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Sobre os palhaços assustadores

Há uma onda notória e curiosa sobre palhaços assustadores que apareceram em algumas cidades – em ruas desertas, em bosques, em cantos… portando armas de diversas modalidades, perseguindo e lesionando e até matando pessoas.

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Desde agosto ou setembro de 2016 essas “personagens” (mas não se pode tirar de vista que isso é vida real) voltaram às ruas, ostensivamente, e o fenômeno agora é “mundial” – palhaços assustadores já foram vistos nas penumbras dos EUA (em 40, dos 50 Estados), na Inglaterra, na Austrália, no Canadá, no Brasil (sim, no Brasil!).

Mas… por que palhaços? O que habita esse imaginário? E quais as consequências desse “fenômeno” macabro?

Historicamente, o palhaço – do italiano, paglia = palha, útil para revestir as roupas dos artistas contra machucados em suas “palhaçadas” – remonta ao teatro (em qualquer nível: de Corte, de praça pública, de companhia). Roupas coloridas e maquiagens e máscaras são apetrechos dos artistas que inferem hilaridade, comédia. E, na história, o palhaço ganhou prestígio e glória entre os Imperadores, o povo, as crianças. Palhaço está no imaginário popular assim como as lendas, os mitos, os folclores. (O clown remonta a outra tradição, dessa vez inglesa, diferente da italiana, mas com o mesmo desiderato.)

Pois bem: o palhaço (lenda, mito e realidade – uma realidade tão sofrida quanto gloriosa) virou referência de segurança, de conforto, de alegria. O palhaço parece não carregar vida pessoal; é personagem caracterizada permanentemente, e, como tal, é “útil” ao divertimento do seu público. (A ópera deu conta de explicitar as mazelas e os dramas do intérprete do palhaço, em sua vida real, como podemos perceber na espetacular – densa e tensa! – obra de Leoncavallo, Pagliacci.) Por essa razão, por essa ausência de personalidade, virou estereótipo de pleno e imediato reconhecimento, sempre na mesma referência: de alegria, de divertimento, de descontração, de inocência… de segurança!

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Utilizar o estereótipo do palhaço para assustar – ou seja, com o estrito propósito contrário – é, pois, inteligente. Maldoso, porém inteligente. E notamos essa inteligência maldosa em duas situações consideradas “clássicas”: uma real, outra fictícia. Na vida real, um dos mais célebres serial killers (daqueles que entram em listas, rankings, livros e até revistas de banca de jornal) foi John Wayne Gacy.

Esse Canal já trouxe texto completo a respeito do “palhaço assassino”, a que remeto aqui. Na ficção, a obra mais festejada é It, do Stephen King (que, segundo se diz, teria sido inspirada na história real – e tem sido utilizada para referenciar filmes: o clássico cult de 1990 e o remake, previsto para 2017).

A partir dessa literatura baseada em fatos reais, aquele imaginário popular – alegre, divertido, inocente, seguro – passou a sofrer pontuais alterações. E as variações da literatura verídica passaram a “mascarar” outras e outras personagens, criando assim uma rede centrífuga de “mascarados” (em que o palhaço foi parar até mesmo na caracterização do percussionista da banda heavy metal Slipknot – uma das mais rentáveis “empresas de música” dos EUA).

Literatura pop, cinema hollywoodiano e bandas/empresas de heavy metal – cada categoria possui as suas centenas de milhões de dólares de faturamento! – ditam tendências. São categorias vivíssimas da indústria cultural, notadamente norte-americana. Mas não bastasse o contributo direto desses fatores, é evidente que, nessa última onda (os palhaços de 2016), a internet foi o seu maior fator de propulsão. Em vídeos verídicos e (na maioria) falsos, a aura dos palhaços assustadores correu o mundo com a rapidez necessária a fazer inúmeras “autoridades” (dentre elas, The White House; e, inclusive, o próprio autor de It; e, pasme-se!, uma das maiores redes de restaurante fast food do planeta) se manifestarem.

Ou seja: há aqui um misto de euforia e brincadeira adolescente (já que estamos próximos do Halloween) com distúrbios psicológicos (pelos psicopatas palhaços assustadores verdadeiramente criminosos) com a propulsão de todo um sistema histórico que visa, acima de tudo e de todos, qualquer vantagem financeira.


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Gostaria, num post scriptum, de colocar um problema criminal, sem dar resposta (pois já dei resposta a isso, num outro post): e se eu me deparar com um palhaço assustador, à noite, em rua ou beco escuro… e, se e quando ele vem em minha direção, eu atiro nele, matando-o? Incorro em alguma tipificação penal? Ou é cabível à causa uma excludente ou exculpação?

(Não vale questionar: André, o que você está fazendo sozinho, à noite, armado, num beco escuro?)

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