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Seita Satânica: estudos aprofundados

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Seita Satânica: estudos aprofundados

O artigo visa dar continuidade ao assunto tratado no artigo Diário de um agente penitenciário: canibalismo e outros rituais da cadeia (aqui), Diário de um agente penitenciário: seita satânica – batismo e morte na cadeia (aquie a entrevista que concedi ao jornal Intercept Brasil.

Todos eles vieram a tratar da Seita Satânica, uma das facções criminosas mais temidas não só do Estado de São Paulo, mas de todo o Brasil.

Ao longo de 2017, The Intercept Brasil manteve contato com Diorgeres de Assis Victorio, um agente penitenciário e observador atento da Seita Satânica, uma das mais antigas e desconhecidas facções criminosas do país. Victorio conheceu os rituais do grupo e suas lideranças durante os mais de 20 anos de trabalho dentro das cadeias. Foi testemunha ocular – e vítima – do conflito que resultou na hegemonia do PCC e na queda da Seita Satânica e de outras facções que fizeram oposição a ele entre os anos 90 e início dos anos 2000. – Intercept Brasil

Mas o que mais sei sobre a SS? Quem foi o “Pai” da Seita? O fundador da SS (Seita Satânica), Idelfonso José de Souza, e eu temos uma coisa em comum “entramos” no cárcere no mesmo ano (1994):

No dia 23 de julho de 1993, Idelfonso José de Souza, em idade desconhecida mas já praticante de artes marciais, iria cometer três crimes que lhe custariam muitos anos atrás das grades. Naquele dia ele matou um sujeito chamado João Dias, com quem mantinha relações homossexuais. Idelfonso arremessou João violentamente contra a parede e asfixiou-o com um golpe preciso no pescoço. Depois, tomou posse do Volkswagen Parati cinza, placa BGH8335/SP, de propriedade da vítima, e dirigiu até a serra de Mairiporã, onde jogou o corpo num matagal, que foi encontrado 13 dias depois em estado avançado de putrefação. De posse do veículo, dos documentos pessoais e bancários de João Dias, Idelfonso passou mais de uma vez em um posto de gasolina situado na praça Princesa Isabel, em São Paulo, onde abasteceu o veículo e pagou este e outros gastos com cheques falsificados da vítima. Ele ainda tentou sacar no banco a poupança do falecido. Assim, praticou os crimes de latrocínio consumado, ocultação de cadáver e estelionato até ser detido pela polícia. Idelfonso permaneceu preso por cerca de 17 anos. Em sua ficha, Diorgeres diz constar passagem por diversos estabelecimentos prisionais no estado de São Paulo, entre eles o Carandiru e a Penitenciária Mário de Moura Albuquerque, em Franco da Rocha, que tornaria-se o principal reduto da Seita Satânica. Já na Penitenciária Nilton Silva, também de Franco da Rocha, Idelfonso foi surpreendido com a posse de 4 facas, 1 celular e 1 carregador. Na Penitenciária João Batista, em Itirapina, cometeu os delitos de incitação da desordem, danos ao patrimônio público, subversão da disciplina, ameaças à outros sentenciados, tumulto e incêndio. A partir de 2009, progrediu ao regime semiaberto na P1 de Balbinos, onde ganhou o benefício de saídas em datas como Páscoa e Dia das Mães, das quais sempre retornou dentro do prazo. A última notícia que temos do Idelfonso é de setembro de 2010, quando este deixou a Ala de Progressão da P1 de Balbinos e ganhou a liberdade.

A Seita, em briga por poder com o PCC, sofreu muitas baixas. Uma dela eu cito:

Começou no dia 13 de fevereiro de 2001, quando um preso de altíssima periculosidade da SS, o Nilson César Camargo, também conhecido como Caveira, foi morto por outro preso que atendia às ordens do PCC. Foi uma retaliação. No histórico prisional do Caveira diz que antes ele havia participado do assassinato de dois detentos, um atingido com 42 dois golpes de estilete e outro com 52. No dia seguinte, mataram outro membro da SS, o José Eduardo Assaf, que sofreu várias estocadas na frente, nas costas e no pescoço por um homem chamado Paulo Alfredo Nunes, o Magrão. E, cinco dias depois, quem morreu foi o Benedito Honorato, aquele que me ensinou muito sobre a Seita Satânica e que havia sido transferido para o Carandiru. Ele foi estrangulado.

É importante notar que nos inquéritos daquelas três mortes há um nome em comum: o do Marcos Williams Herbas Camacho, o Marcola, que depois se tornaria o líder do PCC.

Autor
Agente Penitenciário. Penitenciarista. Pesquisador
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