• 24 de setembro de 2020

Spartacus: o anseio por liberdade em um sistema de violência

 Spartacus: o anseio por liberdade em um sistema de violência

A luta do homem por liberdade possui, em seu cerne histórico, inúmeros exemplos de que o aprisionamento do ser e o cerceamento de sua humanidade somente pode levar a duas situações fáticas: a revolta ou/e a violência. Nos cinemas vários exemplos foram retratados a respeito e um dos mais conhecidos foi Spartacus, ou Espártaco, o gladiador que desafiou o Império de sangue e areia.

Além do grande sucesso de Stanley Kubrick que teve como o protagonista Kirk Douglas (em 1960, vencedor de quatro estatuetas do Oscar), séries de TV já destacaram a destemida luta do homem por liberdade, ainda que para muitos escravos da época retratada essa era apenas uma quimera pertencente à vida da elite local e não um desejo ou uma motivação para a sua própria existência.

Mesmo assim, após assistir e participar de muita violência, de 73 a 71 a.C. Spartacus lidera uma insurreição dos renegados contra o poderio de Roma, numa batalha que poria nas mesas de discussões dos generais itálicos o debate a respeito das motivações de tal levante. Se por um lado entendiam os escravos seres inferiores que eram, consideravam também sua relação como coisa que pretendia ser algo a mais, desafiando assim não apenas o poder da nação mais bem preparada belicamente da época, mas também, exigindo algo que não lhes era por direito: liberdade. Como escravos travam luta contra o seu senhor, que numa relação niilista os enxerga como seres irracionais e sem vontades além daquelas que lhes são impostas? No entanto, estes não eram simples escravos.

Gladiadores eram vendidos e trocados entre os seus senhores, jogados em apostas que sempre visavam os mais bem preparados guerreiros; alguns desses tratavam-se de soldados derrotados de exércitos inimigos, outros nascidos na vila e treinados desde sua infância por um doctore, mestre da arte da luta com gládio (espada curta utilizada pelos lutadores, raiz da palavra gladiador), conhecendo apenas o treino e a morte em sua vida que geralmente, era tão curta o quanto podia ser.

Etruscos que viviam nas regiões conhecidas atualmente como Toscana e Lácio foram considerados por Heródoto como oriundos da  Ásia Menor (atual Turquia), destarte, não romanos, incivilizados, bárbaros e dessa forma, bons escravos e aguerridos pelejadores. Muitos se transformaram em guerreiros de coliseu, travando épicas batalhas em prol de um povo que os reconhecia como heróis enquanto empunhavam sua espada para derramar sangue, mas que os temeu quando Spartacus os uniu como um exército treinado por aqueles que os amordaçavam a liberdade.

Oriundo da Trácia, o escravo demonstrou desde aquela época que o anseio por liberdade e o livre caminhar por entre os rumos do mundo é um desejo intrínseco ao espirito humano. Ao devolver a dignidade a soldados aposentados, ex combatentes e ladrões, bárbaros de inúmeros cantos da vastidão, voltavam ao seu intuito legitimo de uma livre vida. Todavia, àqueles que não entendiam a liberdade, uma vez que nasceram em cativeiro, tiveram que aprender um novo sentido, desconhecido até então devido ás mazela causadas pelo cárcere e pela indigna vida não humana que levavam, pois não eram considerados pessoas e sim; coisas.

Com a morte de Spartacus a Via Appia passou a ser reconhecida como Via Tortuosa, pois foi nessa estreita estrada para Roma que seis mil escravos rebelados e capturados ainda vivos foram crucificados e abandonados como aviso para intimidar qualquer ideia que contrarie os intuitos romanos.

Com tudo isso pode-se notar que o treinamento no interior das prisões formadoras de gladiadores teve, para os insurgentes, um uso apropriado: usar as técnicas de combate e o preparo físico contra seus criadores. É certo que esses escravos eram mal alimentados, torturados e maltratados, todavia, ainda assim, tinham na areia dos circos de apresentação chamados de arenas seu combate quase que diário, que os mantinham alinhados ao propósito da guerra e da sobrevivência.

Em nosso tempo, presídios encarceram a pessoa da mesma forma que as bárbaras prisões romanas, com intuitos diferentes, mas com a mesma violência. Ao prender os homens reconhecidos como escravos de um poder advindo do senhor romano, a negação de toda sua anterior trajetória como homem livre e a posterior responsabilidade por seus atos caberiam ao senhor dos escravos, seu dono.

Se um gladiador se comportasse mal em uma apresentação era morto na sequência, e seu senhor poderia ser visto como um aventureiro na arte de domar esses leões, ou, alguém em quem não se podia confiar pois não tem a força suficiente para intimidar qualquer ato de rebeldia.

Nos dias atuais essa força é reconhecida pelo esquecimento e pela desordem, causada pela violência dos mais fortes perante aos mais fracos e pela formação de um exército de internos forçados a tomar uma postura de apoio entre uma facção criminosa ou outra, facção essa que assume qualquer violência causada por um de seus integrantes, sem nenhuma cerimônia, comandando e controlando seus afiliados por meio do medo e da imposição.

As formações de maquinações criminosas realizadas dentro dos presídios atuais é a maneira qual se identifica que prender o homem e sua liberdade somente o torna mais desumano. A insurgência de Spartacus ocorreu em um ápice de uma violência contra os presos, numa situação que não poderia mais continuar. Da mesma forma, as atuais prisões, como bem explica Foucault, são projetadas para aniquilar esperanças e controlar, dentro delas, aqueles que perfazem seu rol de indignos. Nota-se hoje que o controle é realizado pelas próprias facções que comandam o estabelecimento.

Uma vez fora dessas grades, o estigma que persegue o condenado é o de antigo presidiário que infringiu alguma lei de maneira tão severa que a única solução foi joga-lo no fétido antro do sistema prisional.

Com essa marca em seu corpo o risco é muito grande de não conseguir mais o encaixe na sociedade, que não está preparada para receber o detentor do estigma. Numa analogia, a marca do senhor dos escravos (realizada com ferro e fogo no corpo do condenado) passa a ser visível pelo documento exigido pelas empresas: o atestado de vida pregressa ou mais conhecido como antecedentes criminais, que geralmente se refere a uma pena já imposta, por um crime já pago perante aos anseios do Estado e do Código de Leis Processuais Penais e aos apelos da sociedade por uma punição.

Paga essa punição e ainda assim, crucificado perante o sistema, como os seis mil moribundos da Via Appia, que rogavam por liberdade. Esse livramento não diz respeito apenas à soltura do corpo, mas sim, em oportunidades e chances de retomar uma vida após ter pago a sua parte do castigo; do reconhecimento e da adequação.

A insurreição de Spartacus acabou com inúmeros detentos mortos em batalhas e outros tantos supliciados. Outros levantes vieram após este e outros ainda ocorreram antes dessa revolta. Fato que nos prova que enjaular o homem num sistema de violência extrema somente pode gerar mais violência extrema.


REFERÊNCIAS:

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir; Nascimento da prisão. Rio de Janeiro, Ed. Vozes, 2014.

SPARTACUS, 1960, Bryna Productions, Direção de Stanley Kubrick, com Kirk Douglas, Tony Curtis, Laurence Olivier, Peter Ustinov, Charles Laughton, Jean Simmons, John Gavin.


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Iverson Kech Ferreira

Mestre em Direito. Professor. Advogado.