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Teses sobre homicídio (parte 3)

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Por André Peixoto de Souza

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“O aroma era tão divinamente bom que Baldini ficou logo com os olhos marejados. Não precisou fazer nenhuma prova, ficou apenas parado junto à mesa de trabalho, respirando. O perfume era maravilhoso. Em comparação com ‘Amor e Psiquê’, era como uma sinfonia comparada ao arranhar solitário de um violino. E era mais. Baldini cerrou os olhos e pôde ver nele despertadas recordações das mais sublimes. Viu-se caminhando, jovem, por jardins, à noite, em Nápoles; viu-se deitado nos braços de uma mulher com negras franjas e viu a silhueta de um ramalhete de rosas no peitoril da janela, pela qual soprava um vento noturno; ouviu pássaros cantando e, de longe, a música de uma taberna; ouviu coisas sussurradas bem pertinho do seu ouvido, um eu-te-amo, e sentiu como seus cabelos se eriçavam de puro deleite, agora! Nesse instante! Abriu bem os olhos. Gemeu de prazer.”  (Patrick Süsskind, O Perfume)

Era impossível agir de outra maneira. Para fazer o perfume, o obstinado Grenouille precisava extrair o cheiro das donzelas, e por isso matou.

A primeira delas ficaria definitivamente marcada em sua consciência – e talvez em seu coração: o primeiro cheiro divino, após uma vida inteira de miséria e opressão. Na calada da noite, num beco de Paris, ele apenas desejou cheirá-la. Ela se assustou e ele tapou sua boca. Sem intenção, tapou também o seu nariz, sufocando-a até a morte. Ele não quis matar; tampouco assumiu um risco de matar. Matou sem querer. E embriagou-se com o seu cheiro. E despertou uma necessidade premente de compor o perfume.

Contratou a prostituta para tentar recolher o seu odor. Assustada com o material de trabalho do exótico Grenouille, objetou, gritou… e morreu.

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As próximas 24 vítimas morreram para completar o experimento do monstro Grenouille. Faltaria o último “acorde” do perfume: inevitavelmente, Laura.

Laura é a recordação da primeira mulher. É o desejo amoroso que poderia ter dado outro rumo à história do apaixonado Grenouille. É o experimento do corpo em outras maneiras: o cheiro da sensualidade, o prazer sem descrição, um corpo vivo.

O “fim” dos homicídios cometidos pelo perfumista Grenouille é a confecção de um artigo que, sem pudores, lhe proporcione liberdade (ou libertação). Ele não suporta a si próprio. O olfato mais privilegiado do mundo toma consciência de não possuir, ele mesmo, odor algum, e essa é a sua anulação: o pobre Jean-Baptiste sequer é sujeito! Escapa à humanidade porque é um ser inodoro. A privação dos pais, dos homens, do cheiro (de si), faz do inerte Grenouille uma vítima do mundo. Desse mundo asqueroso que, nem assim, o acolhe, conduzindo à construção de um subterfúgio para despistar a realidade. O próprio título da obra já tenciona uma estética concreta e hiper-realista: o perfume se refere diretamente ao melhor perfume concebível, mas esconde, por outro lado, o enredo espetacular de crime, de horror, de podridão onde nasceu e cresceu – e morreu – o protagonista. O título e o objeto de construção (objeto-fim) da obra se revela, mas ao cabo mascara o impulso desenfreado (e macabro) de sua própria fabricação.

Tal impulso merece ser revelado.

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Os homicídios são meios para um único fim: a confecção do perfume. O objetivo não é a morte. O objetivo é a vida! A sua vida que, desprovida de odor e de amor, ganha sentido com o perfume, realizado – porque deveria ser assim e somente assim! – através dos corpos mortos das donzelas.

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Enfim, a composição do melhor perfume é feita de “13 essências humanas”, e por isso o terrível assassino Grenouille foi condenado à morte. Sua prisão, tortura e julgamento deu satisfação à sociedade e ao pai de Laura: Aleluia! O próprio demônio será executado!

Mas o perfume é mágico e poderoso. Uma única gota no pescoço convence o carcereiro e o verdugo da sua inocência (“Esse homem é inocente!”). Outras duas gotas espargidas sobre um lenço branco convence toda a multidão da praça de Grasse: para a sociedade, um anjo; para o pai de Laura, um filho! O amor coletivo será a apoteose do perdão. O maravilhoso Grenouille será ABSOLVIDO.

Missão de vida cumprida. Verdadeiramente não era a morte o seu desejo, a sua necessidade. Ao contrário: era a vida, o reconhecimento, o amor! Encontrando A SUA VIDA com o perfume, o inocente Grenouille retorna à origem fedorenta e repugnante de Paris e se entrega aos mendigos, num ritual canibalístico de auto-destruição que vorazmente o “consome”, o “apropria”. Sua redenção: deu-se para o amor do outro. Ainda não bastava a constituição da subjetividade, não bastava a absolvição e o perdão. Era preciso atingir a divindade.

*****

P.S. – Uma nota sobre a psicopatia: ela se revela a partir da negação ou do desprovimento de sentido na ação e na reflexão. O agir racional isento de sentimento suscita o comportamento psicopata, calculista e ausente de culpa (porque ausente de sentimento de culpa), assim como o agir emocional desprovido de razão significa impulso inconsciente – que muitas vezes, igualmente, beira o crime ou o pecado ou a transgressão moral. A razão somada à emoção sem ação (vontade) caminha da inércia à depressão-suicídio.

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Jean-Baptiste Grenouille agiu. Teria ele, para agir, refletido e/ou sentido? Ou era pura reflexão? – a confecção do perfume… Ou era puro sentimento? – amar e ser amado. Um monstro psicopata ou uma desesperada vítima do mundo e da história?

P.S.2 – E não fossem os 26 fictícios assassinatos e o perfume dali extraído – que escapa e exala das páginas do livro de Patrick Süsskind –, não teríamos a oportunidade de ler e apreciar uma das mais brilhantes literaturas do século XX.

_Colunistas-AndrePeixoto

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