• 25 de setembro de 2020

Severino lavrador: o estigma do retirante

 Severino lavrador: o estigma do retirante

Severino lavrador: o estigma do retirante

O agreste e indomesticável solo do sertão traz consigo algumas evoluções, entre elas a surpreendente faceta do também indomável espirito humano, ao buscar um fator a mais para sua existência.

Ao sair de sua terra para fugir da velhice antes dos trinta, o Severino lavrador de João Cabral de Melo Neto aprendeu a muitas penas que o solo feminino que vive próximo ao Capibaribe, tão cheio como nunca houvera visto antes, traria a sua completa perdição.

Da mesma forma, previu que as dificuldades não se encontravam apenas no dia após o outro, mas sim, nas plurais interpretações que os desconhecidos faziam de seu eu, tão calejado como se podia ser alguém com a vida Severina.

Por muito tempo, as cidades constituíram-se em um sonho que poderia abrigar todos os ideais desde que não conflitantes com a lídima justiça dos seus moradores.

As cidades toleravam a vida em conjunto e marcava aqueles que deveriam permanecer em um patamar mais elevado dos demais, bem como chamuscava a ferro aqueles inoportunos que teimavam em rondar os entremeios populares onde os bons cidadãos se encontram em seus domingos de manhã.

As grandes cidades, plurais em sua própria concepção de desenvolvimento e ostentação de civilidade e evolução, nunca conseguiram moldar os seus cidadãos aos seus anseios de globalização e modernidade.

Em um certo ponto, uma ruptura entre tradicionalidade e modernidade transbordou e as cidades, mesmo as maiores e tidas como exemplos de aceitação e tolerância, passaram a uma tradicionalidade antiga vista no início das formações que confabulava em prol da coexistência em união daqueles que percorrem os mesmos caminhos, aqueles que são conhecidos como moradores natos e tradicionais, os empreendedores morais, mitigando a globalização e seus aspectos (BECKER, 2008).

Não se deixou a tradicionalidade, que não morreu em um simples passar de tempo e numa estação mais enuviada concebeu diferentes caminhos, entre eles, a pós modernidade e toda sua liquidez ou fluidez.

A priori, a tradição se fortaleceu, como num desvio em uma cidade que convive em solidariedade mecânica, diria Durkheim que o ato desviante fortaleceu a sociedade pois encrudesce o olhar dos bons feitores ao desvio, atando mais fortemente ainda o elo da corrente que liga seus cidadãos.

Isso ocorreu até certo ponto entre as passagens da concepção de globalização e modernidade. Uma vez infestado de estrangeiros em seu ceio, a cidade, por maior que fosse, retornou aos seus mais adeptos e antigos cidadãos, beneficiando suas linhagens em detrimento de qualquer estranho que buscasse subsistência (BAUMAN, 2006).

Sua maneira de focar no problema segurança foi tão intensa que os condomínios visavam minar qualquer possibilidade de interação entre as gentes e aproximação dos diferentes, que muitas vezes travavam batalhas para a sobrevivência, escapando de um Holocausto ou alguma perseguição inaudita, tão viva nos dias atuais e motivo constante para a imigração.

A cidade chama e suas luzes atraem pessoas que imaginam uma vida menos sofrida do que a vivida no agreste sertão, como Severino, que busca o “ter com que viver”, mas sem sucesso, pois a propaganda da cidade ou a interpretação do retirante é enganosa. Ela não acolhe, mas sim, escolhe e estigmatiza.

Severino queria apenas encontrar uma vida um pouco menos áspera, mas encontrou uma sociedade fechada em si e em seus próprios fundamentos.

Não saber fazer outra coisa senão arar terra máscula e bravia era um atestado para a incompetência do retirante e sua estigmatização perante os outros ficaria evidente.

Se a modernidade (ou pós) conseguiu algo com muito sucesso foi a estigmatização das pessoas.

A criação de condomínios, cercas, muros e alarmes que soam ao primeiro estranho que perambule pelas ruas é a alma da nossa atual sociedade, que se formou lá nos tempos do Severino, de João Cabral de MELO NETO (2000).


REFERÊNCIAS

BAUMAN, Zygmunt. Confiança e medo na cidade. Lisboa: Relógio D’Água, 2006.

BECKER, Howard. Outsiders. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

MELO NETO, João Cabral. Morte e Vida Severina. 8 ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2000.


Pintura: Cândido Torquato Portinari

Iverson Kech Ferreira

Mestre em Direito. Professor. Advogado.