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Tropa de Elite: a verdade por trás das câmeras, violência e opinião pública

tropa de elite

O sucesso dos filmes Tropa de Elite no país se refere a dois fatores conflitantes e que entre si se chocam: a verdade por trás das câmeras e o senso imediatista e inquisidor que toma conta da percepção dos expectadores, mostrando que a realidade se funde com as proezas violentas cometidas por alguns personagens da obra.

A principal trama dos dois filmes é proveniente dos livros escritos por ex-policiais civis batizados por Elite da Tropa I e II, e que contam, invariavelmente, casos da realidade policial narrados por pessoas que estiveram e empunharam armas com a finalidade de manter a famigerada lei e ordem. Por outro lado, demonstra o quão superficial a motivação das massas se encontra perante a uma violência que tem por escopo a luta pelo poder e domínio em todas as situações em que ocorre a violência.

No que se entende por crítica social tanto o filme como o livro são unanimes e conspiram assertivamente para um repensar tanto das polícias e suas práticas na questão da segurança e suas prerrogativas, quanto na aproximação de política e segurança, ou melhor, políticos e policiais. Por outro lado, a incursão mostra o quão verde ainda estamos, se analisarmos que o personagem principal do filme Tropa de Elite, tido como herói, julga e extermina conforme seus próprios princípios aprendidos numa suposta fábrica (escola) de juízes morais armados e fardados.

Noutro ponto, e essa é uma crítica social, bem como aquela realizada pelo filme Tropa de Elite, mas a nós cabe a digestão daquilo que nos foi apresentado por amostragem, principalmente nas salas de cinemas (pois é lá que se notam as emoções), é a aproximação do grande público à catarse do personagem principal que exprime suas emoções demonstrando sua humana e padronizada dúvida quanto ao que realiza em combate e em sua vida. No entanto, quando ele mata no filme ele é o herói de uma parte da nação cansada de violência, mas que, não obstante, causa mais violência ainda.

Por outro lado, é reconhecido por outra parte da nação como o carrasco que bateu-lhes à porta dia desses, sem autorização judicial, invadiu sua casa, espalhou seus pertences e levou-lhes o pai a força para algum lugar remoto não havendo ainda retornado para casa. Essas são duas realidades do filme e livro que a crítica sociológica conseguiu alcançar e demonstrar uma vez que a película e a realidade quase se confundem.

Acontece que o Capitão Nascimento, em Tropa de Elite, é sujeito real, tendo em sua acepção um personagem da vida real que trouxe suas experiências para a produção da obra. Muitas das violências ocorridas de fato ocorreram, bem como é legitima, tanto na primeira quanto na segunda obra, toda a causa de revolta dos expectadores quanto ás praticas corruptivas e anormais da racionalidade do serviço público, demonstrada na produção pela presença de policiais e políticos corruptos.

Por outro lado, nada choca e nenhuma revolta ocorre quando o capitão coloca algum morador de favela dentro do saco por minutos agoniantes e logo após manda “botar na conta do Papa” a vida do “meliante”. A incursão na favela com a retomada do local em um confronto com moradores e traficantes é demonstrada com extrema primazia e enorme eloquência do narrador do filme.

Ao disparar contra o inocente morador do morro é a proteção de uma fatia maior da sociedade que está sendo representada, ou seja, a manutenção de uma lei e ordem que tenta seguir, aos passos da guerra, inúmeros infrutíferos acontecimentos históricos que demonstram estatisticamente que a imposição ocorre por via da violência nunca termina muito bem.

É por certo que existem bons policiais e maus policiais, bem como existem bons advogados e maus advogados, bons promotores e maus promotores, e por aí vai. Todavia, o universo criado pelos escritores do livro segue a um caminho que é desvendado lentamente, mas que existe há tempos. A corrupção das policias e a aproximação da vingança/trabalho é muito consistente na primeira obra: entende-se que o corporativismo no interior das classes policiais é um outro tipo de classe, centralizada em suas normas morais e cogentes aos diferentes, não policiais. Dessa forma, a vingança é uma máxima universal que leva ao julgamento antecipado da lide contra qualquer um, por via do extermínio. A partir desse ponto, configurar um grupo de extermínio é questão de apenas alguns ajustes.

Por outro lado, a prática da violência é percebida pelos agentes do destacamento de elite da polícia como questão de sobrevivência em meio à guerra, treinada como se batalhas fossem, ampliando as prerrogativas de um militar dentro de um campo de guerra, onde deve matar ou morrer. Assim são treinados e dessa forma a concepção de guerra se amolda às visitas realizadas nas favelas ou conjunto (bairros) de risco. Nota-se que os fins sempre irão justificar os meios numa incursão prática a uma localidade onde há o risco, da mesma forma que os meios são sempre justificados pelos fins quando a vingança cooperativista ocorre.

A questão da moralidade e ética é retratada na obra com certa parcimônia e um tocante sarcasmo. Existe o senso bem e mal no personagem principal, que glorifica sua análise ao inquirir o certo e errado e definir numa fase de sua vida o exterminador e noutra, o arrependido. Por certo, os filmes e os livros são obras de redenção de um personagem real, que intuitivamente entendeu que fazia o errado comandado por tortuosos entendimentos e ineficazes considerações daqueles que realmente mantêm o poder em suas mãos e que desejam, de um jeito ou de outro, preserva-lo, nem que para isso seja preciso criar inúmeros outros capitães Nascimentos mundo afora.

É visível a personificação heroica que o personagem tomou na realidade nacional após o filme Tropa de Elite, e, como era visto com o manto de salvador. Não obstante, é possível enxergar facilmente, tanto no livro quanto nos cinemas, que a violência que parte dos treinamentos oficiais demonstrados, atinge logo após outras pessoas, e que muitas delas podem ser vistas como simples moradores usados por traficantes como escudos ou similares.

O herói aqui nada mais é do que aquele que extermina e tortura com crueldade qualquer um que passe incrédulo por seu olhar. O herói nacional mata, extermina, tortura, sente a pressão e entende ao fim que sua obra somente ajudou a construir um império de violência. Tropa de Elite mostra como é necessário a ruptura entre polícia e eleições (políticas), que andam sempre uníssonos. Mostra que caminhamos por vias obscuras quando trucidar outro por bases legais e “morais” defendendo a lei e ordem é ato de heroísmo.

Por fim, em sua redenção entendendo seus atos contra pessoas inocentes ou não, ao contrariar a lei, e, sua convicção de estar mesmo em uma guerra, na verdade, uma luta pelo poder para aqueles poucos que usufruem de tal poder, nos mostrou sinceramente que “também morre quem atira. ”


REFERÊNCIAS

SOARES, Luiz E., FERRAZ, Claudio, BATISTA, A., PIMENTEL, R.. Elite da Tropa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

SOARES, Luiz E., FERRAZ, Claudio, BATISTA, A., PIMENTEL, R., Elite da Tropa II. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.


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Autor

Mestre em Direito. Professor. Advogado.
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