Sobre lobos, solitude e advocacia criminal


Por Alexandre Batista


Não sei por qual motivo me veio a cabeça escrever sobre a solitude do criminalista, talvez por que eu entenda que esse mister, de fato, leva o defensor a momentos de solidão obrigatória. Não que sejamos solitários, mas necessitamos desse “estar só”. Então, usarei essa metáfora do lobo solitário para expressar, por muitas vezes, o estado de espírito do advogado criminalista.

Nunca se escolhe estar só, e na comparação que faço entre o Defensor e o lobo solitário, permito-me escrever que assim como o lobo, o criminalista abandona o instinto e segue um caminho “seu”. Talvez pela rebeldia e dor, talvez por conviver entre o amor e ódio, a liberdade e o encarceramento.

Algumas vezes me encontro tarde da noite ou madrugada adentro no escritório, somente eu e as laudas de um processo criminal, sentindo-me como um lobo solitário, envolto, muitas vezes, em pedidos de socorro naquelas folhas a que tudo aceitam. Outras vezes me encontro só em uma defesa criminal, cercado de acusadores por todos os lados. Sinto-me só. Expulso de uma alcateia de idiotas adoradores da sanha sancionatória. Lobos não são os “reis da selva”, mas nunca vi nenhum trabalhar em circo.

Para arremate final, justifico aqui a solitude da defesa com um trecho desse poema de Clarice Lispector:

“Que minha solidão me sirva de companhia, que eu tenha a coragem de me enfrentar, que eu saiba ficar com o nada e, mesmo assim, me sentir como se estivesse plena de tudo.”


Alexandre Batista – Advogado criminalista, professor de Processo Penal da Faculdade São Lucas.

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