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Seitas criminosas

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Seitas criminosas

Recentemente vimos a notícia de que Allison Mack, a eterna Chloe de Smallville, foi presa por supostamente participar de uma seita que se dizia ser de empoderamento feminino e que, na verdade, seria um ambiente de tortura e doutrinação para criar escravas sexuais do líder.

O envolvimento de seitas no cometimento de crimes é constantemente documentado e relatado no noticiário por envolver curiosidade sobre o que leva as pessoas a crerem cegamente em líderes e ideologias através de seitas.

Mas o que são seitas e como elas funcionam?

Robert I. Simon fala que a seita é um grupo religioso diferente em sua estrutura e isolado das comunidades religiosas principais que estão ativas. Entre as mais conhecidas, aliás, está a Hare Krishna e a Cientologia.

Então, para alguns a seita pode ser vista como religião e para outros não, mas são sempre grupos com ideologias específicas e líderes cativantes que criam adeptos fiéis e comunidades com regras e costumes próprios.

Seus líderes são muito fortes em influência, e os adeptos à seita são muito unidos com crenças extremamente encrustadas. Mesmo que a maioria das seitas acabe ficando no meio termo em relação às suas crenças e práticas, esse ambiente proporciona uma conexão e propensão à obediência radical que leva os adeptos à filosofia até ao ponto de cometer diversos crimes para fazer o que seus líderes desejam incluindo, em alguns casos, assassinatos e suicídios coletivos. Em sociedades conflitantes elas surgem com mais facilidade.

Para o Criminal Profiling, além de ser imprescindível o entendimento de como as seitas funcionam, é importante entender que existem perfis que podem ser observados, principalmente nos líderes, até para negociar com eles e evitar tragédias como a de David Koresh, que fundou a comunidade Mount Carmel Center no Texas e após 51 dias de negociações deixou 80 pessoas de sua comunidade mortas após uma invasão das autoridades no local onde a comunidade ficava.

Enquanto as negociações aconteciam para que Koresh se entregasse, a Unidade de Ciência Comportamental do FBI efetuou um perfil psicológico de Koresh afirmando “que havia uma alta probabilidade de o líder da seita cometer suicídio se fosse atacado de forma direta pelo FBI.”

Mesmo com essas informações, os negociadores FBI ignoraram as diretrizes e a instabilidade emocional de Koresh, que acabou em tragédia e que poderia ter sido evitada se o lado psicológico do líder tivesse sido considerado na hora de agir em meio às negociações.

É imprescindível que o comportamento do líder de uma seita seja analisado, principalmente se existe instabilidade nas atitudes e mudanças de ideia constantes. Seu comportamento na fala, nas expressões, na forma de tratar seus adeptos, seu histórico de vida, tudo isso precisa ser analisado para que seja possível compreender um pouco de como essa pessoa age e pensa.

Com o caso de David Koresh e outros, como Jim Jones, já é possível compreender minimamente como esses líderes agem e entender as características psicológicas que eles possuem, seus padrões comportamentais.

Entre suas características é possível perceber que muitas vezes são carismáticos para conseguir adeptos; possuem complexo de divindade, pois se veem como um deus que salvará a humanidade; possuem desvios sexuais, pois muitas vezes abusam sexualmente de várias pessoas, normalmente menores de idade para exercer seu poder e utilizá-lo para se satisfazer sexualmente; e agem também com visões apocalípticas muitas vezes ligadas à tendência suicida.

O líder possui poder e controle sobre seus adeptos e seus atos e procura por pessoas vulneráveis, suscetíveis e com transtornos mentais para segui-los cegamente e serem mais facilmente manipulados. Fará tudo para satisfazer seus desejos com sua mente doentia e muitas vezes persecutória de modo que ele seja venerado e se veja como a única solução para o bem da sociedade, mesmo que isso envolva a morte.

São pessoas disfuncionais, podendo até ter características da personalidade borderline em um período de crise por sua instabilidade emocional quando pressionado demonstrando mudanças de humor súbitas, ameaças recorrentes de suicídio, impulsividade sexual e raiva intensa, por exemplo.

A compreensão psicológica do líder de uma seita e de todos os fatores que determinam um perfil criminal, como a vitimologia ao analisar os adeptos da seita, por exemplo, serve como auxílio para quem tiver que lidar com esses líderes, principalmente em momentos de muito estresse.

Mesmo sendo uma situação plural em que existe o líder e os adeptos da seita que cometem crimes, o princípio do perfil criminal é o mesmo, a diferença é que são analisados o líder como o criminoso principal e cada adepto individualmente como criminosos e vítimas, tudo dentro da percepção da seita e suas diretrizes.


REFERÊNCIAS

SIMON, Robert I. Homens Maus Fazem o que Homens Bons Sonham. Porto Alegre: Artmed, 2009.

Como funcionava a seita que escravizava mulheres e fez atriz de Smallville ser presa. Disponível aqui.

Allison Mack: como atriz de Smallville se envolveu em um culto bizarro. Disponível aqui.

David Koresh, o profeta que causou a morte de 80 pessoas. Disponível aqui.

Autor

Verônyca Veras

Especialista em Criminal Profiling. Advogada.
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