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Um Conto de Natal (Parte 3)

Essa é a terceira parte de cinco textos sobre Um Conto de Natal, de Charles Dickens. Escrevi esta breve resenha por ter a convicção de que o conto, embora escrito no século XIX, nos transmite uma mensagem atemporal de humanidade, empatia e amor com o próximo, valores que estão em falta na atualidade.

Ainda que uma resenha literária destoe um pouco da proposta do Canal Ciências Criminais, minha expectativa é de que, ao final da quinta parte, o leitor possa refletir sobre as lições que esta incrível estória nos oferece e, com ela, consiga lançar novos olhares aos velhos problemas enfrentados diariamente.

As partes anteriores da resenha estão publicadas, respectivamente, AQUI e AQUI.


Síntese de Parte 2: Scrooge recebeu a visita do primeiro dos Espíritos, o Fantasma do Natal Passado. O espectro o conduziu para Natais antigos, em que o velho passou durante sua infância, adolescência e vida adulta; apresentou-lhe pessoas, locais e aromas que, com o tempo, acabou esquecendo e não dando mais valor.

Após horas revivendo todas aquelas lembranças, todas aqueles memórias, Scrooge se viu hipnotizado pelo Espectro, que reluziu fragmentos dos rostos de seus entes queridos. Tomado pelo cansaço, adormeceu.

A terceira parte do conto que ora resenho é intitulada O Segundo dos Três Espíritos.


Após acordar de um sono profundo, Scrooge sentou-se na cama e pôs em ordem os pensamentos. Olhou o relógio e verificou que estava quase na hora de conhecer o segundo mensageiro a ele enviado por intervenção de seu falecido sócio, Jacob Marley.

Com o badalar da uma hora, porém, nada aconteceu. Passaram-se dez, quinze minutos, e nada. Viu, então, uma luz que brilhava no cômodo ao lado. Levantou-se devagar e caminhou em direção à porta. No momento em que sua mão tocou a maçaneta, uma voz o chamou pelo nome, pedindo que entrasse. Scrooge obedeceu.

Ao adentrar, deparou-se com sua tradicional sala, mas com ornamentos surpreendentes. O teto e as paredes estavam repletos de folhagens verdes. Sobre o assoalho havia animais de caça, tortas de carne, pudins, bolos imensos, maçãs vermelhas e laranjas suculentas.

Mas o que surpreendeu Scrooge foi a aparição no centro da sala. Era nada menos do que um Gigante, sentado em um grande divã, com uma tocha em sua mão direita.

– Entra! Entra! Vem conhecer-me melhor, rapaz!

Scrooge olhou com reverência e se aproximou do Gigante.

– Sou o Fantasma do Natal Presente! Olha para mim!

Assumindo uma postura submissa, Scrooge logo disse:

– Espírito, leva-me onde quiseres. Na noite passada, fui forçado a ir e aprendi uma lição que hoje está surtindo efeito. Esta noite, se tiveres algo que me ensinar, só peço poder tirar bom proveito.
– Segura a minha túnica!

Scrooge agarrou firme na túnica do Gigante e, num piscar de olhos, a sala sumiu. Logo se viu nas ruas da cidade, numa manhã de Natal. Pessoas varriam os telhados entusiasmadas. Famílias retiravam a neve das calçadas em frente de suas casas. Jovens ornamentavam as residências com bolas natalinas.

Reinava por toda parte uma atmosfera de alegria. Nas mercearias, ouvia-se o som alegre das balanças no balcão. Clientes, apressados e ávidos, chocavam-se uns com os outros com os cestos de provisões em punhos, mas com o melhor humor possível.

Em meio àquele clima festivo, onde todos estavam felizes, o Fantasma levou Scrooge à morada de seu auxiliar de escritório, Bob Cratchit. O mesmo que Scrooge, horas antes, deixara quase congelado no escritório de contabilidade com um mísero carvão.

A esposa de Bob, Sra. Cratchit, pobremente vestida, colocava a mesa com a ajuda de uma de suas filhas, Belinda, enquanto Peter, um dos filhos, mergulhava o garfo numa marmita até a boca. Em seguida, os outros Cratchits, um menino e uma menina, entraram correndo na sala contentes com o cheiro da comida que estava sendo preparada.

Sra. Cratchit virou-se para os quatro filhos e disse:

– O que, então, estará retendo seu maravilhoso pai e teu irmão, Tiny Tim, e Martha? No Natal passado, ela já tinha chegado havia meia hora!

Martha era a irmã mais velha que havia agora chegado. Justificou o atraso pelo excesso de trabalho. Mas lá estava, para comemorar o Natal com a família.

– Aí vem o papai – exclamaram os dois Cratchits caçulas, que estavam em toda parte ao mesmo tempo. – Esconda-se, Martha, esconda-se!

A irmã se escondeu com os pequenos. Em seguida, entrou em casa o pai, Bob, carregando o mais novo nos ombros. Tiny Tim segurava uma muleta e tinha uma armação de ferro ao redor das pernas.

– Ué, onde está a Martha? – exclamou Bob Cratchit, olhando ao redor.
– Não veio – disse a Sra. Cratchit.
– Não veio! – disse Bob, com súbito desânimo – Não vir no dia de Natal!

Ao vê-lo decepcionado, mesmo que só fosse brincadeira, Martha saiu imediatamente de onde estava escondida e correu para abraçá-lo, para alegria do pai. Depois de Bob abraçar carinhosamente a filha, Sra. Cratchit perguntou como havia sido o passeio do pai, na Igreja, com o filho menor:

– E como se comportou o Pequeno Tim?
– Um menino de ouro, ou mais precioso ainda! Por ficar tanto tempo sozinho, ele tem as mais estranhas ideias que se possam imaginar. De volta para casa, ele me disse que espera que as pessoas o tivessem visto na igreja, por ser paralítico: para elas, poderia ser bom lembrarem-se, no dia de Natal, daquele que fez os pobres aleijados caminharem e os cegos verem.

Bob disse aquelas palavras com a voz trêmula, principalmente ao dizer que Tiny Tim estava ficando mais forte e vigoroso. Ao lado do Fantasma, Scrooge ouviu tudo sem falar nada. Percebeu que o pai parecia não acreditar na melhora do filho.

Alguns minutos depois, a mesa foi posta, os pratos servidos, e a família, reunida, deu graças a Deus pela refeição. Após um breve silêncio, todos olharam deslumbrados para o prato principal. Tiny Tim bateu na mesa com sua vozinha e gritou “Viva!”.

Nunca houve um ganso como aquele, tão macio, tão cheiroso, tão grande e tão barato. Nem chegaram a comer todo e, no entanto, estavam todos satisfeitos e agradecidos por aquela refeição.

A sobremesa foi um pudim pequeno, mas igualmente nunca se pensou que seria suficiente para uma família tão grande. Com o término do jantar, toda a família se reuniu ao redor da lareira para tomar uma bebida quente. Havia sido, sem dúvida, o melhor Natal de todos os o tempos. Bob olhou a todos e propôs:

– Um feliz Natal para todos nós, meus queridos. Deus nos abençoe!

As palavras foram repetidas por toda família e, em seguida, pelo jovem Tiny Tim. Ele estava sentando em seu banquinho, bem pertinho do pai. Bob segurava a mão do pequeno, como se quisesse mantê-la junto de si, temendo que alguém pudesse a tomar. Scrooge olhou a cena e, trêmulo, perguntou:

– Espírito, conta-me se Tiny Tim vai sobreviver.
– Vejo uma cadeira vazia – respondeu o Fantasma – no canto da pobre lareira, e uma muleta sem dono, que é guardada com muito carinho. Se essas sombras permanecerem inalteradas no Futuro, a criança vai morrer.
– Não, não. Ah, não, meu bom Espírito! Diz-me que ele será poupado.
Se essas sombras permanecerem inalteras no Futuro, mais ninguém de minha raça vai encontrá-lo aqui.

Scrooge baixou a cabeça e foi tomado pela dor e pelos remorsos. Quando menos percebeu, Bob disse à família:

– Ao Sr. Scrooge! Um brinde ao Sr. Scrooge, o Patrono da Festa!

Mas a Sra. Cratchit enrubesceu ao ouvir o brinde. Não acreditava que Bob realmente estava agradecendo o patrão. Ao ver a reação da esposa, Bob falou:

– Querida, as crianças estão aqui, hoje é Natal.
– Só mesmo no Natal, é claro – disse ela –, se pode beber pela saúde de alguém tão detestável, tão mesquinho, tão duro e tão insensível como o Sr. Scrooge. Você sabe que é verdade, Robert! Ninguém sabe disso mais do que você, pobre querido!
– Minha querida – respondeu Bob mansamente –, hoje é Natal!
– Vou beber à saúde dele, por sua causa e por ser Natal – disse a Sra. Cratchit.

Os filhos fizeram o brinde depois da mãe. Foi a primeira vez naquela noite que fizeram algo sem emoção. A menção de nome de Scrooge trouxe uma escura sombra sobre a festa, que demorou minutos até se dissipar completamente.

Na medida em que o Fantasma ia se afastando, os olhos de Scrooge permaneciam tristes por ouvir tudo aquilo, em especial com o triste desfecho que parecia estar reservado ao pequeno Tiny Tim.

Estavam agora em outro local. Scrooge pareceu não reconhecer aquele lugar. Mas logo foi surpreendido com uma alegre gargalhada. Era o seu sobrinho, o mesmo que, horas antes, havia o convidado para comemorar a ceia de Natal. Junto com ele, estava a sobrinha de Scrooge e vários amigos. Todos riam com muita intensidade.

O velho Scrooge se pôs a escutar a conversa para saber do que falavam.

– Ele disse que o Natal era uma bobagem, meu Deus! – exclamava o sobrinho. – E até acreditava nisso! É um sujeito cômico, esta é que é a verdade: nem tão simpático como poderia ser. Mas seus defeitos trazem consigo seu próprio castigo, e nada tenho contra ele.
– Tenho certeza de que ele é muito rico, Fred. – sugeriu a sobrinha. – Pelo menos, é o que você sempre me disse.
– E daí, querida? – disse o sobrinho. – A riqueza é inútil para ele. Não faz nenhum bem com ela. 

Scrooge ouvia tudo. E como lhe doeu presenciar aquela conversa.

– Eu acho que perde um ótimo jantar – disse a sobrinha.

Todos concordaram com a colocação. Então, o sobrinho concluiu:

– Eu ia dizer que a consequência de não simpatizar conosco e não vir divertir-se aqui é, a meu ver, que ele perde alguns bons momentos, que não poderiam fazer-lhe nenhum mal.

Com isso, pegaram os instrumentos musicais e tocaram lindas músicas de Natal. Após, iniciaram uma série de brincadeiras, como cabra-cega e jogos de prendas.

Todos participaram das brincadeiras, até mesmo Scrooge, que se esqueceu completamente de que não podia interagir com as sombras, e que sua voz não produzia qualquer som no ouvido dos presentes. Ainda assim, o Fantasma estava feliz em vê-lo animado.

Como um menininho, Scrooge pediu para ficar com os convidados até partirem, mas o Espírito respondeu que não era possível. Com muita insistência do velho, o fantasma permitiu mais alguns minutos.

A nova brincadeira era de adivinhação. Coube ao sobrinho de Scrooge responder às perguntas dos demais, que tentavam adivinhar quem o rapaz estava imitando. O sobrinho parecia estar reproduzindo um comportamento de um animal vivo, que ora rosnava, ora grunhia.

A cada nova pergunta, o sobrinho caía em gargalhadas. Foi quando um dos presentes exclamou:

– Descobri! Já sei o que é, Fred! Já sei o que é!
– E o que é?
– É o seu tio Scro-o-o-o-oge!

E, para a surpresa de todos, era mesmo.

– Ele fez com que nos divertíssemos para valer – disse Fred –, e seria ingratidão de nossa parte não brindar à saúde ele. Aqui tenho um copo de ponche na mão, e digo "Ao tio Scrooge".
– Muito bem! Ao tio Scrooge! – exclamaram todos.

Scooge ficou tão feliz com o gesto que teria brindado de volta e dirigido a todos eles um discurso sincero, se o Fantasma tivesse lhe dado tempo necessário. Mas o cenário desapareceu, e ambos retomaram as viagens.

Foram mais algumas naquele dia. Estranhamente, Scrooge percebeu que, enquanto permanecia inalterado em sua forma exterior, a cada jornada o Fantasma envelhecia um pouco mais. Em dado momento, notou que o Espírito já estava com o cabelo grisalho:

– É assim tão breve a vida dos Espíritos? – perguntou Scrooge.
– A minha vida neste globo é brevíssima – respondeu o fantasma. – Acaba esta noite.

Neste instante, Scrooge notou algo estranho na túnica do Fantasma do Natal Presente. Dela saíram um menino e uma menina. Scrooge deu um salto para trás, aterrorizado. Jamais havia visto crianças tão assustadoras, medonhas, raquíticas, enrugadas e miseráveis. Elas se ajoelharam a seus pés e se agarraram às dobras de sua roupa.

– Espírito, elas são suas? – nada mais Scrooge conseguiu dizer.
– São do Homem – disse o Espírito, abaixando os olhos para elas. – E elas se agarram a mim, para se queixar dos pais. Esse menino é a Ignorância. A menina é a Carência. Cuidado com os dois, e com toda a espécie deles, mas, antes de tudo, cuidado com o menino, pois vejo que em sua testa está escrito Juízo Final, a menos que as palavras sejam apagadas. Nega-o!

Scrooge ouviu as baladas do sino. Olhou ao redor, à procura do Fantasma, mas não mais o viu. Havia desaparecido. Foi quando avistou uma sombra de túnica negra, como uma nuvem de neblina, vindo em sua direção.


A Parte 4 continua amanhã…

Autor

Advogado (RS)
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