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Um Conto de Natal (Parte 2)

Essa é a segunda parte de cinco textos sobre Um Conto de Natal, do escritor inglês Charles Dickens. Caso não tenha lido a primeira delas, recomendo que, antes de prosseguir, clique AQUI.


Na primeira parte de nossa jornada literária, conhecemos um pouco sobre o nosso protagonista, Ebenezer Scrooge, um velho avarento, frio e ganancioso, que, definitivamente, não simpatizava com a época natalina.

Momentos antes de dormir, Scrooge foi visitado pelo fantasma de seu falecido sócio, Jacob Marley. O espectro disse-lhe que as pessoas não generosas em vida eram fadadas a vagar, em forma de espírito, por toda a eternidade.

Embora pensasse que seu destino trágico estivesse traçado, Scrooge recebeu uma oportunidade derradeira. Para evitar o desfecho antecipado pelo fantasma, deveria receber, nas horas seguintes, a visita de três Espíritos.

A segunda parte do conto, intitulada O Primeiro dos Três Espíritos, trata da primeira visita.


Scrooge dormiu por horas e horas. Ao perceber que havia ficado na cama por tanto tempo, levantou-se e caminhou até a janela. Tudo o que conseguiu perceber foi que ainda estava muito nublado e extremamente frio.

Voltou para a cama e pensou, pensou, pensou, tentando encontrar uma resposta. Quanto mais pensava, mais perplexo ficava. Lembrou do Fantasma de Marley da noite anterior. Teria sido um sonho?

E assim permaneceu por alguns minutos, quando se recordou de que o Fantasma o avisara de uma visita no momento em que sino batesse uma hora. Permaneceu acordado, esperando, até o horário alertado.

Com a balada da uma hora, imediatamente fez-se luz no quarto e as cortinas de sua cama se abriram. Scrooge se deparou um sobrenatural visitante. Era uma figura estranha. Parecia ser uma criança e, ao mesmo tempo, um ancião. Os cabelos eram brancos, e desciam ao redor do pescoço até as costas, mas o rosto não tinha qualquer ruga.

– És o Espírito que me foi anunciado, senhor?
– Sou!
– Quem e o que és?
– Sou o Fantasma do Natal Passado.

Por alguns segundos, Scrooge hesitou, sem saber o que falar. Ganhou então coragem para indagar o que o trazia ali.

– A tua felicidade! – disse o Fantasma.

Scrooge se mostrou agradecido, mas não conseguiu deixar de pensar que uma noite de sono teria sido mais útil a esse objetivo. O Espírito, no entanto, pareceu ter lido os seus pensamentos:

– A tua regeneração, então. Presta atenção!

O Fantasma esticou a mão e o agarrou delicadamente pelo braço. Ao ver que o Espírito se dirigia para a janela, Scrooge tentou dissuadi-lo dizendo que, por ser mortal, poderia cair no trajeto.

– Deixa que a minha mão te toque  – disse o Espírito, colocando-a sobre o coração de Scrooge –, e terás apoio em situações de maior monta do que esta!

Com isso, atravessaram a parede e se viram numa estrada rural, com campos ao redor. Scrooge estava agora no lugar em que fora criado, quando menino. Percebeu mil odores flutuando no ar, cada qual lhe trazendo pensamentos e preocupações que há muito tempo tinham sido esquecidas. Pediu, então, que o Fantasma o levasse aonde desejava.

– Lembras-te o caminho?
– Se me lembro? Eu chegaria lá de olhos fechados.
– Que estranho que te tenhas esquecido disso por tantos anos. Vamos lá.

Acompanhado do Fantasma, Scrooge caminhou pela estrada, reconhecendo cada poste, cada árvore, cada ponte e cada rio. Viu meninos brincando, felizes e animados, saindo da escola. Ouviu, ao fundo, uma música alegre no ar. Estava prestes a conversar com eles, quando foi interpelado pelo Fantasma:

– Essas são meras sombras do que passou. Eles não têm consciência da nossa presença.

Mas Scrooge reconheceu cada um dos viajantes. Como estava feliz de revê-los! Os meninos desejavam Feliz Natal uns aos outros e caminhavam contentes para suas casas. Foi quando o fantasma disse:

– A escola ainda não está completamente vazia. Uma criança solitária, deixada de lado pelos amigos, ainda está lá.

Scrooge soluçou. Sabia de quem o espectro estava falando. Caminhou pela estrada até chegar na escola. Andou pelo corredor até uma sala comprida, vazia e melancólica. Nela, encontrou um menino sozinho, lendo junto a um foguinho discreto. Scrooge se sentou num dos bancos e chorou ao ver a esquecida pessoa que costumava ser.

Ao pensar na cena, lembrou do menino esquecido da noite anterior, que gentilmente lhe ofereceu uma Cantiga de Natal, e que, ao invés de ajudá-lo, o expulsou asperamente:

– Eu deveria ter-lhe dado alguma coisa: só isso.

O Fantasma sacudiu as mãos e transportou Scrooge para outro Natal. O antigo Scrooge já não era mais um menino. Estava crescido. O Fantasma parou à porta de uma loja e perguntou se a conhecia:

– Se eu conheço? Não fui aprendiz aqui?

Ao entrar na loja, viu um cavalheiro de peruca galesa. Era o velho Fezziwig, com quem muito aprendera. O homem então chamou dois jovens que estavam na rua:

– Ei, vocês! Ebenezer! Dick!

O antigo eu de Scrooge entrou rapidamente, acompanhado por seu colega aprendiz.

– Ei, garotos! Acabou o trabalho por hoje. É Natal, Dick. Natal, Ebenezer! Vamos arrumar tudo e abrir um bom espaço aqui! Olé, Dick! Vamos lá, Ebenezer!

Os dois rapazes arrumaram tudo rapidamente. O assoalho foi varrido e lavado; as lenhas foram jogadas na lareira; as lamparinas foram ajustadas; a loja logo se tornou um confortável, quente e brilhante salão de baile.

Logo chegaram as três Senhoritas Fezziwig; a faxineira, com seu primo, o padeiro; a cozinheira, com o grande amigo de seu irmão, o leiteiro; rapazes e moças que trabalhavam na firma; violinistas com partituras em punho.

Aos poucos, a festa já estava animada para comemorar o Natal. Em pares, todos formaram um círculo e, de mãos dadas, giraram de um lado para o outro. Estavam felizes, pulando e cantando. O baile durou até tarde.

Com o término, o Sr. e Sra. Fezziwig despediram-se de cada um dos convidados, individualmente. Desejaram a todos um Feliz Natal.  Quando todos haviam se tirado, fizeram o mesmo com os dois aprendizes, mas com um carinho especial. Os rapazes foram se deitar em suas camas, que ficavam embaixo de um balcão, nos fundos da loja.

Ao ver aquilo, Scrooge lembrou daquela noite tão maravilhosa e do carinho especial que recebera.

– Não é preciso muita coisa – disse o Fantasma – para encher esses tolos de gratidão.

Scrooge sentiu o olhar do Espírito e se calou.

– Qual o problema? – perguntou o Fantasma.
– Nada de mais.
– Mas é alguma coisa, não é?
– Não. Gostaria de poder dizer agora uma ou duas palavras ao meu auxiliar de escritório. Só isso.

Ao pensar no auxiliar, Scrooge viu seu antigo eu desaparecer. Estava agora com o Fantasma, lado a lado, ao ar livre.

– Meu tempo está acabando – observou o Espírito – Rápido!

Uma nova cena apareceu. Mais uma vez, Scrooge viu a si mesmo. Estava mais velho. Um homem no auge da vida. Não estava sozinho, mas sentado ao lado de uma moça. Nos olhos dela corriam lágrimas, que brilhavam sob a luz emitida pelo Fantasma.

Seu eu do passado travava um diálogo com a moça. Falavam sobre escolhas e renúncias; sobre a opção de lucrar a todo custo; sobre o desejo ter obter dinheiro acima de tudo, até mesmo do próprio relacionamento. O Scrooge do passado insistia que não havia mudado nada. Mas a moça sabia que, quando eram pobres, eram mais felizes.

A ganância havia modificado o velho profundamente. Ele percebeu, naquele diálogo, que havia perdido o amor de sua vida por causa da paixão desenfreada pelo dinheiro. A moça se foi, e eles se separaram. Scrooge se pôs a chorar:

– Espírito! Não me mostres mais nada! Leva-me para casa. Por que gostas de me torturar?
– Mais uma sombra! 
– Mais nada! Mais nada. Não quero vê-la. Não me mostres mais nada!

Mas o Fantasma do Natal Passado insistiu em uma última sombra. Estavam agora em outro cenário e lugar. Não muito amplo, mas muito confortável. Em torno de uma lareira acesa estava uma moça muito semelhante com a última que Scrooge havia visto. Na frente, a filha, uma criança linda e cheia de energia.

Mãe e filha brincavam muito, sem parar de rir. Scrooge percebeu que daria tudo para estar ali e aproveitar aquele momento. Seu desejo foi interrompido quando ouviu baterem à porta.

De imediato, a criança correu para atender e receber um homem, carregado de brinquedos e presentes de Natal. A filha, em êxtase, abraçou o pai, que retribuiu o carinho com um sorriso.

Com a filha no colo, o pai se sentou próximo da mãe, ao lado da lareira. Ao ouvir as palavras dele, o velho Scrooge não se conteve, enchendo-se de lágrimas:

– Belle, encontrei um velho amigo seu esta tarde.
– Quem?
– Adivinhe!
– Como posso saber? Ah, já sei. O Sr. Scrooge.
– Em pessoa. Passei em frente à janela do escritório dele, que não estava fechada, e havia uma vela dentro, não pude deixar de vê-lo. Seu sócio está nas últimas, segundo soube; e lá estava ele, sozinho. Completamente sozinho no mundo, acho.

O velho Scrooge, aos prantos, com voz trêmula, suplicou que o Espírito o tirasse daquele local. Mas o Fantasma o alertou:

– Eu te disse que estas eram sombras das coisas que já foram. Se foram como foram, a culpa não é minha.
– Tira-me daqui! Não aguento mais! Deixa-me! Leva-me de volta! Não me assombres mais!

Virou-se para o Fantasma e percebeu que o espectro reluzia fragmentos de todos os rostos apresentados naquele dia. Hipnotizado, Scrooge foi tomado por uma irreversível vontade do dormir. Quando percebeu que estava em seu quarto, mal teve tempo de cambalear até a cama. Já havia caído em um sono profundo.


A Parte 3 continua amanhã…

Autor

Advogado (RS)
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