ArtigosCrime, Arte e Literatura

Um Dia de Fúria e o mundo da tolerância zero

um dia de fúria

O filme Um Dia de Fúria é um sucesso tão grande que até mesmo a banda estadunidense Foo Fighters não resistiu ao apelo e também criou, aos moldes da película, um clipe musical que traz os sentimentos à flor da pele e a explosão de fúria de William Foster.

Um Dia de Fúria, de 1993, sob a direção de Joel Schumacher, tendo a brilhante performance de Michael Douglas, pode não ter sido à sua época considerado um aviso no que se transformaria a marcha do progresso e das relações humanas, porém, sem sombra de dúvidas, é o real e intensificado relato das vidas que se perdem em prol dos dinâmicos afazeres de nossa existência em sociedade.

O personagem principal não é o que se pode chamar de alienado ou alucinado. É mais uma síntese dos sentimentos que todos temos uma hora ou outra, mas não nos consideramos insanos. A paranoia urbana vive dentro da sociedade que traz em seu cerne o medo do hoje e o receio do futuro.

A explosão de Foster não se dá contra o caótico trânsito, pela perda de seu emprego ou até mesmo por seus problemas familiares e particulares.

Ela ocorre e é inflamada pela vida: o cotidiano presente e a prisão que enjaula o ser humano em uma mesma vala de sentimentos e inquietações, o mesmo despertar do desprazer num domingo à noite quando aproxima-se o início da semana seguinte; a mesma dúvida da aceitação e o sentimento de pertencimento que precisa ser preenchido todos os dias, a velocidade de tudo o que rodeia a pessoa: a caminhada de um mundo que não dá um tempo.

Inúmeras críticas podem ser vistas no filme, enquanto expectadores de uma presença maciça da violência e do medo aguardam estes que podem ser o carro chefe da vilania do personagem, nota-se que as pequenas coisas e situações da usual rotina, como a compra de um hambúrguer “enganoso” (acontece todos os dias!) ou o caos do trânsito (todos os dias!) são o estopim para inflamar a pólvora e consolidar o pulsar de uma demência que se engendra pelos pequenos atos que consideramos com resiliência.

Assim, a expectativa do filme se resume numa frase: o dia comum das pessoas.

Entretanto, vivemos uma época difícil.

Desemprego, dúvidas, terrorismo, a artificialidade dos laços humanos, a liquidez das relações, o descaso pelo coletivo e a falta de propensão pela política em seus aspectos mais estruturais, faz das pessoas meras espectadoras de uma vida que pulsa em busca da felicidade que não brota mais na fluidez da vida social, mas sim, na individualidade e na sensação de que custe o que custar, estamos sozinhos nesse vasto mundo de consumismo e prazeres instantâneos, e somente o indivíduo por si próprio, pode se satisfazer, exclusivamente.

A perda dessa pulsão ou do prazer (ou falta de possibilidades) pelas buscas que a atualidade nos traz pode ser o início de um Dia de Fúria, em uma capacidade de buscar um outro caminho para tal felicidade.

Todavia, não seria a fúria de William Foster o despertar do bom senso e discernimento diante a uma sociabilidade mecanizada ao extremo e da artificialidade das relações com as causas e motivos que regem a vida?

Não o transformaria sua ira num homem comum em busca dos propósitos essenciais para a boa vivencia como a verdade, alegria e a liberdade de ir e vir a qualquer lugar que sua iniciativa operar?

Para Foster, chega de resiliência, não mais empatia ou caridade. Sua vida o transformara para aquele momento onde qualquer ato seu seria extremo, em busca de sua verdadeira identidade; nem que para isso seja necessário optar pela violência paranoica que se estabeleceu em seu viver, naquele momento.

Dia desses, um policial civil de folga, disparou tiros que mataram uma mulher que participava de uma festa às proximidades de sua residência.

A alegação de que o disparou foi efetuado para conter as algazarras e barulhos que vinham da confraternização altas horas da noite e de que não teria mirado em alguém, mas sim, atirado ao esmo, demonstra que vivemos dias de tolerância zero.

As inúmeras brigas de trânsito por motivos fúteis e banais, os casos que assistimos todas as semanas nos tribunais do júri espalhados Brasil afora, mostra o quanto se vive épocas de inexoráveis sentidos de ira, vingança e intolerância.

A capacidade de transportar opiniões de ódio e divulgar o medo ou o receio, muitas vezes fundada em uma crença particular ou de um grupo extremista ficou facilitada com a internet e suas redes de comunicação.

O inimigo agora não é mais apenas o estrangeiro terrorista, ele está entre nós divulgando a intolerância e a hostilidade, que um dia explodirá nas mentes menos argutas contra qualquer reprovação que ocorra, num dia de fúria.

As redes sociais transportam inúmeros julgamentos individuais e variadas maneiras de enxergar situações que poderiam ser convalescidas por via da empatia ou da parcimônia.

Mas ela consegue transformar opiniões em máquinas de julgar e transformam o incauto em ator de atos criminosos que muitas vezes exerce o seu dia de fúria contra atitudes que julga não considerar correta, pois é a pauta da vez em suas redes de amizades virtuais.

A falta de responsabilidade na divulgação das opiniões de ódio, racismo, xenofobia, mixofobia são o pavio que resta ser aceso em um dia de fúria.

A falta de laços humanos mais consistentes e de uma harmonia social, causada por um individualismo crescente e na busca pela supérflua máquina consumerista, em prol da deglutição do prazer próprio, faz com que a fúria recaia aos grupos tidos como marginais ou estigmatizados, quando estes são alvos do julgo dos “intelectuais virtuais”.

Quando não há a possibilidade financeira dessa busca hedonística mistificada pelo consumismo frenético, a fúria impetuosa recai sobre os ódios impostos na vida de muitos extremistas que muitas vezes nem sabem que o são.

Intolerância, falta de bom senso, respeito e razão são os sentidos que governam o mundo hoje em dia e que move o direito penal por meio de seus processos cabulosos e artificiosos.

Tudo está interligado a Um dia de Fúria.

Mesmo que os tempos tenham mudado (1993 a 2017) o discurso é o mesmo e aquele aviso lançado por Joel Shumacher nos parece agora tão nítido como a propaganda de um sanduíche de alguma rede de fast food qualquer.


OBS: Agradecimentos ao amigo, leitor e estudioso Cleiton Sacoman pela sugestão do tema desse escrito.


REFERÊNCIAS

BAUMAN, Zygmunt. Confiança e medo na cidade. Rio de Janeiro, Zahar, 2009


Leia mais textos da coluna Crime, Arte e Literatura aqui.

Autor

Mestre em Direito. Professor. Advogado.
Continue lendo
ArtigosTribunal Criminal

Nós, os jovens tribunos, vistos por eles, os jurados

ArtigosDireito Penal

Direito Penal não se aprende nos telejornais, muito menos com os "formadores de opinião" da Internet

Artigos

(In)aplicação da reincidência na substituição de PPL por PRD

ArtigosProcesso Penal

Ainda sobre a prisão após condenação em segunda instância

Receba novidades em seu e-mail