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A luta de Solomon Northup pela liberdade

Solomon

A luta de Solomon Northup pela liberdade

Transformado em filme pelo cineasta Steve McQueen em 2013, a história de Solomon Northup está narrada no livro “Doze anos de escravidão”, escrito pelo próprio Northup, um best seller do século XIX, que precisou do excelente filme para se tornar conhecido do grande público nos dias atuais.

Homem negro e livre, vivendo na cidade de Saratoga, estado de Nova Iorque, em 1841, Solomon vivia com relativa tranquilidade com sua família. Homem inteligente, mas sem estudos formais, como muitos de sua época e de todos os tempos, Solomon e sua esposa não tinham emprego fixo e estavam sempre em busca de novos trabalhos para sustentarem seus filhos.

Nessa época histórica dos Estados Unidos, a escravidão era legalizada somente nos estados do Sul. Os estados do Norte, mais progressistas, já haviam abolido por completo a escravatura. No Norte, homens como Solomon podiam ser livres, trabalhar e receber salários.

Solomon, no início de sua narrativa, era um homem como qualquer outro, sentindo-se como deveria, tendo direitos iguais aos “brancos”. Essa relativa ingenuidade de acreditar-se livre das armadilhas que sua condição de homem negro poderia lhe trazer explica a tragédia de seu sequestro.

Pois o então homem livre, devido a uma promessa de trabalho feita por dois desconhecidos cavalheiros brancos, chamados por ele de Brown e Hamilton, viajou até Washington, cidade na qual foi sequestrado e vendido como escravo.

Apesar de ser filho de um escravo, Solomon conta em sua narrativa que já nascera livre. Na época, muitas quadrilhas sequestravam homens e mulheres negros, fossem livres por direito/nascença ou não, e os vendia para traficantes/comerciantes de escravos, mudando seus nomes para livrarem-se das amarras frouxas da lei.

De acordo com a narrativa, depois de alguns dias ouvindo promessas vagas acerca do prometido trabalho, já em Washington, em certo jantar, o ingênuo Solomon abusou da bebida alcoólica. Sentindo-se indisposto, ficou dias em seu quarto de hotel, sem muita percepção do que estava ocorrendo ao seu redor. É nesse momento que o então homem livre já acordou amarrado por correntes em uma masmorra.

Foi então que começou a ganhar espaço em minha mente a ideia, a princípio difusa e confusa, de que eu fora sequestrado. Mas isso me parecia impossível. (…) Não era possível um cidadão livre de Nova York, que não fizera mal a homem nenhum, tampouco violara qualquer lei, ser tratado de forma tão desumana. (pg. 34).

Nesse primeiro cativeiro, Solomon foi cientificado de sua situação: ninguém se importava com quem ele era, que nome tinha, se tinha nascido livre ou não: ele era um escravo e seria vendido como tal. Surrado incontáveis vezes pelo traficante, começa o suplício do então homem livre:

Ao fim e ao cabo, Radburn disse que era inútil continuar me açoitando – que eu já ficara bastante machucado. Assim, Burch desistiu, dizendo (…) que, se algum dia eu ousasse dizer mais uma vez que tinha direito à minha liberdade, que fora sequestrado ou qualquer coisa do tipo, o castigo que acabara de receber não seria nada em comparação com o que aconteceria. (pg. 39). 

A descrição da casa do traficante já demonstra toda a crueldade do sistema escravocrata: os escravos, homens e mulheres, eram expostos sem roupa nenhuma, para que os “compradores” pudessem avaliá-los e até tocá-los, como se fossem animais.

As mulheres, no mais das vezes, já eram compradas por senhores com a intenção implícita de sofrerem abuso. As surras eram cotidianas, com ou sem motivo. Mães eram separadas de seus filhos, crianças pequenas eram vendidas já para serem aproveitadas nas fazendas do Sul como trabalhadoras. Para as meninas, a situação era mil vezes pior, pela possibilidade de sofrerem violência sexual de seus “patrões”:

No dia seguinte muitos clientes vieram para examinar o ‘novo lote’ de Freeman. (…) Freeman nos fazia erguer a cabeça de forma altiva, caminhar de um lado para o outro enquanto os clientes podiam apalpar nossas mãos, nossos braços e nosso corpo, fazer-nos virar, perguntar o que sabíamos fazer, fazer-nos abrir a boca e mostrar os dentes, exatamente do mesmo modo como um jóquei examina um cavalo (…). Às vezes, um homem ou uma mulher era levado novamente para a cabana pequena no pátio, desnudado e inspecionado de forma mais detida. (pg. 67). 

Com o nome de Platt, Solomon inicia sua jornada de miséria num navio rumo ao Sul. Os escravos, sem divisão ente homens, mulheres e crianças, dormiam todos no fétido porão do navio. Doenças e mortes de escravos eram comuns; os mortos eram jogados no rio e sua falta não era comunicada a ninguém: laços familiares eram desconsiderados pelos traficantes.

Seu primeiro senhor era o fazendeiro Willian Ford. Ford e sua esposa eram generosos e tratavam seus escravos com dignidade. Solomon/Platt, por sua inteligência e capacidade para o trabalho, logo se tornou um dos favoritos e se afeiçoou ao “patrão.”

Mesmo com toda a injustiça e crueldade do sistema escravocrata, havia homens como Ford, que tratavam seus escravos com um quase afeto. Mas logo Ford se veria em dificuldades financeiras, perdendo parte de seus bens e escravos. Solomon/Platt era um “bem valioso” por sua força de trabalho, sendo cedido como pagamento ao senhor Tibeats.

O sádico Tibeats, um dia, tentou enforcar o desventurado Solomon, que só se salvou da morte pela interferência de seu antigo patrão, Ford. Testemunhas viram Solomon/Platt pendurado na forca, e o bondoso Ford foi chamado a interferir. O incidente leva Tibeats a vender o infeliz escravo a um senhor ainda mais sádico do que ele próprio, senhor Edwin Epps.

Com o senhor Epps, Solomon logo compreende o suplício da escravidão. Embora nunca tenha perdido a esperança de recuperar a liberdade, com o senhor Ford experimentara uma espécie de alívio momentâneo em sua tragédia pessoal. Com o senhor Epps, tal alívio não existiria.

Epps surrava seus escravos com ou sem motivo. O pior tratamento era reservado à escrava Patsey, violentada cotidianamente pelo “patrão”. Durante os dez anos seguintes, Solomon/Platt “trabalhou” para esse senhor a quem qualificou como selvagem.

Fugir era arriscado demais; um escravo que fugia podia ser preso ou morto, com as bênçãos da lei, por qualquer um que o encontrasse. Havia grupos de homens que ganhavam a vida caçando escravos fugidos; o escravo capturado vivo valia uma recompensa em dinheiro.

Passados inacreditáveis dez anos, Solomon decide que era a hora de arriscar tudo para recuperar a liberdade. A essa altura, o desventurado homem livre já havia sido surrado, já havia tentado fugir e fora caçado como um animal. Depois de tanto tempo, a oportunidade surge quando ele vai trabalhar com o senhor Bass, um homem branco que era contra a escravatura:

Eu lhe digo, Epps’, declarava Bass, ‘está tudo errado- tudo errado, senhor-, não há justiça nem integridade nisso. Eu não teria um escravo nem se fosse tão rico quanto Creso, o que não sou, (…).

Agora, aos olhos de Deus, Epps, qual é a diferença entre um homem branco e um homem negro? (…)

Agora, deixe eu lhe fazer uma pergunta. Todos os homens são criados livres e iguais como a Declaração da Independência diz que são?

(…)

Haverá um acerto de contas- sim, Epps, virá um dia que arderá com um forno. Mais cedo ou mais tarde, mas virá, tão certo como o Senhor é justo.” (pgs. 214/215).

 Sentindo confiança no senhor Bass, Solomon contou finalmente sua história. Ainda assim, a situação era de risco para os dois. As leis puniam quem ajudasse um escravo a fugir. Então, Bass escreveu inúmeras cartas a conhecidos de Solomon no norte, na esperança de que um deles tomasse a atitude de resgatar o então escravo.

Semanas se passaram. Finalmente, num dia em que os escravos estavam na extenuante tarefa de colher algodão, o resgate chegou a Solomon, após doze anos. Uma das cartas redigidas pelo generoso Bass chegou à esposa de Solomon, Anne. A mulher então pediu socorro a Henry B. Northup.

Este cavalheiro encontrou uma lei que protegia homens livres de serem sequestrados e mantidos como escravos. As questões burocráticas, porém necessárias, foram a razão da demora do resgate, que finalmente chegou. Com os documentos legais que provavam a identidade e a condição de homem livre e após uma audiência, Solomon foi afinal levado de volta para casa:

De acordo com tal conselho, foi redigido e assinado por ambas as partes um documento no qual Epps declarava estar convencido do meu direito a liberdade (..).

Em liberdade, Solomon e seu advogado foram até Washington; Burch e Radburn, os traficantes de escravos, chegaram a ser processados. Eles foram absolvidos. Seus sequestradores nunca foram encontrados.

De volta para sua esposa e filhos, Solomon decidiu contar sua história em formato de livro, alcançando grande repercussão. Solomon jamais teve notícias de seus companheiros de escravidão na fazenda de Epps; seu relato foi uma das formas de lhes fazer justiça.

A escravidão só seria definitivamente abolida nos Estados Unidos em 1863. O relato de Northup, assim como o livro “A cabana do Pai Tomás”, da abolicionista Harriet Elizabeth Stowe, seriam peças fundamentais para a crescente campanha abolicionista.


REFERÊNCIAS

NORTHUP, Solomon. Doze anos de escravidão. Título original: Twelve Years a slave. 1ª edição – São Paulo: Penguin Classics. Companhia das Letras, 2014.

Autor

Especialista em Ciências Penais. Advogada.
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