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Síndrome de Estocolmo e seus desdobramentos: La Casa de Papel

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Síndrome de Estocolmo e seus desdobramentos: La Casa de Papel

A série de televisão espanhola LA CASA DE PAPEL, criada em 2017 pelo diretor Álex Pina, apresenta a história do “Professor”, um homem misterioso que planeja o maior assalto do século, na Casa da Moeda da Espanha. Para tanto, ele recruta oito pessoas com habilidades específicas e que não têm nada a perder.

Nesse grupo não se pode revelar a vida pessoal, muito menos seus nomes verdadeiros. Cada componente (exceto o Professor) escolhe o próprio nome ligado a localizações mundiais, como Rio, Tókio, Nairóbi, Berlim…

O plano orientado pelo Professor inclui o cálculo do tempo de assalto (11 dias), do tempo de produção das notas (dinheiro), da diversidade dos 67 reféns presentes, incluindo nessa estratégia todos os contratempos possíveis, inclusive das intervenções policiais.

E no meio desse impactante assalto, dois dos sequestradores e duas das vítimas mantêm um relacionamento, porém com contextos diferentes. Num dos casos o afeto entre os personagens é preponderante e no outro caso, a relação é de “ódio”, a vítima se relaciona acreditando que terá benefícios, mas não suporta a situação. No caso de “amor”, a vítima se torna parte integrante dos sequestradores, recebendo o nome de Estocolmo.

Diante dessas duas ocorrências, o que podemos pensar?

No transcorrer da história sucederam diversos assaltos, sequestros, atentados terroristas, nos quais não se tinha muitas pesquisas de como gerenciar a situação. A polícia, o criminoso e a vítima se portaram de forma aleatória até que, a partir da experiência, pode-se formular uma técnica a ser utilizada com o intuito de salvar o maior número de vidas.

Em 1972, nos Jogos Olímpicos de Munique, terroristas de origem árabe sequestraram 11 integrantes da equipe olímpica israelense, morreram todos. Em 1980, ocorreu o ataque na Embaixada do Irã com diversos reféns, cinco terroristas foram mortos e um saiu junto com os reféns.

Nos EUA (1989), um homem usuário de crack, mantém reféns, apenas para conseguir um pouco mais de droga. No Brasil, temos casos clássicos como o “Massacre do Carandiru”, o sequestro do ônibus 174 e o caso da menina Eloá.

No entanto, a origem do termo Síndrome de Estocolmo, surgiu na década de 70, num assalto a banco na Suécia. Um presidiário fugitivo junto com um comparsa fizeram reféns num banco e ao final, apesar de toda dificuldade, os reféns relataram que não tinham maus sentimentos com os sequestradores e ainda, que temiam mais a polícia que seus captores, sendo que duas das vítimas se casaram com os sequestradores após o término do processo.

O caso mais famoso e característico dessa síndrome é o de Patty Hearst, filha de um magnata, que desenvolveu a doença em 1974, após ser sequestrada durante um assalto a banco realizado por uma organização paramilitar politicamente engajada. Depois de libertada do cativeiro, Patty juntou-se aos seus captores, indo viver com eles e sendo cúmplice em assaltos a bancos (Nota-se semelhanças com dois personagens da série televisa espanhola).

Segundo Fuselier (1999), a síndrome de Estocolmo também é conhecida como Síndrome de Identificação de Sobrevivência ou apenas como transferência.

Para este autor, essa síndrome frequentemente depende de três componentes, seja isoladamente ou em combinação, são eles: sentimentos negativos por parte dos reféns em direção as autoridades; sentimentos positivos por parte dos reféns para com o tomador de reféns; sentimentos positivos retribuídos pelo tomador de reféns em direção ao refém.

A partir disso, pode-se perceber que por parte dos reféns existe um movimento direcionado a sobrevivência, comportando-se de uma forma na qual não se coloca em perigo suas vidas. Investigadores do FBI concluíram que devem estar presentes três fatores para a síndrome desenvolver: o primeiro refere-se à um período significativo do TEMPO, em segundo, os tomadores de reféns e os reféns devem estar em CONTATO, e por último os tomadores de reféns devem tratar bem os reféns, ou pelo menos NÃO AGREDIR verbalmente e fisicamente.

Embora, os comportamentos dos reféns nem sempre sejam iguais, pois cada um reage de uma forma particular devido a intensidade do momento, algumas atitudes podem se assemelhar.

As pessoas quando estão vivendo momentos cruciais, costumam se apegar a qualquer coisa que lhe indique a saída, e é exatamente isso que ocorre com os reféns e bandidos (processo de transferência). Por outro lado, a síndrome de Estocolmo nem sempre se desenvolve.

Nestas situações de crise, o profiler pode se orientar a partir do contexto da situação, buscando os antecedentes e história de vida do sequestrador; analisando os fatores que desencadearam e motivaram a ocorrência do fato; avaliando se tem relação com alguma tipologia criminal (passional, instrumental/ financeiro/ transtornos psiquiátricos) e caso haja algum transtorno, avaliar qual doença mental.

A partir dessa investigação, construir uma estratégia que se baseie em:

1. ganhar tempo: com maior número de horas é possível que a síndrome de Estocolmo seja estabelecida;

2. abrandar exigências: não aceitar todo pedido do tomador de reféns, mas responder parte da exigência;

3. colher informações: a cada aproximação, ter a oportunidade de verificar a situação dos reféns;

4. promover o suporte tático, que são manobras realizadas com os tomadores de refém, para que dê tempo de se organizar uma tomada de decisão mais segura.

Importante lembrar que quando os tomadores de reféns são psicopatas, dificilmente ele responderá positivamente caso o refém desenvolva a doença. Para concluir, é de extrema importância para a estratégia policial diante de um sequestro, saber se a síndrome de Estocolmo foi estabelecida ou não. Quanto melhor a relação entre negociador, criminoso e refém, melhor a condução do trabalho em que se priorize a vida.


REFERÊNCIAS

SOUZA, W. M. Negociação de reféns: sistematização e manejo das ações do negociador no contexto da segurança pública. 1 ed. São Paulo: Ícone, 2010.

FUSELIER, G. D. Placing the Stockholm Syndrome in PerspectiveTrad. Onivan Elias de Oliveira. FBI Law Enforcement Bulletin. Washington: July, p. 22-25.


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Autor
Especialista em Psicanálise, Saúde Mental e Criminal Profiling. Psicóloga.
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