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Os Trabalhadores do Mar e a visão do Outro em Victor Hugo

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A obra Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo, é em essência um relato do homem e de sua aventura diante à natureza, em duas perspectivas: humana e natural, na concepção pura da palavra.

Para Victor Hugo, as três lutas do homem são definidas como suas necessidades básicas: a religião, a sociedade e a natureza. Destarte, o homem precisa ultrapassar os conceitos dos dogmas; lutar por leis justas e; sobreviver em natureza, tanto social quanto mundanal. O primeiro conceito é trazido pelos escritos do Corcunda em Notre Dame, o segundo conceito; elevado pelos Miseráveis, e o terceiro conceito; natural, descrito nos Trabalhadores do Mar.

De toda forma, Victor Hugo considera o completar de uma tríade, ou uma trilogia que se conclui com os Trabalhadores e que se inicia com o Corcunda. Num primeiro momento, o dogma da religião e sua indisposição ao contraditório, no segundo passo hugoniano nota-se a luta em sociedade pela dignidade da vida de cada um, e, no terceiro ponto; a afirmação do homem diante suas naturezas, entre elas o pertencimento e a aceitação, bem como a luta de sobrevivência em meio aos estertores desconhecidos da natureza.

Todavia, o personagem principal da obra não poderia deixar de seguir os moldes de Victor Hugo ao alinhar seus percalços, tanto em sociedade, quanto quando luta por sobrevivência meio ao resoluto mar.

Gilliat era diferente. Era estrangeiro, vindo de paragens distantes, não pertencia ao lugar de fato, não era tradicional e vivia com sua mãe, tida como feiticeira. Gilliat era negado e julgado por sua aparência “anormal”, diferente. Vivia numa casa reconhecida pelo povoado como antinatural.

Já em seu livro primeiro intitulado “Elementos de uma má reputação”, a história de seu personagem principal, Gilliatt e sua mãe, traz os motivos da desconfiança dos cidadãos tradicionais da pequena ilha de Guernesey. O autor não detalha a origem dos personagens uma vez que os moradores pouco sabiam ou queriam saber a respeito daqueles dois intrusos, que compraram uma casa em um vale, próximo a um penhasco onde uma lenda sombria era conhecida pela cultura local, e bem por isso, jazia assombrada.

Somente feiticeiros morariam em casas mal assombradas, ainda mais naquelas épocas que beiravam o final do século XIX. Em um trecho que específica sobre o personagem principal e sua mãe, o autor traz o estigma e o popularmente conhecido como o impopular:

Já o dissemos. Gilliat não era estimado na paróquia. Antipatia natural. Sobravam motivos. O primeiro acabamos de explicá-lo, era a casa em que morava. Depois a origem dele. Quem era aquela mulher? E este menino? A gente não gosta de enigmas a respeito de estrangeiros. Depois, trajava uma roupa de operário, tendo alias com o que viver, embora não fosse rico. Depois, o jardim, que ele conseguia cultivar e donde colhia batatas, apesar dos ventos do equinócio. Depois, os alfarrábios que ele lia. Nunca ia a igreja. (HUGO, 2002, p. 30)

De fato. Como a família Gilliat era desprezada por sua “diferença” e assim, estigmatizada sendo rotulado o seu reconhecimento social. Não havia ainda quebrado nenhuma regra na sociedade em que decidiram viver, mas eram diferentes e por essa diferença pagaram com o quinhão do desprezo.

O motivo de o personagem conseguir cultivar e colher batatas em um jardim como o qual possuía, ou de nunca ir à igreja mostram o quanto é fatal a maledicência, que se espalha pelo povoado em que vivia. Essa vila costeira que tinha na pesca e nas grandes aventuras em alto mar como economia e mais que isso, como vida e distração, não suportava aquilo que desconhecia.

Ao mesmo tempo, intrigava-lhes o quão industrioso e inteligente era aquele camponês desconhecido. Mas o que não suportavam de fato era a sua origem, pois “não gostamos de enigmas a respeito de estrangeiros. ”

A leitura de Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo, em sua totalidade nos fornece elementos sobre o personagem e o contexto social que permitem uma reflexão para além das motivações individuais. Gilliatt fora estigmatizado desde a infância e os paroquianos o viam com desconfiança e estranheza, e

“tinha o hábito feroz do ente que não se julga estimado; andava de longe. Ainda criança, vendo pouco agasalho no rosto dos homens, tomou o costume, que depois se tornou lhe instinto, de andar sempre afastado”. (HUGO, 2002, p. 238)

A comunidade isolou-o; ele afastou-se dela. Seus hábitos pareceriam estranhos aos supersticiosos e intolerantes. Esse instinto afastado mostra o quanto o estigma pode ser parte metafórica do EU diferente enquanto em meio a uma sociedade e como realmente “sou quando junto dos que conheço”.

Assim o estigmatizado busca o seu equilíbrio em uma carreira ou atividade, como o marinheiro Gilliat, que buscou no mar e em uma paixão impossível as suas fontes de inspiração, sendo este o seu caminho paralelo de escape aos ditames e insinuações ásperas que o esperavam na cidade.

A origem “estrangeira” do personagem e sua mãe deixa claro que é o ápice do conflito, ou a pedra fundamental para a rotulação.  Dessa forma, o reconhecimento social dos estrangeiros em nova terra é quase nulo, uma vez que as opiniões sobre eles são formadas empiricamente por aqueles que compõem o grupo social estabelecido e aceito, que, estão a sua volta diariamente.

Entende-se que o reconhecimento social é intrinsecamente relacionado ao meio onde as pessoas decidem viver e dividir sua existência em comunidade. Na obra, tal reconhecimento se perfaz somente no meio de convivência entre os iguais. Ao deixar as bordas do agrupamento harmônico esse reconhecimento é quase nulo.

Gilliat encontrava harmonia entre seus companheiros de pesca e aventuras de mar, mas ainda assim, faltava o reconhecimento. Os dogmas, as crenças e o medo do outro eram ainda maiores em uma vila tradicional que temia aquilo que não conhecia.

O reconhecimento jurídico se dá através do estimulo de aceitação e inclusão social, com leis que integrem a alteridade e tolerância, e, como esse cidadão é aceito no interior das instituições, não apenas por aqueles que a controlam, mas todavia, pelas pessoas que delas também dependem, como escolas, instituições de ensino, hospitais, etc.

Como explica Lévinas, a função de ser-para-outro deveria se pautar em uma alteridade crucial para o desenvolvimento completo das situações e vivencias que se intercalam quando em conjunto. Entretanto, o outro como promessa de aceitação pode ser também uma ameaça, quando se concilia ao estereótipo de mundo etnocêntrico dos dias atuais; uma visão hodierna de enxergar tanto o outro quanto o EU mesmo: por nossas diferenças.

Victor Hugo continua em sua relação de estudos sociológicos e criminológicos, quando em 1866, já intentava discutir as semelhanças entre os iguais e as diferenças dos desiguais, numa forma de entender que enxergar a sociedade por estamentos é a maneira de se obter um maior sucesso quando se quer dividir e segregar; aceitar alguns em detrimento de outros, racionalizar a distinção e criar uma espécie mais humana que outra.

Gilliat e sua mãe talvez nunca entendessem o real motivo das distinções, mas elas são claras e evidentes na obra que traz em seu amago a disputa do ideal humano e a sobrevivência, seja em qualquer ambiente, dos estrangeiros, diferentes, refugiados, negados, estigmatizados, etc.

Para que exista a real inclusão e aceitação tanto social como jurídica é necessário rever os conceitos de cidadania e desprender da ideia atual de cidadão, compondo-a em virtude e em razão de um novo mundo, globalizado e interdependente. É importante, todavia, que se tenha conhecimento, no caso de refugiados diversos, de que sua aventura se deu por conta de problemas e situações inauditas e das quais o ser humano não tem nenhum tipo de controle e poder, sendo vítima dos infortúnios advindos do retardo ou completa falta da razão humana.


REFERÊNCIAS

HUGO, Victor. Os trabalhadores do mar. Nova Cultural, São Paulo, 2002. Tradução de Machado de Assis.

Autor
Mestre em Direito. Professor. Advogado.
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