacia.

Em minha turma, por exemplo, sempre que um professor pede que aqueles que pretendem advogar levantem a mão, os dois ou três que levantam (entre os quais estou incluído) o fazem de forma envergonhada, como se estivessem errados por destoarem da maioria.

Quero deixar bem claro que não vejo mal algum que as pessoas estejam cursando ou pretendam cursar Direito com a intenção de prestarem concursos públicos. É uma escolha compreensível, já que o país vem de sucessivas crises políticas e a economia está sempre oscilando.

Para essas e outras intempéries, a estabilidade proporcionada por um cargo público soa muito atraente, embora, particularmente, eu seja da opinião de que a escolha por uma carreira deve ser pautada muito mais pela vocação do que pelo aspecto financeiro (mesmo não negando que este último também é importante).

O que mais me entristece em meio a todo o contexto até aqui exposto é que, em conversas particulares com amigos e colegas estudantes, quase sempre ouço a mesma resposta: “pretendo fazer concurso público. Mas, se nada der certo, vou advogar”.

Também é comum dizerem que: “se tudo der errado, vão advogar”.

Veja, estimado leitor, a advocacia, mister exercido por Sobral Pinto, Ruy Barbosa, Evandro Lins e Silva, Carnelutti e tantos outros nomes de relevo histórico; profissão amiga da democracia e inimiga da tirania, tornou-se sinônimo de fracasso.

Se falharem em seus percursos pelas melhores opções, se falharem em seus caminhos pelas piores dentre as melhores escolhas, se falharem em tudo, em absolutamente tudo, restará a advocacia. Como a última das piores opções.

O que andam fazendo com a advocacia, amigo leitor? A quem interessa o desprestígio dela? Quando foi que advogar tornou-se símbolo de fracasso?

Como dito em outra oportunidade, ao contrário de juízes, promotores de justiça, defensores públicos e outros profissionais que, por terem sido aprovados em concurso público, gozam de presunção (quase) absoluta de conhecimento, cabe ao advogado, todos os dias, ter de demonstrar o seu valor.

Quando os magistrados e promotores passam, pouco falta para que as pessoas ao redor estendam longos tapetes vermelhos. Lado outro, quando adentra o advogado nas repartições públicas, ouve-se, quase sempre, os mesmos sons: “lá vem o chato, o inoportuno, o inconveniente”.

Ouvi de uma colega advogada criminalista que, certa vez, ao interpelar uma magistrada sobre os motivos de esta ter determinado a prisão preventiva de um jovem de 18 anos, flagrado fumando um cigarro de maconha, sua divindade respondera com os seguintes dizeres: “doutora, aqui quem decide sou eu. Se a senhora quer mandar também, faça concurso para ser juíza”.

O “faça concurso para juiz” parece ter se tornado resposta pronta e típica. O magistrado tem a autoridade, tem o poder de polícia ao seu favor, e por isso seus atos não podem ser questionados. Quanto ao advogado, na bela frase entoada pelo Dr. Ércio Quaresma Firpe: “tem como única arma a sua palavra”.

A advocacia, mais do que nunca, tornou-se uma profissão de dupla fé: seja na justiça, seja na retomada do respeito que um dia tanto lhe coube.

Nemo iudex sine actore! (Não há juiz sem atores!)

Não pretendo apontar “culpados”, mas o fato é que algumas das causas para o crescente desprestígio são latentes.

Como não mencionar a disseminação surreal de cursos de Direito pelo país, naquilo que vários profissionais da área têm chamado de um verdadeiro “estelionato educacional”? Um autêntico “fingem que ensinam, enquanto os alunos fingem que aprendem e, ao final de 5 anos, adquirem o diploma”.

As faculdades funcionam, cada vez mais, como cursinhos preparatórias, distanciando-se do seu papel de construção do pensamento e formando profissionais quase inteiramente alheios à prática jurídica, sobretudo a da advocacia.

É claro que a consequência natural disso é o despejo anual de milhares de pessoas despreparadas no mercado para o exercício profissional, o que acaba criando um nivelamento por baixo.

Também é difícil apontar as razões para o desprestígio da advocacia sem deixar de mencionar o distanciamento da OAB para com toda a classe.

Vejo a OAB como uma instituição de extrema importância para a ordem jurídica e a democracia.

Contudo, não há como negar que a insatisfação dos advogados em relação a ela muito tem se agravado nos últimos anos, seja pela precária transparência dos gastos, os altíssimos valores das anuidades, ou mesmo pelas ações pouco efetivas e enérgicas diante das frequentes violações das prerrogativas de seus membros.

Como se vê, o cenário não é belo. E as projeções para o futuro, menos ainda.

Porém, em momento algum deixo de externar a minha admiração para com aqueles que, diariamente, lutam nas trincheiras da injustiça, do menoscabo e do desrespeito.

Ninguém reconhece o valor de um advogado, até precisar de um.

Peço perdão à minha família e à sociedade, mas não estou cursando Direito para ser juiz ou promotor, embora admire quem o faça por vocação.

Quero ser ADVOGADO! E CRIMINALISTA! E dos BONS!

Se tudo der certo, serei.


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Victor Emídio Cardoso