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O dia em que enganamos o crime organizado

Canal Ciências Criminais

Era uma segunda-feira na cadeia, eu já estava de saco cheio de ter que mais uma vez ir trabalhar nesse dia da semana, pois as “segundas” eram dias de “acertos de contas”, ou seja, as facadas “comiam” soltas nesse dia, pessoas eram mortas por um maço de cigarros.

Chegando a unidade cumprimentei os funcionários que trabalham no período da noite e segui o caminho em direção ao Setor Penal para pegar o chavão e saber das ocorrências do dia anterior, pois nesse período eu trabalhava no plantão em um regime de 12 horas de trabalho por 36 horas de descanso.

Chegando “na Penal” (é assim que ainda chamamos esse local) me disseram que nada de “anormal” estava ocorrendo e que permaneciam os rumores que existia uma ordem do Primeiro Comando da Capital para “virar” (fazer uma rebelião) a cadeia.

Peguei o material de trabalho e segui pela galeria sentido ao Raio II onde eu era zelador. De longe consegui avistar os cadeirões. Na época existia uma fábrica dentro da unidade que trabalha com cortes de madeira. Era uma madeireira que permitiu que alguns presos pudessem remir seus dias de pena pelo trabalho e também ganhar um dinheirinho com esse trabalho. A diretoria solicitou que fossem construídas grandes cadeiras para os servidores trabalharem e a tal fábrica fez as mesmas.

Antigamente os servidores que trabalhavam a noite ficavam durante o período de trabalho nos Raios dentro dos mesmos, faziam as contagens dos presos para verificar se a população carcerária informada pelos funcionários do dia batiam com a contagem que o pessoal da noite havia feito.

Nisso, depois de verificada a contagem eles permaneciam dentro do Raio. Com o passar do tempo foi verificado que esse procedimento deles ficarem dentro do Raio não funcionava muito bem quanto às fugas, pois os presos não fogem para dentro dos Raios ou Pavilhões eles fogem pelas janelas, serram as grades, serram os vitraux e vão para a área externa dos Raios.

Quando os funcionários que trabalhavam à noite ficavam dentro dos Raios verificaram que essa prática não era muito funcional, pois os presos usavam “come-quieto” (lençóis utilizados como cortinas para que assim os presos tenham um pouco de privacidade no barraco (cela, xadrez) e na “jéga”, “burra” ou “pedra” (cama) quando da prática da visita íntima ou até quando eles dormiam e assim quando os mesmos usavam esses “acortinados” a visibilidade dos agentes de segurança penitenciária era muito prejudicada.

Considerando toda essa dificuldade quanto à visibilidade e o fato dos presos fugirem para fora e não para dentro como já expliquei acima, os “guardas” que estavam escalados nos Raios por ordem da Direção se posicionaram trabalhando na galeria sentados nesses “cadeirões”, de onde tinham visão privilegiada da parte externa das celas. Ao passar pelos guardas os cumprimentei e continuei em direção ao Raio II.

Ao passar por uma espécie de vitraux que nos dá visão ao interior do Raio (que denominamos “aquário”), verifiquei que já existiam presos soltos, só que quem era para fazer a soltura desses presos era eu. Nisso, já avisei os outros guardas inclusive os que estavam para assumir o posto junto ao Raio III que alguns presos do Raio II tinham “mixado” (aberto) as celas e estavam circulando escondidos pelas galerias do Raio, que provavelmente a ordem do PCC para “virar” a cadeia estava sendo colocada em prática.

Descemos a galeria e avisamos os guardas que estavam nos “cadeirões”, seguimos em direção a “Penal”. Na “Penal” foi determinado que abandonássemos a “cadeia”, todos saímos. Ficamos dispostos no Setor de Revisora e de lá começamos a escutar os barulhos vindo do interior da unidade prisional, sem sombra de dúvidas eles estavam libertando os demais presos e também estavam indo atrás dos presos do seguro para começar a carnificina. Passadas algumas horas, um preso apareceu no Setor de Revisora e nos perguntou:

Mestre, o que aconteceu que a cadeia está abandonada?

Respondemos que na verdade não estava abandonada e que sim já sabíamos da ordem do PCC e etc. Ele negou tudo e foi embora. Passados alguns minutos chegou um outro preso, era um conhecido estelionatário com grandes posses. Ele usava um bigode. Na cadeia antigamente os criminosos gostavam de usar bigodes, era uma “marca” usada por alguns criminosos e se “rotulou” que os “bandidos, ou seja, presos mais considerados no mundo do crime usavam bigodes. Esse criminoso tinha por hábito dialogar muito com a direção da unidade prisional e era conhecido dos guardas e dos presos por essa prática.

Depois de muito diálogo ele não conseguiu nos convencer de entrarmos na cadeia e assumirmos nossos postos. Dissemos a ele que eles tinham que conversar com a Tropa de Choque do Batalhão Humaitá. Esse Batalhão era muito conhecido e temido pelos presos e quando dissemos isso percebemos o terror na face do mesmo. O mesmo vendo que não obtivera sucesso retornou ao interior da cadeia.

Passados mais alguns minutos os líderes do PCC que comandavam a cadeia, já cientes que o Batalhão Humaitá estava a caminho resolveram se dirigir a “Revisora” e dialogar conosco a fim de evitar que o Choque viesse. Se comprometeram que nada ocorreria conosco se assumíssemos os postos, deram a palavra do crime, mas nós sabíamos que eles estavam submetidos à Teoria do Domínio do Fato e que assim não tinham autoridade ali e só cumpriam ordens na época dos fundadores do Partido.

Nessa época o líder era o “Sombra”. Retornaram ao interior da unidade e logo após verifiquei que o tal preso estelionatário estava retornando. Quando ele foi se aproximando verifiquei algo de estranho em sua face. Como ele não tinha conseguido nos convencer e era conhecido como “dialogador com a direção” os chefes do PCC naquele local resolveram ridicularizá-lo raspando metade de seu bigode. Confesso que achei muito engraçado quando o vi com o bigode apenas de um lado de sua face.

Tentou de todas as formas nos convencer de novo, mas sem sucesso mais uma vez. A cadeia ficou um dia todo nas mãos deles, e no outro dia bem cedo o “Humaitá” estava lá para nossa alegria. A revista geral na unidade foi realizada, encontramos muitos celulares, estiletes, drogas e “terezas (cordas artesanais utilizadas para fugas) retomamos as “rédeas da cadeia”, transferimos os presos mais problemáticos, ou seja, os tais líderes do PCC e a cadeia voltou a rotina.

Passados alguns dias tivemos notícias dos presos transferidos, alguns deles tinham sido mortos por ordem do Comando. O PCC não admitia erros, se sentiu ofendido quando os enganamos e conseguimos evacuar a unidade prisional a tempo e a intenção deles de nos pegar de refém não tinha se concluído.

Perderam na unidade os membros que ali comandavam e teriam um trabalho para “conseguir colocar” outros membros ali para gerenciar as atividades criminosas do partido do crime e também subjulgarem os demais presos, nisso ocorrera prejuízo quanto ao tráfico de drogas e etc. o braço da organização criminosa dentro da unidade tinha sido decepado.

Vencemos essa batalha com o crime organizado!

Autor
Agente Penitenciário. Penitenciarista. Pesquisador
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