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Sobre escolhas e renúncias: a Deep Web no universo Matrix

Por Bernardo de Azevedo e Souza

O filme “Matrix”, dirigido pelos irmãos Wachowski e lançado no ano de 1999, retrata um universo futurista (próximo ao ano de 2200) e devastado após uma intensa guerra entre homens e máquinas. Derrotados, os seres humanos acabam sendo aprisionados e as máquinas passam a utilizar a energia produzida por seus corpos para se manter em funcionamento. Para possibilitar e efetivar o cultivo da energia elétrica, cria-se um programa de computador capaz de produzir nos cérebros humanos a sensação de uma realidade virtual similiar ao mundo no final do século XX. O controle outrora simbolizado por entes onividentes, como o “Big Brother” de 1984, passa a ser representado por máquinas geradoras de uma realidade artificial, que mantém os homens absolutamente dominados.[1]

Na película, há uma cena em que Morpheus (Laurence Fishburne) confronta Neo (Keanu Reeves) com duas opções, representadas por pílulas, uma azul e outra vermelha. A escolha da primeira permitirá a Neo regressar ao seu mundo ilusório e superficial; a opção pela segunda, por outro lado, possibilitará conhecer a verdade por detrás do universo que julga ser real:

Morpheus: A Matrix está em todo lugar. À nossa volta. Mesmo agora, nesta sala. Você pode vê-la quando olha pela janela ou quando liga sua televisão. Você a sente quando vai para o trabalho, quando vai à igreja, quando paga seus impostos. É o mundo que foi colocado diante dos seus olhos,  para que você não visse a verdade.

Neo: Que verdade?

Morpheus: Que você é um escravo. Como todo mundo, você nasceu num cativeiro, nasceu numa prisão que não consegue sentir ou tocar. Uma prisão para sua mente. lnfelizmente, é impossível dizer o que é a Matrix. Você tem de ver por si mesmo. Esta é sua última chance. Depois não há como voltar. Se tomar a pílula azul, a história acaba, e você acordará na sua cama acreditando no que quiser acreditar. Se tomar a pílula vermelha, ficará no País das Maravilhas e eu te mostrarei até onde vai a toca do coelho.

A mencionada cena, inspirada na Alegoria da Caverna de Platão, na obra Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll e nos estudos do filósofo francês Jean Baudrillard, é talvez a mais importante da produção cinematográfica, sendo desde então objeto de estudos acadêmicos e científicos nas mais diversas áreas do conhecimento. O diálogo travado possibilita inúmeros olhares, permitindo (re)pensar, explorar e analisar dicotomias como “mundo real x mundo virtual”, “bem x mal”, “luz x escuridão”, “liberdade x escravidão”…

Dentre as óticas possíveis, interessa-nos aqui a metáfora[2] que utiliza as pílulas para representar as espécies de conteúdos encontrados na Internet: a azul simbolizaria as páginas da Surface Web e a vermelha, a seu turno, os dados e informações disponibilizados na Deep Web. O que se busca sublinhar, na esteira das colunas anteriores, é que cabe ao usuário optar se deve ou não acessar a rede profunda.

No âmbito desta representação, pode-se afirmar que durante nossas vidas a maioria de nós se deteve a “ingerir” a pílula azul: utilizamos os mecanismos de busca tradicionais da Internet para nossas consultas diárias, sem recorrer às informações existentes no subterrâneo. Dirão alguns que no Google encontramos tudo o que precisamos. Afinal, por meio desta ferramenta podemos efetuar nossas pesquisas acadêmicas, adquirir produtos que necessitamos para nosso consumo, dentre inúmeras outras utilidades.

Mas a indagação surge (e permanece) no momento em grupos como Anonymous e WikiLeaks, que tiveram seu nascedouro na Deep Web, expuseram ao mundo acontecimentos reais cujo conhecimento jamais seria possibilitado na seara da Surface Web. O vazamento de relatórios secretos da invasão do Afeganistão e da Guerra contra o Iraque permitiram aos norte-americanos vislumbrar os fatos com uma nova ótica. As manifestações e lutas contra a liberdade de expressão e censura na Internet, também iniciadas no ambiente profundo, revolucionaram diversos países, culminando no encerramento de regimes ditatoriais como o de Hosni Mubarak, então presidente da República Árabe do Egito, que, após 30 anos no poder, renunciou o mandato em 11 de fevereiro de 2011. Estas e outras revoluções, proporcionadas pelo movimento denominado “Primavera Árabe”, provavelmente não seriam concretizados se dependessem tão somente da Surface Web.

A opção pela pílula vermelha pode assim proporcionar ao usuários novos horizontes, sem descuidar, no entanto, dos riscos também existentes. Nas colunas anteriores, vimos que a Deep Web oferece espaço para a prática de inúmeros delitos. Em face da gamas de crimes que ocorrem diariamente nesta rede, o usuário que a acessa poderá, sim, ser rastreado. O internauta que pesquisa com frequência imagens de pornografia infantil poderá despertar a atenção de determinado departamento de investigação. Neste aspecto, as agências governamentais norte-americanas (CIA, FBI, NSA e NRO) encontram-se bem amparadas, contando não apenas com especialistas na área da tecnologia de informação, como também com a cooperação internacional de outros países, como foi o caso da Operação Onymous, que resultou no encerramento de diversos websites em que eram comercializadas armas, drogas e outros produtos ilícitos.

No Brasil, os riscos são menores porque a investigação criminal no âmbito da Deep Web ainda é ocasional e embrionária. De todo modo, a Operação Darknet, capitaneada pelo estado do Rio Grande do Sul em 2014 e executada simultaneamente em diversos estados da Federação, logrou êxito em identificar e rastrear, após um ano de intensa investigação, pessoas que se utilizavam da rede profunda para compartilhar imagens e vídeos de sexo com crianças. Foram encontrados mais de 90 suspeitos e alguns deles foram inclusive condenados posteriormente pela prática de tais atividades delituosas.

Para finalizar, cabe destacar que, a despeito de todos os avanços tecnológicos, não se vislumbra a possibilidade de que todo o conteúdo da Deep Web venha a ser indexado no futuro pelos motores de busca. Trata-se de uma situação pouco crível, notadamente porque até o presente momento nenhum especialista ou pesquisador conseguiu precisar a dimensão e profundidade da rede. O número de informações lá constantes é imenso. E mesmo que os search engines venham a contemplar todo o conteúdo da Internet subterrânea, existirá sempre a possibilidade de que determinados usuários, dotados das habilidades necessárias, consigam “driblar” a indexação.

A Deep Web é, em suma, uma realidade e sempre existirá. Permanece ainda como um incógnita. Divide opiniões. Para alguns, é um mundo isolado que não deve ser acessado. Para outros, é uma saída para fugir de uma sociedade vigiada e controlada. Apresenta um lado luminoso e outro obscuro. Daí por que, a exemplo do protagonista Neo no filme “Matrix”, cabe única e exclusivamente ao usuário decidir se deve ingerir a pílula azul ou a pílula vermelha, desfrutando dos benefícios e enfrentando os riscos decorrentes da escolha adotada.


[1] VIANNA, Túlio. Transparência pública, opacidade privada: o direito como instrumento de limitação do poder na sociedade do controle. Rio de Janeiro: Revan, 2007, pp. 49-50.

[2] Editorial da Revista Segurança Digital, edição nº 10, fevereiro 2013.

_Colunistas-BernardoSouza (1)

Autor

Advogado (RS)
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