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Um Conto de Natal (Parte 4)

Esse é o quarta parte de cinco textos sobre Um Conto de Natal, de Charles Dickens. Recomendo que, antes de prosseguir, não deixe de ler a Parte 1Parte 2 Parte 3.


Síntese de Parte 3: Scrooge foi visitado pelo segundo dos Espíritos, o Fantasma do Natal Presente. O espectro lhe levou até a residência do auxiliar de escritório.

Mesmo com todas as dificuldades financeiras e um filho paralítico bastante debilitado, o auxiliar Bob Cratchit e sua família comemoraram um dos melhores natais de todos os tempos.

Scrooge também foi conduzido até a casa do sobrinho Fred, que se divertiu alegremente na noite de Natal com seus amigos. Mesmo sem estar realmente lá – fisicamente –, Scrooge participou dos jogos e brincadeiras.

Ao final, Scrooge percebeu que o Fantasma envelhecia a cada nova viagem. Quando menos esperava, o espectro sumiu. Havia desaparecido. Avistou, então, uma sombra negra vindo em sua direção.

A quarta parte do conto, a mais lúgubre delas, é intitulada O Último dos Espíritos.


O vulto aproximou-se de Scrooge lentamente e calado. Era alto, imponente e apavorante. O traje negro cobria-lhe a cabeça, o rosto e todas as formas. Nada era visível, salvo a mão estendida.

– Estou na presença do Fantasma do Natal Futuro?

O Espírito, porém, não respondeu, apontando para frente com a mão.

– Vai mostrar-me as sombras das coisas que ainda não aconteceram, mas acontecerão nos tempos futuros? É isso, Espírito?

A parte superior da veste se contraiu por um instante, como se o Espírito inclinasse a cabeça. Foi essa a única resposta que Scrooge recebeu.

Embora Scrooge estivesse se acostumando com a companhia dos espectros, não conseguiu ficar nem um pouco à vontade na presença do Fantasma, que não havia proferido qualquer palavra até então. A sensação era de horror.

– Guia-me! Guia-me! A noite declina rapidamente, e sei que este é um tempo precioso para mim. Guia-me, Espírito!

Scrooge seguiu-o até um grupo de homem de negócios. O Fantasma então apontou para eles, e Scrooge parou para escutar qual era a pauta da conversa.

– Não – disse um homem alto e obeso – seja como for não sei muito sobre isso. Só sei que ele morreu.
– Quando foi? – perguntou outro.
– Na noite passada, acho.
– Como, qual era o problema com ele? – perguntou um terceiro. – Eu achava que ele não morreria nunca.
– Deus é que sabe – disse o primeiro, num bocejo.
– O que ele fez com o dinheiro? – perguntou um cavalheiro de rosto corado.
– Nada ouvi sobre isso – disse o homem, bocejando outra vez. – Talvez o tenha deixado para a empresa. Não o deixou para mim. É tudo o que sei. Provavelmente será um funeral bem barato, pois juro que não conheço ninguém que vá estar presente. O que acham de irmos todos, mesmo sem convite?
– Não me importo de ir, se oferecerem uma refeição – observou o cavalheiro – Mas tem de haver algo para comer, se eu for.

Os homens caíram em gargalhadas. Como Scrooge os conhecia, virou-se para o Espírito buscando alguma explicação. O Fantasma, porém, nada respondeu e apontou para duas pessoas que estavam um pouco mais distante. Scrooge também os conhecia e se pôs a escutá-los, julgando que a explicação pudesse estar naquela conversa.

– Como vai? – disse um deles.
– Como vai? – respondeu o outro.
– Bem! – disse o primeiro – Parece que chegou finalmente a hora do Velho Diabo, não é?
– É o que me disseram. Está frio, não?
– O normal em tempos de Natal. Você não patina, não é?
– Não, não, tenho mais em que pensar. Tenha um bom dia!

Nada mais foi dito. Scrooge não conseguiu compreender porque o Espectro dava tanta importância para conversas triviais. Mas como imaginava que pudesse ter algum sentido oculto, pôs-se a pensar sobre qual seria.

Por um momento, chegou a cogitar que a pessoa de que falavam era seu velho sócio Marley. Porém, como a província do Fantasma era o Futuro, guardou cada palavra que ouviu, na expectativa de descobrir a solução daquele enigma.

Deixaram o local e se deslocaram a uma parte obscura da cidade, onde as ruas eram sujas e a miséria reinava por todos lados. Embora reconhecesse a região, Scrooge jamais havia pisado nela em sua vida.

Naquele fim de mundo encontraram uma loja onde se vendiam ferragens, farrapos velhos, ossos e restos de comida. Sentado em meio às mercadorias estava um homem de cabelos grisalhos fumando, sozinho, um cachimbo.

Enquanto Scrooge e o Fantasma observavam o homem, uma mulher entrou na loja com um pesado pacote, jogando-o no chão. Pediu então que o homem de cabelos grisalhos, chamado Joe, abrisse o pacote e dissesse quanto valia.

Joe se ajoelhou para melhor executar a operação e, ao abrir o pacote, tirou de dentro um grande e pesado rolo de uma alguma coisa escura. Eram cortinados de cama.

– Você não vai me dizer que os arrancou, com os anéis e tudo, com ele deitado lá, vai? – disse o Joe.
– Foi isso mesmo – respondeu a mulher. – E por que não?
– Você nasceu para ganhar muito dinheiro – disse o Joe. – E com certeza vai conseguir.
– Ah, ah! – riu a mesma mulher – Este é o fim, meus amigos! Ele espantou todos para longe enquanto estava vivo, para nos favorecer depois de morto! Ah, ah, ah!

Scrooge ouviu horrorizado aquele diálogo, sentindo repulsa daquele mulher por negociar pertences de um defunto com tanta naturalidade.

– Espírito! – disse Scrooge, tremendo da cabeça aos pés. Entendi, entendi. A sorte desse homem desgraçado poderia ser minha. É a isso que leva uma vida como a minha. Deus de misericórdia, o que é isso?

O Espírito, mais uma vez, nada respondeu.

O cenário agora havia mudado. Scrooge recuou de terror. Estava agora junto a cama, num quarto muito escuro. Sobre a cama, jazia aquele homem abandonado cujos pertences foram levados pela mulher, junto a quem ninguém chorava e com quem ninguém se preocupava.

O Fantasma apontou para o rosto do homem deitado, sugerindo que Scrooge removesse o lençol sobre seu rosto, de forma a identificá-lo. Scrooge quis fazê-lo, mas se sentiu sem forças para levantar o pano.

– Espírito! – disse ele. – Este é um lugar medonho. Ao deixá-lo, não vou esquecer-me de sua lição, garanto. Vamos embora!

O Fantasma continuava com o dedo apontado para a cabeça do homem. Scrooge novamente não conseguiu remover o pano e, agoniado, implorou ao espectro para que saíssem dali.

O Espírito o guiou para várias ruas, até chegar na casa do pobre Bob Cratchit, a mesma que visitara antes. A mãe estava com as crianças sentadas em torno do fogo, lendo uma história de dormir.

Logo, o pai entrou na casa, sendo recebido pelos filhos. Cada um colocou o rostinho contra a face do pai. Bob mostrou-se muito alegre com eles e, em seguida, fez um carinho na mãe, que perguntou:

– Domingo! Você foi lá hoje, então, Robert?
– Fui, sim, querida. Gostaria que você tivesse podido ir. Ia gostar de ver como é verde o lugar. Mas você vai poder vê-lo muitas vezes. Prometi a ele que iria passar por lá um domingo. Meu menininho! Meu menininho!

Bob desabou de uma vez. Não conseguiu resistir ao recordar do filho pequeno. Mas, ao pensar que o outro filho, Peter, estava na iminência de sair de casa, para casar e construir sua família, comentou com mais entusiasmo:

– Seja como e quando for que nos separemos uns dos outros, tenho certeza de que nenhum de nós vai esquecer-se do pobre Tiny Tim, não é?
– Nunca, papai! – exclamaram todos.
– Eu eu sei – disse Bob –, eu sei, meus queridos, que quando nos lembrarmos de como ele era doce e paciente, embora fosse pequenininho, pequeninho, não vai ser fácil brigarmos uns com os outros, esquecendo-nos do pobre Tiny Tim ao fazer isso.
– Não, nunca, papai! – exclamaram todos eles.
– Fico muito contente – disse Bob –, fico muito contente!

A família se abraçou e chorou. Scrooge, emocionado ao ver aquilo, comentou:

– Espectro, algo me diz que a nossa despedida está próxima. Sei disso, mas não sei como. Dize-me de quem era aquele cadáver que vimos?

O Fantasma do Natal Futuro transportou-o na direção desejava, passando rapidamente por diversos lugares. Parecia não haver mais ordem nas visões, mas Scrooge olhava atentamente a tudo. Durante o trajeto, reconheceu um lugar familiar e implorou que o Espírito parasse por um instante.

– Aquele pátio, pelo qual passamos apressados, é onde fica o meu local de trabalho. Posso ver a casa. Permita-me ver o que serei no futuro.

O Espírito pareceu ignorar o pedido e apontou para outra direção. Sem entender o motivo, Scrooge prosseguiu com sua curiosidade e correu até a janela do escritório. Ao olhar para dentro, percebeu que ainda era um escritório e a mobília ainda era a mesma. Mas a pessoa que ocupava a cadeira não era ele.

Ao olhar novamente para o Fantasma, notou que o dedo espectral se mantinha imóvel. Scrooge caminhou para onde a direção apontava e se deparou com um portão de ferro. Antes de entrar, examinou atentamente o ambiente. Era um cemitério.

O Espírito andou por meio aos túmulos e apontou para um deles. Scrooge se aproximou até lá, trêmulo. Olhou novamente ao espírito, que permaneceu imóvel apontando para o túmulo junto ao qual estava. Foi quando, ao olhar para o túmulo, leu sobre a pedra da sepultura abandona o seu próprio nome: EBENEZER SCROOGE.

– Sou eu aquele homem que jaz sobre a cama? – gritou, caindo de joelhos –. Não, Espírito! Ah, não! Não!

O dedo continuava imóvel. Scrooge, de joelhos, agarrando firmemente a túnica do Fantasma, se pôs a implorar:

– Espírito, escuta-me! Já não sou mais o mesmo que fui. Não serei o homem que eu seria, se não fosse por este encontro. Por que me mostras estas coisas, se já não há nenhuma esperança?

A mão pareceu hesitar pela primeira vez. Scrooge sentiu que havia uma chance.

– Bom Espírito, tua natureza intercede por mim e tem piedade de mim. Diz-me que ainda posso mudar essas sombras que me mostraste, se levar uma vida nova!

Pela segunda vez, a mão estremeceu. Agoniado, Scrooge segurou forte a mão do Espírito, sendo repelido por este. Em um último gesto de súplica para reverter o próprio destino, percebeu que a túnica do Fantasma havia encolhido. A túnica e o capucho tinham se transformado numa coluna de cama.

Scrooge estava em casa.


A última parte do conto continua amanhã…

Autor

Advogado (RS)
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