• 13 de dezembro de 2019

Um Conto de Natal (Parte 5 – Final)

 Um Conto de Natal (Parte 5 – Final)

E chegamos ao final da resenha de cinto textos sobre Um Conto de Natal, de Charles Dickens. Caso esteja chegando agora e não tenha lido qualquer das partes anteriores, deixo os links a seguir: Parte 1Parte 2Parte 3 e Parte 4.

No início da jornada literária, alertei para o fato de que resenhar clássicos da literatura não era uma tarefa fácil. Como a resenha jamais se iguala ao texto original, corre-se o risco de suprimir algo ou dar mais importância para uma parte do que outra.

Um Conto de Natal, particularmente, possui cerca de 100 páginas (a consideração aqui é registrada a partir da edição de 2015 publicada pela Martin Claret, com tradução e notas de Roberto Leal Ferreira). Se reunirmos as cinco partes da resenha publicadas ao longo da semana, teremos em torno de 20 páginas (1/5 do conto).

Evidentemente que, no meio do caminho, alguns detalhes foram omitidos, mas por minha responsabilidade exclusiva. Em verdade, procurei resenhar as cenas do conto que considero mais importantes, enfatizando alguns diálogos marcantes, para que o leitor pudesse compreender a essência da estória e, acima de tudo, a lição oferecida.


Síntese de Parte 4: Scrooge recebeu a visita do Fantasma do Natal Futuro, o mais lúgubre de todos eles. O espectro lhe conduziu para ouvir de conversas triviais, em diversos cantos da cidade.

Embora Scrooge soubesse que os diálogos tinham importância, não compreendeu inicialmente que aquelas pessoas falavam dele (e não de alguém hipotético).

Na companhia do Espírito, Scrooge também compareceu à residência do auxiliar do escritório, Bob Cratchit, e presenciou, com muita tristeza, um pai que havia acabado de perder o seu filho. O pequeno Tiny Tim, com sua vozinha, sua mãozinha, fraquinho do jeito que estava, não conseguiu resistir.

Mas foi a visita no cemitério que mais chocou Scrooge. Olhando para o dedo imóvel do Espírito, leu sobre a pedra de uma sepultura abandonada o seu próprio nome (EBENEZER SCROOGE). Percebeu qual era o seu destino e, caindo aos prantos, desesperou-se.

Embora acreditasse não haver mais esperança, Scrooge, em um último gesto de súplica para reverter o próprio destino, segurou firme a mão do Fantasma, cuja túnica e capucho se transformaram numa coluna de cama.

A última parte do conto, que ora resenho, é intitulada “O Fim”.


Scrooge percebeu que estava em casa novamente. A coluna era da própria cama, em seu próprio quarto. E, o melhor de tudo: o tempo estava à sua frente para poder corrigi-lo. Scrooge pulou da cama, em êxtase:

– Viverei no Passado, no Presente e no Futuro! Os Espíritos de todos os Três hão de se esforçar ao máximo dentro de meu peito. Ah, Jacob Marley! Glória a Deus e ao Natal por isto! Digo-o de joelhos, velho Jacob, de joelhos!

Animado com suas boas intenções, Scrooge ria e chorava ao mesmo tempo, sem saber por onde começar. Não sabia quanto tempo havia passado com os Espíritos, mas pouco importava, porque tudo seria diferente:

– Sinto-me leve como uma pluma, feliz como um anjo, alegre como um colegial, tonto como um bêbado. Feliz Natal para todos! Feliz Ano-Novo para o mundo inteiro. Olé! Uau! Olé!

Aos poucos começou a identificar todos os lugares tradicionais da residência, que tinham sido modificados durante as viagens espectrais. Ficou feliz de ver que tudo estava em ordem novamente.

Ao ouvir os sons dos sinos, Scrooge correu até a janela e viu que o dia estava lindo. A luz do sol dourada, nada de neblina ou névoa, um frio puro, mas alegre. Viu, então, um menino passando e gritou:

– Que dia é hoje? 
– Hã?? – disse o menino, espantadíssimo.
– Que dia é hoje, meu amiguinho? – disse Scrooge.
– Hoje! – respondeu o garoto. – Mas hoje é NATAL!
– É Natal! – disse Scrooge – Não perdi o Natal! Os Espíritos fizeram tudo aquilo numa única noite. 

Scrooge estava radiante e voltou a falar com menino:

– Você conhece o vendedor de aves, na segunda rua, na esquina?
– Acho que sim!
– Menino inteligente! Um garoto notável. Sabe se eles venderam o belo Peru que estava pendurado lá? Não o Peru barato, mas o grandão?
– Aquele do meu tamanho? – perguntou o menino.
– Que garoto sensacional! – disse Scrooge. – Aquele mesmo, meu caro!
– Ainda está pendurado lá – respondeu o menino.
– Está? – disse Scrooge. – Vá lá e o compre.
– Não acredito! – exclamou o menino.
– Não, não. – disse Scrooge –, falo sério. Vá lá e o compre e diga a eles que o tragam aqui, para que eu lhes passe o endereço aonde devem entregá-lo. Traga o homem aqui e eu lhe darei um xelim. Volte com ele em menos de cinco minutos eu lhe darei meia coroa!

O menino saiu correndo como uma flecha até o vendedor de aves.

– Vou mandá-lo para a casa de Bob Cratchit! – sussurrou Scrooge, torcendo as mãos e estourando de rir – Eles não vão saber quem mandou. O peru é o dobro do Tiny Tim.

Scrooge anotou o endereço rapidamente. Ao descer, percebeu que o menino já havia chegado com o vendedor de aves, que apresentou o peru. Era, definitivamente, um grande peru. Scrooge pagou o menino, o homem e contratou um transporte para levar o peru até a residência dos Cratchits. Riu, feliz, até as lágrimas.

Vestiu uma roupa e saiu de casa. A multidão caminhava nas ruas com um espírito natalino muito presente. Scrooge olhava para todos com um sorriso maravilhado. Bom dia, meu senhor! Um Feliz Natal!, desejaram-lhe um grupo de pessoas.

Scrooge seguiu caminhando pelas ruas e avistou um dos cavalheiros que entrara em seu escritório de contabilidade na noite anterior. Perguntou ao homem se havia alcançado o seu objetivo de arrecadar verbas para auxiliar as pessoas necessitadas. O homem o reconheceu imediatamente:

– Sr. Scrooge?
– Sim – disse Scrooge. – Esse é o meu nome e receio que ele, talvez, não tenha lhe seja agradável. Quero pedir-lhe perdão. Teria o Senhor a bondade... 

Scrooge sussurrou alguma coisa no ouvido do cavalheiro.

– Meu Deus do Céu! – exclamou o cavalheiro, como sem fôlego. – Meu caro Sr. Scrooge, está falando sério?
– Por favor – disse Scrooge. – Nem um centavo a menos. Vão incluídos aí muitos juros de mora, eu lhe garanto. O senhor me faria esse favor?
– Meu caro senhor – disse o outro, apertando-lhe a mão. Nem sei o que dizer ante tanta gener...
– Não diga nada, por favor – replicou Scrooge. – Venha visitar-me. Posso contar com isso?
– Claro! – exclamou o velho cavalheiro. E estava claro que era essa a sua intenção.
– Muito obrigado! – disse Scrooge – Agradeço-lhe de coração. Mil vezes obrigado! Deus o abençoe!

Scrooge percorreu pelas ruas e observou a multidão correndo de cima para baixo. Deu tapinhas na cabeça das crianças, foi à igreja e conversou com mendigos. Jamais havia imaginado que um passeio qualquer pudesse lhe proporcionar tamanha felicidade. Ao final da tarde, dirigiu-se para a casa do sobrinho. Bateu à porta:

– Fred – disse Scrooge –. Sou eu. Seu tio Scrooge. Vim jantar. Posso entrar, Fred?

Com um caloroso aperto de mão, Scrooge entrou e teve um dos maiores natais de sua vida. Um festa maravilhosa, com jogos esplêndidos e uma felicidade indescritível.

No dia seguinte chegou cedo ao escritório, para surpreender seu auxiliar Bob Cratchit.

– Olá! – rosnou Scrooge, imitando o melhor que podia a sua voz habitual. – O que tem na cabeça para chegar a esta hora do dia?
– Sinto muito, senhor Scrooge – disse Bob. – Eu estou atrasado.
– Está? – repetiu Scrooge. – É verdade, acho que está mesmo. Chegue mais perto, por favor.
– É só uma vez por ano, senhor Scrooge – desculpou-se Bob – Não vai acontecer de novo. Eu me diverti muito ontem, patrão.
– Agora, vou dizer-lhe uma coisa, meu amigo – disse Scrooge – não vou mais tolerar esse tipo de coisa. E por isso... por isso vou aumentar o seu salário!

Bob estremeceu e acreditou que o patrão estava delirando. Mas Scrooge reforçou:

– Feliz Natal, Bob! Um Natal mais feliz, Bob, meu amigo, do que os que lhe tenho dado por muito anos! Vou aumentar o seu salário e tentar ajudar a sua família batalhadora, e vamos discutir os seus problemas esta tarde mesmo, junto a uma caneca natalina de ponche fumegante. 

Scrooge fez mais do que prometera. Fez tudo aquilo, e infinitamente mais. Tornou-se um amigo tão bom, um patrão tão bom, um homem tão bom, como jamais se viu naquela cidade (ou em qualquer outra).

As lições resultantes dos encontros com Espíritos mudaram completamente – para melhor  a sua vida. Scrooge passou a adorar a época natalina. Sempre diziam, inclusive, que ele sabia festejar o Natal melhor que ninguém.

E, para Tiny Tiny, que seguiu vivo e mais forte do que nunca, Scrooge foi um segundo pai.


No texto que introduziu a resenha (em cinco partes), enfatizei que, embora a ideia de uma resenha literária destoasse da proposta de textos veiculados no Canal Ciências Criminais, tinha a convicção que, ao final do conto, a mensagem oferecida aos leitores seria de muita valia.

Sigo inteiramente convicto do que escrevi, e posso seguramente dizer: até mais do que antes.

Não à toa Um Conto de Natal, de Dickens, é a ficção de Natal mais lida de todos os tempos. A lição de humanidade que ela oferece é de uma força extraordinária. Ela nos demonstra que, mesmo um velho avarento, solitário, de mal com o mundo, pode reavaliar suas atitudes e melhorar – tanto sua vida como a vida daqueles que estão à sua volta –.

De fato, todos devemos receber uma segunda chance. Infelizmente, a opinião de muitos, externalizada nas ruas –mas principalmente centralizadas nas redes sociais –, é de que não deve haver segunda chance para ninguém… Deve haver, sim, punição a todo e qualquer custo.

Nunca se viu, nos últimos anos, tantos exigirem a punição de tantos outros. Nunca se viu insinuações tão depreciativas com o jeito, a aparência e a opção sexual de outros. As redes sociais estão carregadas de ódio: basta abrir o Facebook e ler os comentários postados ao final de notícias e posts.

É tanta raiva concentrada no ambiente virtual, que muitas vezes ficamos com a sensação de que, por melhores que sejam as intenções, sejam quais forem, para modificar o cenário, continuamos enxugando gelo. Conheço essa sensação. E acredito que você, leitor, também a conhece.

A maior contradição de todos estes desejos punitivos, de todo esse discurso, é que as mesmas pessoas que vociferam “tolerância zero” para outros, exigem “tolerância dez” quando estão numa situação, por assim dizer, “ruim” (nem falaremos aqui na gravidade de ser investigado numa operação policial ou ser acusado num processo criminal).

De todo modo, não se consegue entender, por mais que se tente, como estes mesmos interlocutores acusam aqueles que defendem os direitos humanos – direito de toda e qualquer pessoa, inclusive eu e você, leitor – de “defensores de bandido” ou “coniventes com a criminalidade”.

É essa ignorância que precisa ser curada. Falo aqui da ignorância não no sentido pejorativo do termo (chamar alguém de “ignorante” sempre pode ofender). Refiro-me aqui no sentido de “desconhecer”: a maioria desses que ofendem, ignoram (desconhecem) a luta de muitos em prol dos direitos e garantias fundamentais.

Por isso desejo a todos essas pessoas não o mal, mas, sim, mais leituras, mais conhecimento, mais vivência, mais experiência e mais sabedoria. Mais vontade de mudar as coisas como estão. Para melhor.

Quando se derem conta da importância de se respeitar os direitos e garantias fundamentais; quando conseguirem se colocar na pele do outro, no lugar do outro e, juntamente com ele, sentir suas dores emocionais (empatia); e lutar por tudo isso, compreenderão, sem dúvida, a essência da própria vida.

Encerro aqui com a reflexão do filósofo Mario Sergio Cortella, desejando a todos ESPERANÇA, pois a coisa mais importante que nós podemos ter na vida, quando sentimos que não temos nenhuma outra coisa, é esperança. Mas, vale dizer, não a esperança do verbo esperar: devemos ter esperança do verbo esperançar.

A esperança, do verbo esperar, não é esperança: é espera. Esperar que tudo dê certo, esperar que tudo se resolva, isso não é esperança, é espera.

Esperançar, de onde vêm a palavra esperança, é ir atrás, é buscar, é não desistir. Por isso, quando você acredita que nada tem, mantenha a esperança. Como lembra o filósofo Albert Schweitzer, a tragédia não é quando um homem morre; a tragédia é o que morre dentro de um homem quando ele está vivo.

E o que não pode morrer jamais? A esperança.

Feliz Natal a todos!

Bernardo de Azevedo e Souza

Advogado (RS)