• 31 de outubro de 2020

The Witcher e suas lendas pedagógicas

 The Witcher e suas lendas pedagógicas

The Witcher e suas lendas pedagógicas

A série da Netflix The Wicther possui particularidades indispensáveis para análises que se debruçam sobre a evolução dos costumes, da cultura e do importante avanço de leis penalizadoras em determinada região.

Escrita pelo polonês Andrzej Sapkowski, relata a história de Geralt de Rívia, um guerreiro mutante conhecido como “bruxo”, disposto a aniquilar feras e demônios que aterrorizam os povoados situados ao longo do Leste Europeu, em especial a terra natal do escritor.

A obra ficou tão especialmente famosa que originou, além da série, jogos em um universo próprio digno de J.R.R. Tolkien, um dos grandes inspiradores do autor, com quem trocava correspondência constantemente. 

Tendo toda a sua obra baseada na mitologia polonesa e eslava, o autor descreve com precisão alguns acontecimentos da Alta Idade Média, que transformaram a percepção dos povos do Leste Europeu. Entretanto, esses eventos se espalharam por toda a Europa medieval através dos contos, fábulas e lendas, características da época.

Muitas dessas histórias ficaram eternizadas (e mundialmente conhecidas) pelos contos dos Irmão Grimm a partir no final do século XVIII e início do século XIX. A diferença dos contos do Bruxo para os famosos irmãos deve-se à origem e ao tempo da narrativa, que ocorre entre o século V e o século IX. 

Curiosamente esse cronograma refere-se ao surgimento das lendas originais do Leste Europeu; dessa forma, o autor insere seu leitor na real época do nascimento de diversas fábulas; algumas delas vieram a se tornar mitos populares e até mesmo, crenças determinantes da cultura dos povos daquela região.  

Importante destacar que a experiência dos povos do período baixo medieval (séculos V e XV) destacava-se nas regiões em que cada comunidade se encontrava. Dessa forma, os contos tomavam proporções diferentes quando saiam das bordas que o criaram e rumavam para outros lugares, nas falas e narrativas de viajantes e mercadores.

E foi assim que chegaram até os Irmãos Grimm, que os aperfeiçoaram e criaram um universo a parte, que muito difere das lendas contadas no Bruxo e, também, das regiões pelas quais o personagem teria passado.

Um desses exemplos é a Lei da Surpresa. Essa é uma peculiaridade dos costumes poloneses antigos, que inserem a oportunidade de presentear um benfeitor. Não possuindo no momento possibilidades de entregar o presente, este era dado em tom de imprevisto, pois era de súbito entregue algo que tanto benfeitor como o auxiliado não sabiam o que poderia ser.

Assim, seria uma surpresa quando aquele que recebeu as benesses chegasse em casa e percebesse uma plantação de milho que nasceu e cresceu em sua ausência. Toda a lavoura seria dada, em adimplemento da lei da surpresa, ao benfeitor.

Essa característica dos costumes antigos dos povos do leste europeu se desenvolveu nas cortes e palácios, mas passadas também aos populares da região, como uma promissória certa do adimplemento de determinadas obrigações. 

Vale destacar como o medo influenciava as comunidades da época, e de que forma sua evolução se deu até os dias modernos, com os Irmãos Grimm.

Amostra disso é a famosa Kikimora, ou mais conhecida pelo folclore russo como Baba Yaga.

Tanto uma quanto outra possuem os mesmos aspectos e finalidades: de um lado subverter o conhecimento pelo medo e, de outro, domesticar por intermédio do terror.

A Kikimora de The Witcher é um espírito que vaga as florestas; é uma entidade possuidora de duas características, uma ruim e outra boa. Seu intuito é devorar os invasores das matas fechadas. Por outro lado, sua parte boa incentiva a Kikimora a não destruir suas vítimas, mas a devolvê-las com a finalidade de que espalhem aos outros a visão apavorante de sua presença nas matas, com o intuito pedagógico do medo e de suas causas.

Esse personagem é a mesma Baba Yaga do folclore eslavo, casada com um duende bom, que a persuade a devolver as crianças desobedientes que corriam de suas mães para as florestas, com vida.

Aqui as entidades folclóricas surgem como ensinamentos aos mais incautos, aos mais novos; que devem seguir uma regra padronizada em ambiente social, pois caso contrário a sanção será severa. Somente a possibilidade do encontro com esses seres das florestas já servia para catequizar os imprudentes, a partir do medo.

As Strigas também constam tanto em jogos quanto na série e no próprio livro. Essas são lendárias no folclore albanês, e lembravam a população a não sair pela madrugada desacompanhados. Ao invés de uma norma penalizadora, aqui se tem um ser que de dia é um inseto, mas a noite transforma-se em sugador de sangue.

Com a evolução da penalização dos diferentes, Kramler e Spengler criaram o famoso manual de como combater os espectros malignos femininos, que vieram para destruir o mundo dos homens. Sua destruição somente poderia ser pela purificação celestial, que se traduzia nos conhecidos ordálios. 

Aqui, a Striga apossa-se do corpo feminino pelo dia e a noite transforma-se em um horrível vampiro. Mulheres escolhidas pela Striga que deveriam ficar trancadas, eram aquelas nascidas nas noites de eclipse, pois por elas rondava uma força sobrenatural.

E é assim que inúmeras possibilidades se abriam ao campo da estigmatização histórica, quando determinadas moças eram trancafiadas em torres de castelo, para que não servissem aos propósitos do mal. Nesse sentido, algumas marcas eram observadas nas pessoas que poderiam ser escolhidas, além da data do nascimento.

A Striga, em outra lenda eslovaca aparece como uma linda mulher de dia e pela noite, um monstro devorador (como a Fiona, de Shrek), foram adaptadas pelo Irmãos Grimm para os contos popularizados na Europa Ocidental, como a moça guardada em uma torre, esperando salvação.

Note que em todos os exemplos há, hodiernamente, uma lei ou norma penalizadora, utilizada em códigos ou regulamentos internos de diferentes países. Para cada padrão estipulado na história como lenda pode ser reconhecido por uma diretriz de conduta; que inflexivelmente, confabula a uma norma penal. 

Cada exemplo trazido acima, ou os demais apresentados na séria de 07 livros lançados nos anos 90 por Andrzej Sapkowski, pode ser realizável dentro do direito institucionalizado. 

Significa entender que, por lendas, histórias e contos, as leis transitaram entre o intelecto humano, tanto pelas suas experiências mais remotas e comuns, quanto pela sua solidificação positiva. Isso demonstra não apenas a evolução e origem, mas também, suas hipóteses mais intrínsecas de motivação e criação, ou seja, de suas pretensões originais.


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Iverson Kech Ferreira

Mestre em Direito. Professor. Advogado.