• 26 de maio de 2020

Stan Lee: o precursor do monitoramento eletrônico

 Stan Lee: o precursor do monitoramento eletrônico

Stan Lee: o precursor do monitoramento eletrônico

Cansado de ver suas maquinações criminosas frustradas pelo herói, o Rei do Crime Wilson Grant Fisk (Kingpin), resolveu o problema com uma tecnologia a frente de seu tempo. Pensou então em uma forma a qual pudesse monitorar seu inimigo, vigiando seus passos e estrategicamente impedindo seus intentos de capturar o Rei em suas laboriosas tramoias criminosas.

Essa é a famosa cena dos quadrinhos de 1977 de Stan Lee, onde o Homem Aranha acaba sendo enganado pelo seu arquirrival, que não podendo subjugar o herói pela força, constrói em seus laboratórios aparato capaz de servir aos seus intentos de domínio sobre o inimigo.


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Na cena a frase do Rei deixa claro o poder de controle que teria, quando “nada seria capaz de removê-lo”, e “tenho o poder de ter sua localização assim que desejar.”

Dessa forma, os intuitos foram, mesmo que por determinado espaço de tempo (pois o herói sempre possui um nas mangas), alcançados. O Rei poderia perceber os caminhos que o aracnídeo percorria e planejar sua fuga, pois seu senso agora era mais aguçado que o sentido do Aranha.

Em 1977, quem lia esse quadrinho em um jornal local do Novo México, na cidade de Albuquerque, EUA, era o juiz de direito Jack Love. Em sua cidade, o problema na época era uma disfunção que atravessaria as bordas do tempo e chegaria onde hoje estamos: a superlotação carcerária, que já era uma realidade.

A criação de Stan Lee

O dispositivo criado por Stan Lee nos quadrinhos demonstrou ao juiz uma possibilidade: vigiar aqueles que seriam colocados nas prisões fartas por crimes entendidos por seu menor potencial ofensivo, cometidos por pequenos delinquentes, bêbados ocasionais e adolescentes.

Nesse sentido, o juiz Love precisava de uma justificativa. Redigiu artigos e reportagens feitas com o intuito de demonstrar que a prisão já era, naquela realidade vivida em 1977, um ambiente desfavorável ao pequeno salteador, que poderia a partir do rótulo de ex presidiário, perder sua reputação, emprego e possibilidades futuras.

Assim, logo após sua jornada escrita, resolveu procurar empresas que pudessem fabricar tal utensilio. Todavia, para a tecnologia da época o aparato custaria muito caro, até que conheceu Michael Goss, técnico em eletrônica que chegou a abandonar seu emprego de vendedor em uma loja da cidade para acreditar na visão do juiz Love, que veio a abrir sua própria empresa fabricante de dispositivos similares no futuro.

Testando o equipamento

Mas como todo primeiro experimento precisa de uma irrefutável resposta de sua essencialidade, necessita ao mesmo tempo, de uma cobaia para testá-lo.

Não querendo colocar ninguém na posição de Homem Aranha, o próprio juiz testou o equipamento e por três semanas, andando com o dispositivo unido ao seu tornozelo, sendo reportagem do jornal The New York Times de 1984.

Após o sucesso comprovado, o dispositivo de plástico passou a ser usado em seu julgamento contra quatro condenados. Um deles foi Cesario Romero, que após uma discussão com um policial foi condenado à multa de detenção. Caminhoneiro, Romero perderia tempo precioso de manejamento e transporte de carga para ficar alguns dias preso, em uma cela lotada, por um crime que em nada fere o contrato estabelecido em sociedade. Dessa forma, os 30 dias de pena foram supervisionados pelo sistema prisional norte americano, em um primeiro passo do monitoramento que hoje existe, graças à visão do juiz Jack Love.

Se a vida imita a arte ou a arte imita a vida, foi motivado por um quadrinho, no final da página de um jornal, um dos mais importantes episódios do sistema prisional mundial.

Iverson Kech Ferreira

Mestre em Direito. Professor. Advogado.