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Panis et circenses: como subverter o homem de bem

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Panis et circenses: como subverter o homem de bem

O general que se tornou escravo; o escravo que se tornou gladiador; o gladiador que desafiou o imperador.  

A ideia de Gladiador (2000), de Ridley Scott, é estrutural enquanto um excelente conto de ficção, que pode ser interpretado por dois distintos olhares.

No momento histórico em que se passa a narrativa, um dos atos do Imperador Marco Aurélio foi a pré nomeação de seu filho Cômodo aos doze anos de idade, com o título de César, governando ao lado de seu pai até que conduzisse sozinho o Império.

Esse feito foi possível com a morte natural de Marco Aurélio (180 d. C.), que acompanhava as batalhas travadas sempre que podia, tendo escrito em uma de suas aventuras “Meditações”, a obra filosófica mais conhecida do soberano.

Na verdade, Comodo assumiu o trono durante 12 anos, possuindo todo o excêntrico retrospecto de seus antepassados, no que concerne a insânia. Na história real, Calígula era apaixonado por sua irmã Drusila, enquanto Comodo e Lucila eram inimigos jurados, sendo esta deportada e logo após assassinada a mando do imperador.

Todavia, mesmo se tratando de uma excelente história de ficção que apodera-se das difíceis peculiaridades dos antigos governantes romanos, ao mesmo tempo demonstra o trato social da época de uma forma magnânima. O Coliseu recebe essa nomenclatura apenas quase 900 anos depois da história de Máximo (também ficcional) que se chamava Anfiteatro Flaviano àquela época.

No entanto, as demonstrações de subversão de um povo ao fino trato do entretenimento, ainda que este seja causar aflição alheia, é transformadora de uma estrutura cultural que atravessa os tempos e demonstra que cada civilização, em seu tempo, cria seus próprios padrões de princípios.

Subvertendo o homem de bem

Da mesma forma, essa subversão pode ser notada também na remodelação do homem íntegro em um assassino desonrado, vivendo como escravo e possuindo a alcunha de gladiador.

Ocorre que esse não se vende por pão, mas é o todo do circo, o espetáculo depende desse artista principal. Num conceito sartriano; “o inferno são os outros” quando precisam vilipendiar toda uma estrutura social e ater-se ao máximo prazer que o jogo fornece quando o sangue escorre.

Subvertido e transformado em escravo, o íntegro general, jogado aos leões e sofrendo aquilo que segundo o próprio soldado afirma ser capaz de suportar, torna-se uma besta transfigurada e um frio demolidor de pessoas.

Sua vida o havia preparado para esse fim, sua jornada em guerras passadas e lutas travadas já o haviam ensinado. Se sua vantagem era “poder olhar o inimigo no olho”, sua desvantagem era ser ninguém, ou alguém dilacerável.

E isso já começa pelas castas romanas.

Existem aqueles que nascem para controlar, comandar desde seus berços esplendidos. Da mesma forma, numa segunda estirpe, aqueles que servem, trabalham e produzem aos primeiros senhores.

Por exclusão, a terceira tipagem dessa casta são aqueles descartáveis, que podem morrer em combate com os bárbaros de quaisquer espécies, mesmo dentro das arenas de gladiadores.

Na singular sociedade romana, somente poderiam ser tatuados aqueles que pertenciam a uma esfera inferior, geralmente, soldados, generais, mesmo que de grandeza bélica reconhecida por todos inclusive, por seus inimigos.

Esses tatuados eram marcados “com os símbolos de seus deuses”, no caso romano SPQR (Senatus Popules Que Romanus: O Senado e o Povo de Roma), para que fossem identificados em mortes violentas nos campos de batalhas, como servos de Roma.

O soldado era uma classe inferior no mundo das castas romanas, onde abaixo apenas jaziam os bárbaros, escravos e eunucos. Esses combatentes carregavam uma marca, tatuada em seu corpo, em uma coletividade onde apenas os desconsiderados poderiam ser manchados.

A palavra para definir essa marca, em latim, é estigma.

De fato, Comodo acabou sendo morto por um gladiador, em uma emboscada, num despreocupado banho. Sua política panis et circenses funcionou por um lado, porém os senadores criticavam sua estratégia de governo que renunciava as guerras contra os bárbaros germânicos, onde tratados foram assinados ao invés da conquista armada.

Para os senadores, quanto menos guerra, menos possibilidades de ganhos efetivos com uma tributação dobrada ao já sofrido povo que pagava pela permanência do exército em campanha.

O homem de bem

Toda essa pecúnia foi revertida, gasta em jogos, dentro do Anfiteatro, seja dia ou noite, para o prazer do homem de bem daquela gloriosa época.

Autor

Iverson Kech Ferreira

Mestre em Direito. Professor. Advogado.
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