• 14 de julho de 2020

Tragédias

 Tragédias

TRAGÉDIAS

Assim diz o Senhor: Uma voz se ouviu em Ramá, o gemido de muito choro amargo: Raquel chorando os seus filhos, recusando ser consolada quanto a seus filhos, porque eles não mais existem. (Jr 31, 15)

Quando Prometeu furtou o fogo do Olimpo, objetivando entregá-lo aos homens, Zeus determinou a seu irmão Poseidon que lançasse um dilúvio sobre a terra, a fim de punir os homens e seres do mundo (Prometeu também amargou penosa sanção: foi condenado a ter o fígado devorado diariamente por uma águia, por toda a eternidade). Deucalion (filho de Prometeu) e sua esposa Pirra construíram uma enorme arca e nela introduziram um casal de cada animal, salvando-se juntamente com eles depois que as águas acalmaram.

A antropologia já enumerou mais de 1 milhão de versões, mundo afora, do “dilúvio”, tendo todas sempre o mesmo mote: Deus, ou os Deuses, inconformado(s) com a maldade humana, resolve(m) arrasar o mundo, e escolhe(m) “um homem bom” para perpetuar a humanidade e os seres do universo.

A tragédia mais conhecida e também mais desastrosa da história [ocidental] está registrada na Bíblia. Gênesis, 7-8. Corrupção e violência prevalecia sobre a terra. E Deus se arrependeu de ter criado os homens e os seres, e decidiu destruí-los. Interpelado por Noé (que “achou graça aos olhos do Senhor”), determinou-lhe a construção de uma arca de madeira, capaz de acomodar Noé, sua esposa, seus 3 filhos e as esposas de seus filhos. Além deles, “tudo o que é carne e vive sobre a terra”, “macho e fêmea”, e “toda a comida que se come”, para manter essa população.

Assim fez Noé, e eis que por quarenta dias e quarenta noites o dilúvio desceu à terra (“as janelas dos céus se abriram”). E assim, “tudo o que tinha fôlego de espírito de vida em suas narinas, tudo o que havia em terra seca, morreu. Assim foi destruído todo o ser vivente que havia sobre a face da terra, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; e foram extintos da terra; e ficou somente Noé, e os que com ele estavam na arca” (Gn 7, 22-23).

A terra ficou inundada por 150 dias, até que Deus ordenasse “passar um vento” e “aquietarem-se as águas”. Descendo todos da arca, Noé edificou um altar ao Senhor, e Ele prometeu nunca mais amaldiçoar a terra por causa dos homens, nem ferir os viventes da terra. Deus prometeu! (Gn 8, 21).

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Pompeia, 79 d.C. – 16 mil vítimas fatais. Nova Orleans, 29 de agosto de 2005 – quase 2000 mortos. Porto Príncipe, 12 de janeiro de 2010 – ao menos 200 mil mortos. Norte do Japão, 11 de março de 2011 – mais de 13 mil mortos e mais de 16 mil desaparecidos. Nova Iorque, 11 de setembro de 2001 – mais de 3 mil mortos. Madri, 11 de março de 2004 – 191 mortos e mais de 1700 feridos. Oslo, 22 de julho de 2011 – 77 mortos. 2ª Guerra Mundial – mais de 70 milhões de mortos. Europa, século XIV (“peste negra”) – 75 milhões de mortos. Mundo, 1918 (“gripe espanhola”) – entre 40 e 100 milhões de mortos. Atlântico Norte, 15 de abril de 1912 (Titanic) – 1517 mortos. Serra do Cachimbo, 29 de setembro de 2006 (GOL) – 154 mortos. São Paulo, 17 de julho de 2007 (TAM) – 199 mortos. Santa Maria, 27 de janeiro de 2013 – 242 mortos e 116 feridos. Paris, 13 de novembro de 2015 – 129 mortos.

Genocídios de armênios e assírios no Império Otomano em 1915: 2 milhões de mortos. Na Ucrânia, em 1933: entre 2 a 10 milhões de mortos. No Camboja, entre 1975 e 1979: 2 milhões de mortos. Em Kosovo, entre 1997 e 1999: 300 mil mortos. Em Ruanda, em 1994: 800 mil mortos. Em Dahfur, desde 2003: 400 mil mortos.

China de Mao e União Soviética de Stalin: mais de 100 milhões de mortes.

O grande incêndio de Roma (64 d.C), o grande incêndio de Londres (1666), incêndios no Gran Circus Norte-americano (1961), na boate República Cromañón (2004), na boate The Station (2003), no Edifício Joelma (1974)… Enchentes, terremotos, maremotos, tsunamis e furacões: São Francisco (1906 e 1989), Messina (1908), Yokohama (1923), Paquistão (1936), Chile (1939 e 2010), Peru (1970), China (1976 e 2008), México (1985), Rio de Janeiro (2010).

Atentados em “Columbine”, no Rio de Janeiro, no Paquistão, no Iraque, na problemática da Faixa de Gaza, no Egito, no mundo todo!

No plano da materialidade, a morte (o fim da vida) permanece como o maior mistério – e a maior tristeza – da humanidade. Não há lei no mundo (ou cumprimento de lei) que evite toda a tragédia natural ou humana. E não há justiça no mundo, em qualquer forma – muito menos na forma de DIREITO PENAL – capaz de confortar vítimas e familiares dessas tragédias.

Raquel ainda chora, e não quer ser consolada, porque seus filhos não existem mais!

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Obs.: Escrevi um capítulo intitulado “Tragédias”, na obra coletiva Tragédia de Santa Maria: uma visão multidisciplinar, coordenada por Luiz Eduardo Gunther e Viviane Coêlho de Sellos-Knoerr. Esse texto que agora publico no Canal Ciências Criminais é um excerto levemente alterado (e atualizado) daquele texto original.

_Colunistas-AndrePeixoto

 

André Peixoto de Souza

Doutor em Direito. Professor. Advogado.