Teses sobre homicídio (parte 10)


Por André Peixoto de Souza


Um clássico. Dois casais. Troca “unilateral” de parceiros: o marido de uma se relaciona com a esposa de outro. Esposa e marido traídos descobrem o “caso”. Esposa traída chora; marido traído mata. Existem variáveis quase matemáticas dessa alegoria.

Consta que na década de 1980 um casal vivia feliz, sem filhos e com negócios em comum. Embora não exatamente casados, num tempo em que isso contava muito socialmente, moravam juntos e trabalhavam juntos, numa relação que durou 3 anos. O desgaste veio com esse breve tempo. Não eram exatamente almas-gêmeas. E nos últimos 3 meses ambos encontraram outras companhias. Sem rancores, sem rumores, apenas finalizaram sua vida em comum e seguiram seus caminhos, cada qual com suas novas escolhas.

Havia um vizinho, no entanto, que muito cobiçava a mulher, apesar de ser amigo do casal. Na verdade, outro clássico! O vizinho, também casado, comportava-se. Raramente ultrapassava qualquer limite (pois também era casado, num tempo em que isso contava muito socialmente), mas quando o fazia – umas 3 ou 4 vezes nesses quase 3 anos – flertava com a mulher, no que não era correspondido.

Ao saber da separação, o vizinho alegrou-se! Um rompante de esperança tomou conta de si, e voltou a invadir aquele limite jamais correspondido. Descobriu, porém, a nova personagem da trama, o novo namorado da vizinha – também seu amigo –, com o que simplesmente não conseguiu conviver. Ira, ciúmes, traição, inveja, sentimento de desprezo. Remoeu o novo relacionamento da mulher “amada” (um “amor” construído). Deixou-se invadir por rompantes de desespero (desespero construído).

Aqui não prevalece a paixão; não se fala em legítima defesa; nem mesmo em privilégio (faltaria o critério do “logo em seguida a injusta provocação da vítima”). A morte vem sorrateira, normalmente de surpresa, como se desse fim à própria traição. Para o algoz, a morte do/a traidor/a não é a morte do corpo, e sim da ideia de traição: aniquila-se a essência, e não meramente a forma. O homicídio se torna apenas o meio para alguma redenção, onde, nesse caso, o fim justifica o meio.

O algoz não tem coragem de matar. Encomenda a morte; contrata o matador. Nesse caso, dois matadores. Simulação de latrocínio. Armários revirados, alguns bens desaparecidos, um corpo inerte. Mais um clássico!!

E o quarto e último clássico de uma história recheada de clássicos: quem será o culpado do crime? Comunidade pequena. Entre depoimentos acanhados ou inventados, o culpado é aquele que “sumiu”, que “nunca mais foi visto” após o crime (e que pouco havia sido visto semanas antes do crime). Aquele ex-marido, o vizinho do algoz, que nunca fora traído, que não mais estava com a mulher, que já providenciara outra vida, outra companhia, outra expectativa, outro futuro, completamente descolado de qualquer intenção criminosa. É esse o homem – INOCENTE! – que responderá por homicídio, que irá a júri, e que será absolvido por negativa de autoria, pois essa é a VERDADE e a verdade liberta!

Quanto ao algoz, que não passou de mero suspeito durante o Inquérito Policial, convertido em testemunha de acusação desde a denúncia, nada tem a temer aqui nesta Terra. Para ele, a pretensão punitiva do Estado está prescrita.

andré2

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