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Um Conto de Natal

Natal

Resenhar clássicos da literatura não é uma tarefa fácil. O resenhista, ao decidir resenhar um livro ou um conto, por menor que seja, corre o risco de escrever demais (ou de menos). Com isso, algumas vezes não consegue oferecer, nem de longe, a imersão que o autor desejou passar aos leitores no momento da escrita. O desafio, acredito eu, é maior quando o autor a ser resenhado é Charles Dickens, seguramente um dos maiores escritores que já existiu. E ainda mais ousado, sigo acreditando, quando se trata de Um Conto de Natal, que não apenas é a mais conhecida das histórias de Natal escrita pelo autor inglês, mas a ficção de Natal mais lida de todos os tempos. Muito se diz, inclusive, que Dickens é o criador do conceito de Natal que temos hoje.

Por isso, ao me desculpar de antemão por eventuais faltas ou excessos, na véspera natalina quero compartilhar com os leitores a resenha de Um Conto de Natal (conto também chamado Um Cântico de Natal). Serão publicados cinco textos ao longo dessa semana, um em cada dia, de acordo com a estrutura do conto (em cinco partes).

Embora a ideia de uma resenha literária destoe da proposta de textos veiculados no Canal Ciências Criminais, tenho a convicção que, ao final do conto, a mensagem oferecida aos leitores será de muita valia, e a reflexão oriunda dos textos possibilitará novos olhares e perspectivas para os velhos problemas que nos afetam diariamente.

Acredito que a atemporalidade de Um Conto de Natal, e a lição de humanidade por ele proporcionada, possa nos fazer repensar a forma de ver o mundo, nos tornando pessoas melhores. Assim, gostaria de convidá-los para, juntamente comigo, iniciar essa jornada literária. A primeira parte, a de hoje, intitula-se O Fantasma de Marley.


Ebenezer Scrooge era um velho muito avarento. Um verdadeiro mão de vaca nos negócios. Frio e ganancioso, sabia como ninguém espremer, arrancar, agarrar e apertar as pessoas para ganhar dinheiro. Era, no entanto, solitário como uma ostra: definitivamente não sabia se relacionar com ninguém.

Durante todos esse anos, ninguém jamais o parou na rua para dizer algo, feliz em encontrá-lo: Caro Scrooge, como tem passado? Quando nos vai fazer uma visita? Nenhum mendigo jamais lhe pediu um centavo. Nenhuma criança jamais lhe perguntou as horas. Ninguém jamais lhe perguntou o caminho para chegar a este ou àquele lugar.

Até mesmo os cães que serviam de guias aos cegos pareciam conhecê-lo. Quando viam Scrooge se aproximar, empurravam seus donos para dentro de um estabelecimento, para algum pátio. E, então, balançavam os rabos, como se dissessem: Pobre amo, mais vale não ter olhos do que um mau-olhado! Mas Scrooge mal se importava.

O avarento passava os dias em seu escritório de contabilidade, que tinha fundado com seu sócio Marley. Scrooge e ele foram sócios durante anos. Marley, no entanto, estava morto. Falecera há sete anos. Mesmo após a morte do sócio, Scrooge jamais apagou o nome do velho Marley. Ele permanecia lá, anos depois, em cima da porta da firma: Scrooge & Marley.

Scrooge foi o único executor testamentário de Marley. Foi seu único administrador, seu único amigo e o único que sentiu a sua morte. Mas Scrooge, ao que parece, não se sentiu tão terrivelmente arrasado com o triste acontecimento. Mesmo no dia do funeral se mostrou um excelente homem de negócios, comemorando a sensacional barganha que obteve para o enterro do sócio falecido. Scrooge realmente não se importava com ninguém.

Era véspera de Natal e o Scrooge trabalhava em seu escritório. O tempo estava frio, áspero e penetrante, e as ruas cobertas de neve. O velho, porém, estava bem aquecido em sua lareira. O mesmo não se poderia dizer do auxiliar da firma, cuja pequena lareira tinha um único carvão.

Scrooge guardava a caixa de carvão em sua sala e, avarento do que jeito que era, não dava nenhum para o ajudante. O velho ficava de olho no rapaz, que, envolvido num cachecol branco, tentava se aquecer junto à vela. Sem muito sucesso, o auxiliar, quase congelado, copiava cartas em seu cubículo.

Uma voz alegre tomou conta do ambiente. Era o sobrinho de Scrooge, desejando votos de felicidade:

– Feliz Natal, titio! Deus o abençoe!
– Ora bolas, que bobagem!
– O Natal, uma bobagem, titio! O senhor não quis dizer isso, não é?
– Quis, sim. Feliz Natal! Que direito você tem de estar feliz? Que razão você tem para estar feliz? Você é um pobretão!

Sem se abalar, o sobrinho referiu a importância da época natalina, um tempo de delicadeza, de perdão, de caridade e de alegria, em que homens e mulheres abriam seus corações e pensavam no próximo. O auxiliar foi tocado pelas palavras e, sem querer, aplaudiu, sendo repreendido por Scrooge. O sobrinho, então, continua:

– Não se zangue, titio. Venha jantar conosco amanhã.
– Boa tarde.
– Não quero nada do senhor, não peço nada ao senhor. Por que não podemos ser amigos?
– Boa tarde.
– Sinto muito, de coração, vê-lo tão decidido. Nunca tivemos nenhuma briga, de que eu tenha participado. Mas fiz a tentativa em homenagem ao Natal, e vou conservar o meu humor natalino até o fim. Então, feliz Natal, titio!
– Boa tarde!

O sobrinho saiu da sala sem qualquer palavra de irritação, desejando feliz Natal ao auxiliar que, por mais congelado que estivesse, estava mais aquecido que Scrooge, pois retribuiu cordialmente aqueles sinceros votos.

Tão logo o sobrinho deixou o escritório, chegaram dois sujeitos corpulentos com livros e papéis nas mãos. Retiraram rapidamente seus chapéus e cumprimentaram o dono da firma:

– Scrooge & Marley, creio eu. Tenho o prazer de me dirigir ao Sr. Scrooge ou ao Sr. Marley?
– O Sr. Marley tem estado morto nos últimos anos. Morreu exatamente sete anos atrás, nesta mesma noite.
– Não temos dúvidas de que a generosidade dele é bem representado por seu sócio ainda em vida.

Ao ouvir a palavra “generosidade”, Scrooge franziu o cenho. Os cavalheiros mencionaram que estão tentando levantar fundos para a comprar comida e bebida para os pobres, bem como roupas para doar:

– Escolhemos esta época do ano porque, entre todas, nela a carência muito se faz sentir, ao lado da abundância que festeja. O que devo marcar em minha lista em seu nome?

Mas o velho ranzinza em nada auxiliou, pedindo que os cavalheiros se retirassem e lhe deixassem em paz:

– Eu não fico feliz no Natal e não posso me empenhar em fazer com que gente preguiçosa fique feliz. Meus negócios já me ocupam o tempo inteiro. Boa tarde, senhores!

Os homens retiraram-se do local, entendendo ser inútil prosseguir com o diálogo. Scrooge se voltou ao trabalho. No lado de fora, enxergou a neblina e escuridão se tornando mais espessas, e o frio ainda mais intenso. Ouviu então um jovem falar do buraco da fechadura, oferecendo uma cantiga de Natal. Mas, ao primeiro som, Scrooge bateu com uma régua no buraco, com tal energia, que o rapaz se pôs a correr, apavorado, sendo entregue à neblina e ao gelo.

Já estava tarde e Scrooge começou a fechar o escritório. De má vontade, disse ao auxiliar:

– Acho que você vai querer folga o dia inteiro amanhã.
– Se não houve problema, senhor.
– Há problema, sim, e não é justo. Se eu retivesse meia coroa do seu salário pelo feriado, você se julgaria prejudicado, aposto. E, no entanto, você não acha que eu sou prejudicado, quando pago o salário de um dia inteiro para você não trabalhar.

Visivelmente abalado, o auxiliar disse que era apenas uma vez por ano. Mas Scrooge não sossegou:

– Má desculpa para bater a minha carteira a cada 25 de dezembro. Mas acho que você deve ter folga o dia inteiro. Esteja aqui bem cedo na manhã seguinte!

O auxiliar concordou. Scrooge fechou o escritório, resmungando, e se dirigiu ao mesmo melancólico restaurante de sempre para jantar. Satisfeito, retornou ao seu apartamento sombrio, que uma vez pertenceu ao falecido sócio Marley, em um edifício situado no fundo de um beco.

A entrado do apartamento era guarnecida por uma grande aldraba. Embora a peça de metal não tivesse nada de especial, naquele momento Scrooge, com a chave na fechadura da porta, viu nela o rosto de alguém. O semblante tinha um olhar fantasmagórico. Scrooge estremeceu, hesitando por um segundo, mas, ao observar com atenção o fenômeno, viu a aldraba voltar a ser como era.

O velho avarento trancou a porta, caminhou pelo corredor e subiu a escadas. Mas a lembrança do rosto ainda era muito presente. Checou o quarto em que iria dormir. Ninguém debaixo da mesa, nem no sofá, tampouco debaixo da cama. Satisfeito, fechou a porta por dentro, duas vezes. Vestiu o roupão, calçou os chinelos e pôs a touca de dormir.

Foi quando barulhos começam a entoar. Primeiro de sinos. Depois de ferragens, como se alguém arrastasse uma pesada corrente. Scrooge lembrou que fantasmas costumavam arrastar correntes nas casas mal-assombradas. Ouviu então um barulho mais alto, nos andares de baixo, depois subindo as escadas. Finalmente, na porta do quarto:

– Bobagem! Não acredito nisso!

Surpreendentemente, o mesmo rosto da aldraba apareceu diante de Scrooge:

– O que você quer comigo?
– Muita coisa!
– Quem é você?
– Pergunte-me quem eu era.
– Quem era você, então? Para uma sombra, você é bem estranho.
– Quando vivo, fui seu sócio, Jacob Marley.

Por instantes, o velho avarento não acreditou no que viu. O espírito soltou, então, um grito medonho e sacudiu sua corrente com um ruído tão apavorante que Scrooge se segurou firme na cadeira.

A voz do fantasma o perturbava até a medula dos ossos. Mas o terror foi ainda maior quando o fantasma tirou a bandagem que tinha ao redor da cabeça. Scrooge caiu de joelhos e bateu com as mãos no próprio rosto:

– Piedade! Medonha aparição, por que me perturba?
– Acredita em mim ou não?
– Acredito. Tenho de acreditar. Mas por que os espíritos perambulam pela terra, e por que vêm até mim?

O fantasma contou-lhe que as pessoas não generosas em vida com seus semelhantes eram condenadas, depois de mortas, a vagar pelo mundo em forma de espírito, testemunhando aquilo que já não poderiam mais usufruir. Por não ser misericordioso, tolerante e benevolente enquanto vivo, Jacob jamais poderia descansar: estava agora fadado a perambular eternamente, sem rumo ou destino, sem repouso ou paz.

Scrooge não parava de encarar as correntes, se perguntando porque a aparição as carregava.

– Carrego a corrente que forjei na vida. Fabriquei-a elo após elo, metro por metro; eu mesmo a cingi, por minha livre e espontânea vontade, e por minha livre e espontânea vontade hei de usá-la. Sua forma parece estranha a você?

Scrooge tremia cada vez mais. Queria palavras de consolo, mas Jacob não as tinha para oferecer. Scrooge sabia exatamente o que o destino havia lhe reservado. Foi quando que…

– Ouça-me! – disse o fantasma - Meu tempo já está quase acabou!
– Vou ouvir. Mas não seja duro comigo! Por favor!
– Aqui estou esta noite para alertá-lo de que você ainda tem a oportunidade e a esperança de escapar do meu destino. Uma oportunidade e uma esperança que eu lhe oferecerei, Ebenezer.
– Você sempre foi um bom amigo. Obrigado!
– Você será assombrado pro três Espíritos. Sem a visita deles, você não pode esperar evitar a estrada que trilho. Fique à espera do primeiro Espírito amanhã, quando o sino tocar uma hora.
– Não poderia trazê-lo todos de uma vez e acabar logo com isso, Jacob?
– Fique à espera do segundo na noite seguinte, à mesma hora. E do terceiro, na noite seguinte, quando a última das doze baladas da meia-noite deixar de vibrar. Não espere tornar a me ver e trate, para seu próprio bem, de se lembrar do que se passou entre nós!

Ao terminar de dizer aquelas palavras, o espetro afastou-se, caminhando para trás. A cada passo, a janela do quarto se abriu um pouco, até ficar escancarada. O fantasma fez sinal para que Scrooge se aproximasse da janela.

Scrooge foi até lá e olhou para a fora, perplexo. O ar estava repleto de fantasmas, que proferiam sons incoerentes de lamentação e remorsos. Velozes e incansáveis, as aparições iam e vinham entre gemidos de tristeza e autoacusação, cada um deles carregando correntes semelhantes àquelas ostentadas por Jacob Marley.

Scrooge conheceu muitos dos fantasmas pessoalmente, enquanto ainda viviam. Alguns deles estavam amarrados uns aos outros. Mas o velho Scrooge, ao ver tudo aquilo, percebeu: nenhum deles estava realmente livre.


A Parte 2 continua amanhã…

Autor

Advogado (RS)
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