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Troféus e souvenirs dos serial killers: Jerome Brudos

Troféus e souvenirs dos serial killers: Jerome Brudos

Considera-se que todos os vestígios encontrados na cena de crime, juntamente com outros fatores, estão sujeitos a interpretações que supõe características do criminoso, compreendendo a dinâmica do ato. Porém, pode ter algo que esteve presente na cena durante o ato e não mais se encontra, pois foi levado pelo assassino.

Este “algo” pode ter sido removido por questões que configuram uma destreza do criminoso, para não ser pego, mas também, pode ter um significado particular. Ou seja, o que foi retirado da cena de crime pelo assassino e tem uma relevância psíquica podendo ser nomeado como Troféu ou Souvenir (lembrança).

Jerome Brudos foi um assassino em série dos Estados Unidos na década de 60, sequestrou e matou quatro mulheres, também conhecido como o “Assassino da Luxúria” e “Assassino do Fetiche de Sapatos”. Em alguns assassinatos, ele chegou a se vestir de mulher, retirou o pé de uma das mulheres guardando-o no freezer, de outra mulher retirou o seio e de uma terceira também tirou o seio e fez deste um molde com resina. Brudos também fotografou suas vítimas.


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  • Jerry Brudos, o assassino da luxúria (aqui)

Após brincar com sapatos de salto encontrados numa lixeira, Jerry que na época tinha cinco anos começou sua obsessão por sapatos. Ele tentou roubar os sapatos da professora e na adolescência perseguia mulheres, as espancava e roubava-lhes seus sapatos. Aos 17 anos, numa internação psiquiátrica, descobriu que suas fantasias sexuais estavam ligadas ao ódio pela sua mãe e por outras mulheres.

Na série televisa Mindhunter, ele foi entrevistado pelos detetives do FBI. Alguns falam que o interrogatório policial é uma espécie de sedução, cada um dos envolvidos tenta seduzir o outro para dar (ouvir) o que quer. Brudos desde sua tenra idade manifestou fetiche por sapatos, aproveitando desse dado, os detetives, numa técnica, um tanto exuberante, levaram um sapato para o assassino, este chegou a se masturbar na frente de todos.

Outros casos:

Ed Gein: tinha crânios empilhados em sua casa, peles humanas transformadas em abajures, cinto feito de mamilos humanos, uma caixa de sapatos cheia de vulvas conservadas.

Leonardo Lake: tinha videotapes com as filmagens dos assassinatos.

John Wayne Gacy: tinha uma coleção de pertences de suas vítimas

Stanley Baker: mantinha ossos de suas vítimas numa bolsinha amarrada no seu cinto.

Anatoly Onoprienko: depois de ser preso, a polícia encontrou mais de 100 pertences de suas vítimas, incluindo pares de roupa intimas de todas as suas vítimas do sexo feminino. Afirmou que havia presenteado sua namorada na época, com alguns de seus queridos troféus.

Jeffrey Dahmer: mantinha como troféus, os genitais de suas vítimas (conservados em acetona), além das cabeças e crânios delas, fotos polaroides dos corpos despedaçados.

Maníaco de Contagem (MG): levou de suas vítimas seus celulares, a maioria destes foi encontrado com sua esposa na época que alegou serem presentes.

Segundo Newton (2006), é reconhecido que assassinos, principalmente os motivados sexualmente e os sádicos, pegam algum objeto da vítima como lembrança do ato. O autor pontua que apesar de não ter muito distinção quanto ao sentido, para o FBI, os Troféus seriam objetos colecionados por assassinos em série organizados, pois tem a função de comemorar uma caçada bem-sucedida e o Souvenir seria a classificação para os objetos recolhidos pelos assassinos em série desorganizados, cuja função seria como se o objeto fosse um combustível para suas fantasias.

Estes objetos possuem uma grande variação, depende da função que eles representam para o assassino. Abrangem desde fotos, joias, itens de roupa até partes do corpo da vítima, por exemplo mechas de cabelos. Podem escrever em diários sobre as fases do homicídio, colecionar reportagens dos seus crimes e até mesmo revisitar o local do crime.

Os troféus e souvenirs são símbolos que representam algo da cena e prolongam sua satisfação. Estes objetos não têm finalidade lucrativa, eles têm um valor único e pessoal para os serial killers. Os assassinos transfiguram as recordações do ato homicida em sensações de domínio e controle sobre a vida.

“E já vimos muitas variações dessa lógica de substituição. Um traço comum, por exemplo, é levar um item da vítima feito “troféu” depois do assassinato, como um anel ou um colar. O assassino depois presenteia sua esposa ou namorada com esse item, mesmo que seja ela a “fonte” de sua raiva e hostilidade.

Normalmente ele dirá que comprou a joia, ou que a encontrou. Depois, ao vê-las usando o acessório, reviverá a excitação e o estímulo do assassinato ao mesmo tempo que reafirma mentalmente sua dominação e seu controle, por saber que poderia ter feito com a parceira a mesma coisa que fez com a infeliz vítima” (Douglas e Olshaker; p.113)

A ideia do serial killer de levar consigo um pertence da vítima como troféu ou souvenir tem um poder enorme sobre ele, já que este mesmo objeto lhe dá o prazer da lembrança e também é uma importante prova incriminadora, podendo leva-lo a prisão.

O conhecimento prévio do fetiche de Brudos por sapatos, possibilitou uma “certa” proximidade entre os detetives e o assassino, já que com a presença dos sapatos levados para a prisão, emergiram lembranças em Jerome, que foram relatadas por ele, como seu histórico com os sapatos e sua vida familiar. Foi uma importante (e controversa) ferramenta na condução de uma entrevista.

Durante as investigações de uma série de assassinatos ou de estupros, o profiler pode fazer ligações entre os casos, ao perceber que algo da cena sumiu, como por exemplo: o sangue da vítima, uma parte do corpo repetida nos crimes, uma mecha de cabelo, um brinco, etc.

A descoberta destas coleções de objetos juntamente com outros fatores comportamentais podem ajudar na elaboração do perfil do criminoso. Vale lembrar que estas associações nem sempre são óbvias e nem todo assassino leva consigo algo da vítima.


REFERÊNCIAS

DOUGLAS.J.; OLSHAKER, M. Mindhunter: O Primeiro Caçador de Serial Killers Americano. 1 Ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017.

KONVALINA-SIMAS, T. Profiling Criminal – Introdução à análise comportamental no contexto investigativo. 2 ed. Editora Letras e Conceitos Lda, 2014.

NEWTON, M. The Encyclopedia of Serial Killer. Second Edition. Ed. Checkmark Books, 2006.

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Clarice Santoro

Especialista em Psicanálise, Saúde Mental e Criminal Profiling. Psicóloga.

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